
Imagem da elefanta Happy, do zoológico do Bronx, nos Estados Unidos
Bebeto Matthews/AP
Happy, uma elefanta do Zoológico do Bronx (em Nova York) que ajudou pesquisadores a obter novos insights sobre o comportamento dos animais e se tornou o centro de um caso emblemático sobre direitos dos animais, foi sacrificada aos 55 anos, informou o zoológico nesta quarta-feira (27).
A elefanta asiática foi submetida à eutanásia na terça-feira (26), no zoológico onde viveu por quase meio século.
Segundo os responsáveis pelo local, algumas condições relacionadas à idade se agravaram nas últimas semanas, e ela apresentou sinais de perda de função renal ou hepática. Uma necropsia revelou artrite e grandes tumores uterinos inoperáveis, impossíveis de diagnosticar em elefantes por exames ou imagens, informou o zoológico.
“Ela era uma elefanta maravilhosa”, disse o diretor interino do zoológico, Craig Piper, em entrevista nesta quarta-feira, enquanto funcionários abalados lidavam com a perda do animal, de quem alguns cuidavam havia mais de 30 anos. “Ela foi uma enorme embaixadora dos elefantes e da conservação da espécie.”
Com a morte de Happy, Patty, de 57 anos, passa a ser a última elefanta em exibição na maior cidade dos Estados Unidos. A instituição responsável pelo zoológico, a Wildlife Conservation Society, decidiu há 20 anos parar de adquirir paquidermes.
Nascida na natureza, na Ásia, Happy foi levada aos Estados Unidos ainda com 1 ano de idade. Ela recebeu o nome de um personagem de “Branca de Neve e os Sete Anões” antes de chegar ao zoológico, em 1977.
Happy interagia intensamente com seus tratadores e era facilmente motivada com suas guloseimas favoritas, como melancia e morangos, disse Keith Lovett, diretor de programas animais do zoológico. Piper afirmou que ela às vezes escondia os petiscos na orelha para guardar para depois.
Em 2005, Happy mostrou aos pesquisadores que elefantes conseguem se reconhecer no espelho — um sinal de autoconsciência observado em poucas outras espécies. Durante o experimento, ela encarou seu reflexo e usou repetidamente a tromba para tocar um “X” pintado acima do olho, marca que só podia ver pelo espelho.
Ela viveu com outros elefantes até que sua última companheira morreu, em 2006. Depois disso, Happy passou a viver separada de Patty e de uma terceira elefanta, por preocupação de que elas não se dessem bem, embora, segundo Lovett, os animais pudessem se ver, se cheirar e se tocar através de uma divisória. A terceira elefanta, chamada Maxine, morreu em 2018.
Autoridades do zoológico disseram que a expectativa média de vida de elefantes asiáticos em zoológicos dos EUA é de cerca de 45 anos. Já a expectativa de vida na natureza é mais difícil de determinar.
Durante a vida de Happy, as exibições de elefantes em zoológicos passaram a ser cada vez mais questionadas. Alguns especialistas afirmavam que parques urbanos eram pequenos demais para animais acostumados a percorrer grandes distâncias na natureza. Ativistas dos direitos dos animais argumentavam que recintos de zoológicos não eram lugar adequado para paquidermes sociais e altamente inteligentes.
Alguns zoológicos encerraram suas exposições e transferiram os elefantes para santuários, enquanto outros continuaram defendendo a manutenção e reprodução dos animais, alegando que eles ajudam a despertar o interesse do público pela preservação da vida selvagem.
Um grupo ativista, o Nonhuman Rights Project, processou o Zoológico do Bronx em 2018, buscando que Happy fosse declarada uma “pessoa” para fins legais e transferida para um grande santuário animal. Segundo o grupo, foi o primeiro caso desse tipo envolvendo um elefante.
Usando um princípio jurídico aplicado em questionamentos sobre prisões ilegais, os ativistas afirmaram que Happy era “um ser não humano extraordinariamente complexo cognitivamente e autônomo”, privado ilegalmente de sua liberdade e sofrendo por viver confinada em um recinto sem outros elefantes.
Os responsáveis pelo zoológico disseram que Happy recebia cuidados rigorosos e tinha espaço para nadar, procurar alimento e exercer outros comportamentos naturais. Retirá-la de seu lar de longa data poderia prejudicá-la, argumentou o zoológico.
A mais alta corte de Nova York acabou rejeitando o pedido dos ativistas, por 5 votos a 2. Mais tarde, a Suprema Corte do Colorado tomou decisão semelhante em um caso envolvendo cinco elefantes de um zoológico no estado.
Ainda assim, dois juízes do tribunal de Nova York escreveram votos divergentes contundentes. Um deles classificou o cativeiro de Happy como “inerentemente injusto e desumano” e “uma afronta a uma sociedade civilizada”.
O Nonhuman Rights Project continua movendo ações envolvendo elefantes em vários outros estados.
O diretor-executivo do grupo, Christopher Berry, afirmou em comunicado divulgado na noite de quarta-feira que Happy “sempre será lembrada como a elefanta que abriu as portas dos tribunais para a discussão sobre os direitos legais de animais não humanos”.
Happy passou suas últimas semanas, por escolha própria, em um celeiro e área externa fora da exibição pública dentro de seu recinto, disse Piper. Em uma espécie de cuidados paliativos adaptados ao zoológico, os funcionários forneceram hidratação, alimentação e controle da dor, afirmou ele.
Enquanto isso, Patty está bem, informou o zoológico.
A Wildlife Conservation Society havia declarado em 2006 que, quando restasse apenas um elefante, o animal poderia ser transferido para outro zoológico, caso as circunstâncias fossem adequadas. Piper afirmou que o zoológico será “muito cuidadoso e criterioso” ao avaliar se Patty deve deixar o local onde vive há 53 anos.
