Existe uma armadilha muito comum nos mercados financeiros: achar que, porque os preços subiram demais, nós necessariamente sabemos o que vem depois.
Se o mercado de ações está em uma bolha, isso é perigoso. Mas talvez ainda mais perigoso seja ter certeza absoluta, independentemente de ele estar ou não.
Nas últimas semanas, vimos movimentos impressionantes. Em abril, as ações de semicondutores subiram mais de 38%, o melhor desempenho mensal do setor desde fevereiro de 2000. A Alphabet, controladora do Google, chegou a subir 10% em apenas um dia, adicionando mais de US$ 421 bilhões em valor de mercado numa única sessão. O segundo maior ganho diário de uma ação na história, segundo dados da Dow Jones Market Data.
Naturalmente, movimentos desse tamanho reacendem uma pergunta inevitável: estamos vivendo uma bolha?
A resposta mais honesta é: talvez. Mas é justamente aí que mora o problema.
Identificar uma bolha é muito mais difícil do que parece. Se fosse fácil, todos conseguiriam fazê-lo. E, se todos conseguissem perceber a bolha enquanto ela estivesse se formando, provavelmente ela nem chegaria a se formar. Os investidores veriam os preços inflando, sairiam do caminho ou apostariam contra aquilo, e a própria dinâmica da bolha seria interrompida antes de atingir seu estágio mais perigoso.
Além disso, existe uma diferença importante entre partes do mercado estarem de fato muito caras e o mercado inteiro estar em bolha. Em praticamente qualquer ciclo, sempre haverá alguma empresa, algum setor ou alguma narrativa subindo rápido demais, a ponto de parecer irracional. Isso não significa, necessariamente, que tudo esteja condenado a desabar.
Mesmo quando as ações parecem caras, como já pareciam há alguns anos, é muito difícil concluir que elas inevitavelmente entrarão em colapso. Pouquíssimas pessoas, por exemplo, anteciparam corretamente a dimensão do entusiasmo que a inteligência artificial provocaria nos mercados. E, depois da inteligência artificial, outra tecnologia transformadora pode surgir. Foi assim com a computação em nuvem, com o fracking, com a internet e com várias outras ondas de inovação que, em diferentes momentos, sustentaram grandes movimentos de valorização.
O desafio é separar uma grande tendência estrutural de uma euforia especulativa.
Alguns elementos ajudam nessa tentativa. Owen Lamont, gestor da Acadian Asset Management, que estudou profundamente episódios de extremos de mercado, costuma brincar que uma bolha é “quando eu acho que o mercado está caro e, depois disso, ele dobra de preço” como aconteceu em 1999, quando o Nasdaq 100 subiu 102%, depois de já ter subido 85% em 1998.
Mas, falando mais seriamente, ele identifica alguns ingredientes indispensáveis para uma bolha: preços elevados, alta volatilidade, grande volume de negociação e a disseminação daquilo que ele chama de “crenças de bolha”.
Em outras palavras: não basta o ativo estar caro. É preciso haver uma narrativa coletiva, quase contagiosa, sustentando a ideia de que dessa vez é diferente.
Eu acrescentaria outros dois ingredientes.
1- A perda de liquidez, e;
2 – Muitas de emissões de ações.
Foi o que vimos em 2020 e 2021, quando centenas de SPACs, aquelas empresas de propósito específico criadas para abrir capital e depois comprar algum negócio inundaram o mercado. Quando aquela bolha estourou, investidores externos perderam pelo menos US$ 100 bilhões.
O mesmo aconteceu na bolha pontocom do fim dos anos 1990, quando empresas como eToys, Pets.com e dezenas de outras companhias de internet, muitas delas sem modelo de negócio sustentável, correram para abrir capital e captar dinheiro enquanto o entusiasmo ainda estava vivo.
Até agora, pelo menos, não vimos uma enxurrada equivalente de novas emissões. Mas isso pode mudar. Se empresas como SpaceX, Anthropic, OpenAI e outras gigantes privadas decidirem abrir capital, como muitos esperam, esse será um fator importante a observar.
Talvez o sinal mais puro de uma bolha seja o comportamento de perseguição de performance.
O ativo sobe porque as pessoas estão comprando. Como ele sobe, mais pessoas compram. Como mais pessoas compram, ele sobe ainda mais. A valorização deixa de ser consequência de fundamentos e passa a ser combustível de si mesma.
Nos últimos meses, porém, parte do comportamento tem sido diferente. Muitos investidores individuais vêm comprando ações em momentos de queda, após notícias ruins sobre tarifas, guerras ou inflação. Isso é mais próximo de um comportamento contrario ao de comprar em momento teoricamente favorável.
Uma bolha típica não é “comprar a queda”. É “comprar porque está subindo”. Mas existe outro perigo menos óbvio: tentar ser esperto demais.
Se você tem certeza de que consegue identificar uma bolha, por que não acharia também que consegue prever quando ela vai estourar? E, se acredita nisso, por que não comprar justamente os ativos mais arriscados, aqueles que provavelmente subirão mais enquanto a bolha ainda estiver inflando?
Esse é o verdadeiro risco de tentar diagnosticar bolhas: começar a acreditar demais na própria capacidade de fazer isso.
Alguns investidores, convencidos de que ainda há espaço para a euforia continuar, aumentam a exposição até ficarem praticamente “all in”. Outros, assustados com a alta, vendem tudo e abandonam o mercado. Ambos os comportamentos são errados na minha opinião.
Ações não são um interruptor que você liga ou desliga. Poucos investidores deveriam estar com todo o patrimônio em ações. E poucos deveriam estar completamente fora delas. O futuro raramente é tão certo assim.
Talvez este seja um bom momento para fazer algo menos glamouroso, mas muito mais prudente: revisar a diversificação.
Isso significa não depender apenas do S&P 500. Significa olhar também para ações menores, mercados internacionais e classes de ativos que ficaram para trás. Significa avaliar se faz sentido rebalancear a carteira, vendendo um pouco daquilo que subiu muito, como grandes empresas americanas, e direcionando parte dos recursos para ativos que tiveram desempenho mais fraco recentemente, como determinados segmentos de renda fixa. E vale prestar atenção também ao comportamento do seu assessor financeiro.
Se ele demonstra certeza absoluta de que estamos em uma bolha, desconfie. Se ele demonstra certeza absoluta de que não estamos em uma bolha, desconfie também. A verdade é que ninguém sabe com precisão.
O mercado pode estar caro. Pode ficar ainda mais caro. Pode corrigir amanhã. Pode continuar subindo por anos. Pode haver excessos em algumas áreas e oportunidades em outras. Pode haver euforia em torno de inteligência artificial e, ao mesmo tempo, fundamentos reais sustentando parte dessa valorização.
Essa é justamente a dificuldade. Bolhas só parecem óbvias depois que estouram. Antes disso, elas se confundem com inovação, crescimento, otimismo, mudança tecnológica e expansão de lucros.
Por isso, a pergunta mais útil talvez não seja: “Estamos em uma bolha?” A pergunta melhor é: “Minha carteira sobreviveria bem se eu estivesse errado?” Porque, no fim, o maior risco não é deixar de prever a próxima bolha.
O maior risco é montar uma carteira que só funciona se a sua previsão estiver certa.
*Coluna escrita por Bruno Corano, economista, investidor e empreendedor, fundador da Corano Capital, com escritórios em Nova York e São Paulo.
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