
Quase 500 anos atrás, um homem marroquino percorreu milhares de quilômetros entre a Flórida e a costa do Pacífico, tornando-se o primeiro estrangeiro conhecido a atravessar o Oeste americano, séculos antes das famosas expedições que entrariam para os livros de história dos Estados Unidos. As informações são da BBC.
Em 1528, o africano desembarcou à deriva na costa do atual Texas praticamente entre a vida e a morte. Ele havia passado semanas perdido no Golfo do México ao lado de marinheiros espanhóis, em uma embarcação improvisada feita com troncos, couro de cavalo e pedaços de roupas rasgadas.
Quando uma tempestade lançou o grupo em uma ilha próxima a Galveston, eles se tornaram os primeiros homens vindos do “Velho Mundo” a entrar no Oeste da América do Norte.
Dos cerca de 600 integrantes da expedição espanhola que partiu rumo à Flórida um ano antes, apenas quatro sobreviveram: três capitães espanhóis e o escravizado marroquino, conhecido posteriormente como Estevanico.

Esteban de Dorantes, o primeiro explorador dos EUA
Também chamado de Esteban de Dorantes ou “Esteban, o Mouro”, ele é considerado um dos primeiros africanos, falantes de árabe e muçulmanos documentados a pisar no território que hoje pertence aos Estados Unidos, quase 40 anos antes da fundação das primeiras colônias europeias permanentes.
Entre 1528 e 1536, Estevanico percorreu aproximadamente 3,6 mil quilômetros desde a Flórida até a costa do Pacífico mexicano. Historiadores acreditam que essa tenha sido a primeira travessia registrada da América do Norte, cerca de 300 anos antes da famosa expedição de Lewis e Clark.
Durante a jornada, o marroquino foi capturado por povos indígenas, aprendeu idiomas nativos e acabou se tornando intérprete, guia e curandeiro do pequeno grupo de sobreviventes. Segundo pesquisadores, sua habilidade linguística foi decisiva para manter todos vivos.

Nascido em Azemmour, no atual Marrocos, o explorador teria falado árabe, tamazight, português e espanhol. Essa facilidade com idiomas ajudou o grupo a negociar passagem entre diversas comunidades indígenas enquanto cruzavam territórios desconhecidos.
Relatos históricos indicam que, durante anos vivendo entre os povos nativos, Estevanico aprendeu também técnicas de cura e rituais locais. Em determinado momento, ele e os espanhóis passaram a ser vistos como curandeiros milagrosos após ajudarem uma mulher doente que acreditou ter sido curada pelo grupo.
Com pulseiras de conchas nos braços, sinos presos aos tornozelos e carregando um chocalho feito de cabaça seca, Estevanico frequentemente caminhava à frente da expedição anunciando a chegada dos estrangeiros às aldeias indígenas.

Sua última grande missão ocorreu em 1539, quando foi enviado pelos espanhóis para procurar as lendárias “Sete Cidades de Ouro”, supostamente escondidas no atual território do Novo México e Arizona.
Segundo registros, ele se tornou o primeiro estrangeiro conhecido a entrar nas terras do povo Zuni. Pouco depois, porém, acabou morto por indígenas ao tentar acessar a cidade de Hawikuh, uma das localidades ligadas às lendas sobre riquezas escondidas.
Apesar de jamais encontrar cidades douradas, a jornada de Estevanico abriu caminho para futuras explorações espanholas no sudoeste dos Estados Unidos, influenciando diretamente a expansão colonial da Espanha na região.
Durante séculos, o marroquino permaneceu praticamente esquecido nos registros históricos. Nos últimos anos, porém, museus e monumentos passaram a resgatar sua memória.

Em 2016, uma estátua de bronze com mais de dois metros foi inaugurada no Capitólio do Texas, em Austin, homenageando Estevanico como o primeiro africano conhecido a chegar ao estado.
Museus no Novo México, Arizona e Texas também passaram a destacar sua trajetória como uma das mais extraordinárias, e menos conhecidas, aventuras de sobrevivência e exploração do continente americano.
Para a escritora marroquina-americana Laila Lalami, autora de um romance inspirado em sua vida, o fascínio em torno de Estevanico vai além da exploração.
