
uma em cada seis crianças que usam a internet na África e na Ásia sofreu exploração sexual online.
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Um novo estudo da London School of Economics and Political Science (LSE), publicado na revista Nature nesta quarta-feira (27), traz um alerta sobre a escala da exploração e do abuso sexual infantil facilitado pela tecnologia: uma a cada seis crianças e adolescentes que acessam a internet em países da África e da Ásia já sofreu algum tipo de abuso sexual digitalmente.
A pesquisa, liderada por Sakshi Ghai, analisou dados representativos de quase 12 mil adolescentes, entre 12 e 17 anos, em 12 países da África Oriental e Austral e do Sudeste Asiático. Os resultados revelam que 17% das crianças usuárias de internet nessas regiões sofreram pelo menos uma forma de abuso digital no período de um ano.
Essa proporção, quando projetada para as populações nacionais, equivale a mais de 10 milhões de crianças afetadas apenas nos países estudados.
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O estudo é um dos marcos mais importantes para entender como a rápida digitalização em países de baixa e média renda tem exposto a maior parte das crianças do mundo a novos riscos que eram, até então, subestimados ou ignorados pela literatura científica, focada majoritariamente em países ricos.
Uma das descobertas mais notáveis da pesquisa é que, ao contrário do abuso sexual que ocorre no ambiente físico, onde meninas costumam enfrentar riscos significativamente maiores, no ambiente digital a prevalência é quase idêntica entre os gêneros.
Cerca de 16,9% dos meninos e 17% das meninas relataram ter passado por experiências de abuso mediadas por tecnologia.
O levantamento, parte do projeto Disrupting Harm, abrangeu nações como Etiópia, Quênia, Namíbia, Filipinas e Tailândia. Os autores enfatizam que os números reais podem ser ainda maiores, já que o estigma, o medo de repercussões sociais e a própria natureza do abuso podem levar as vítimas a não reportarem suas experiências durante a coleta dos dados.
Tipos de abuso mais frequentes
O estudo categorizou o abuso sexual facilitado pela tecnologia em nove tipos diferentes, variando de comentários sexuais a graves formas de extorsão. A forma mais comum de violência relatada foi o recebimento de imagens sexuais não solicitadas, afetando cerca de 10% dos jovens usuários de internet.
Os tipos de abusos citados incluem:
Recebimento de imagens sexuais indesejadas (9,6% das crianças);
Comentários sexuais que causaram desconforto (7,5%);
Solicitação para conversar sobre sexo ou atos sexuais (4,8%);
Pedidos de fotos ou vídeos das partes íntimas (4,2%);
Pressão ou pedidos para realizar atos sexuais (3,9%);
Ofertas de dinheiro ou presentes em troca de imagens sexuais (2,7%) ou encontros presenciais para sexo (2,8%);
Compartilhamento não consensual de imagens sexuais das crianças (2,8%);
Chantagem ou extorsão sexual (sextortion) para forçar atividades sexuais (2,5%).
A quantidade de casos variou drasticamente entre os países, refletindo diferentes níveis de conectividade digital e contextos culturais. As Filipinas registraram a taxa mais alta de abusos online, com 29% dos jovens usuários afetados, seguidas de perto por Uganda, com quase 28%. Em contraste, o Vietnã apresentou a menor taxa estimada, de 5,5%, o que pode indicar tanto uma diferença real na incidência quanto variações na probabilidade de as crianças denunciarem tais atos no contexto local.
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Vítimas veem obstáculos para denúncia
Apesar da gravidade dos incidentes, o estudo destaca que mais da metade das vítimas (51%) nunca revelou o ocorrido a ninguém. Quando as crianças decidem falar, elas recorrem massivamente a redes informais de apoio, ignorando quase completamente os mecanismos formais de denúncia.
A relação entre o suporte informal e o institucional é alarmante:
Amigos são os principais confidentes, sendo procurados por 46% das vítimas que optaram pela revelação.
A família também desempenha um papel, com revelações para irmãos (26%), mães (21%) e pais (20%).
Em contrapartida, os canais oficiais são raramente utilizados: apenas 3% procuraram a polícia, 3% utilizaram linhas de ajuda e somente 3% falaram com assistentes sociais.
A situação é particularmente crítica no ambiente escolar. Embora professores convivam diariamente com os jovens, apenas 9% das vítimas de abuso sexual online procuraram professores para relatar o ocorrido. Isso sugere uma falha profunda na percepção da escola como um porto seguro para lidar com danos digitais.
Entre as principais barreiras que impedem as crianças de buscar ajuda, o motivo mais comum é o desconhecimento de onde ir ou a quem contar, citado por 37,6% dos não-denunciantes.
Outros obstáculos incluem o sentimento de embaraço e vergonha (19,6%), o medo de se meter em problemas (10%) e a percepção de que o incidente não foi “sério o suficiente” para ser reportado (14,2%).
Riscos da idade e apoio dos pais
Um dado revelador do estudo é que, embora o risco de sofrer abuso sexual online aumente à medida que a criança envelhece, a probabilidade de ela denunciar o crime diminui. Jovens de 17 anos têm o dobro de chances de sofrer abuso digital em comparação aos de 12 anos, mas são significativamente menos propensos a revelar o ocorrido a adultos ou autoridades.
Por outro lado, o estudo identificou que a mediação parental ativa é um dos fatores mais fortes para incentivar a denúncia. Crianças cujos pais participam ativamente da vida digital, sugerindo formas seguras de usar a internet e oferecendo ajuda quando algo incomoda, têm taxas de revelação muito maiores. O conhecimento prévio sobre onde buscar ajuda após casos de assédio também se mostrou um preditor crucial para que a vítima rompa o silêncio.
