
Meu avô empunhou um fuzil duas vezes na vida. Na primeira, ao lado dos ingleses, para derrubar a máquina de extermínio nazista que ameaçava apagar o povo judeu da face da terra. Na segunda, contra os próprios ingleses, para que um Estado judeu finalmente existisse. Sefardita pelo sangue do meu pai, asquenaze pela alma herdada da minha mãe. Essas duas correntes, separadas por séculos de diáspora, por mares e por perseguições distintas, confluíram em mim. E é a partir desse lugar que escrevo.
Tenho guardada uma fotografia. Nela aparecem minha avó, minha tia e meu pai, de cabeça raspada, os dois ainda pequenininhos, em um campo de trabalhos forçados na Bulgária. Não é uma imagem de livro didático, não é um arquivo de museu. É uma foto de família, do tipo que deveria mostrar um piquenique, um aniversário, uma praia. Em vez disso, mostra o rosto de crianças e de uma mãe num lugar onde foram colocados porque eram judeus.
A Bulgária foi aliada da Alemanha nazista durante a Segunda Guerra. E embora tenha resistido, com rara dignidade, à deportação de seus judeus para os campos de extermínio, não poupou seus próprios cidadãos judeus dos campos de trabalho forçado. Minha família esteve em um deles.
E como se não bastasse roubar a liberdade, os alemães também roubaram o nome. Minha família se chamava Ninyo, nome sefardita, herdado dos judeus expulsos da Espanha em 1492, uma palavra do ladino, a língua que os judeus ibéricos carregaram consigo pela diáspora como tesouro portátil de identidade. Os alemães decidiram que esse não podia ser nome de judeus. Mandaram mudar. Como se a perseguição não bastasse, era preciso também apagar o rastro de quem se era antes de destruir quem se era agora.
Renomear um povo é o primeiro passo para desumanizá-lo. Os nazistas sabiamdisso. A história confirma.
Não escrevo para me queixar. Escrevo porque o silêncio tem sido, ao longo da história, o maior cúmplice da violência contra os judeus.

O Brasil que não sabe que tem raízes judaicas
Antes de falar do presente, é preciso voltar às origens, porque o Brasil tem uma dívida histórica que raramente aparece nos livros didáticos.
Os primeiros europeus a pisar de forma organizada nesta terra não eram apenas portugueses. Entre eles havia cristãos-novos: judeus convertidos à força pela Inquisição, que atravessaram o Atlântico carregando a Torá costurada no forro das roupas e os nomes hebraicos sussurrados apenas em segredo. Recife, no século XVII, abrigou a primeira sinagoga das Américas, a Kahal Zur Israel. Quando os holandeses perderam Pernambuco para Portugal em 1654, essa comunidade foi novamente dispersa. Parte foi para Nova Amsterdã, que mais tarde se tornaria Nova York. O mapa da diáspora judaica tem o Brasil como capítulo fundador, não como nota de rodapé.
Depois vieram as ondas migratórias dos séculos XIX e XX. Judeus fugindo dos pogroms do Leste Europeu, os massacres organizados ou tolerados pelo czarismo russo, que varreram aldeias inteiras na Ucrânia, na Polônia, na Bessarábia. Vieram para o Brasil porque a América do Norte fechava suas portas com cotas de imigração seletivamente antissemitas. Vieram para o Sul do Brasil, para o Rio de Janeiro, para São Paulo, construindo bairros, escolas, hospitais, sinagogas, e uma contribuição cultural, científica e econômica que este país jamais reconheceu adequadamente.
E depois vieram os sobreviventes do Holocausto. Homens e mulheres com números tatuados no braço e o vazio permanente de quem perdeu famílias inteiras. Eles reconstruíram vidas aqui. Calaram a dor. Trabalharam. E muitos dos seus filhos e netos, como eu, cresceram sem saber ao certo o quanto aquela dor moldou tudo ao redor.
Há também uma história menos contada: a dos cristãos-novos que, séculos depois de forçados à conversão, buscaram retornar ao judaísmo. Famílias no Nordeste brasileiro que mantiveram práticas judaicas em segredo por gerações, sem saber, muitas vezes, o nome do que faziam, mas incapazes de parar de fazê-lo.
Acendiam velas na sexta-feira ao entardecer, sem saber que celebravam o Shabat. Saíam porta afora e apontavam o dedo para a primeira estrela que surgisse no céu — gesto que, na tradição judaica, marca a entrada do dia sagrado. Mas as mães, para proteger o segredo, diziam aos filhos que nasceria uma verruga na ponta do dedo se apontassem para uma estrela. O medo infantil fazia o resto: a criança parava de apontar, parava de perguntar, e o ritual sobrevivia sem precisar ser explicado, nem denunciado. Era a sabedoria cruel de quem aprendeu que a inocência dos filhos podia custar a vida da família.
Evitavam carne de porco por “costume de família”, sem lembrar que era lei milenar. Recitavam orações em português arcaico que guardavam, na estrutura e no ritmo, a cadência do hebraico original. Pediam a bênção aos pais e avós, e estes pousavam a mão sobre a cabeça dos filhos num gesto que atravessa gerações desde os patriarcas. Preparavam mortalhas de linho branco para os seus mortos, porque o corpo deve partir para a terra da mesma forma que chegou: limpo, simples, sem ornamentos, o mesmo tahrichim que o judaísmo pratica há milênios. E ensinavam às crianças a nunca dormir com os pés apontados para a porta, pois assim saem os mortos, e os vivos não devem imitar a posição dos que partem.

Eram judeus que não sabiam que eram judeus. Ou que sabiam, e fingiam não saber, para sobreviver. O Brasil tem raízes judaicas mais profundas do que supõe sua própria ignorância.
O eterno bode expiatório
Há uma pergunta que qualquer judeu já ouviu ou se fez em algum momento da vida: por que sempre nós?
A resposta é incômoda para quem prefere narrativas simples. O judeu foi perseguido pelo Império Romano por recusar-se a adorar os deuses do Estado. Foi perseguido pela Igreja medieval como “assassino de Cristo”, acusação que o Concílio Vaticano II rejeitou apenas em 1965, depois de séculos de massacres. Foi perseguido pelos czares como agitador revolucionário e ao mesmo tempo pelos revolucionários como capitalista explorador. Foi perseguido pelos nazistas como raça inferior e pelos comunistas como agente do imperialismo. Hoje, é perseguido por parte da esquerda como colonizador e por parte da direita extremista como conspirador global.
O judeu ocupa, em diferentes momentos históricos, o papel que a sociedade precisa que alguém ocupe: o culpado. É uma função narrativa, não uma análise de realidade. Quando a economia vai mal, quando uma guerra não tem justificativa clara, quando o poder precisa desviar o olhar popular de suas próprias falhas, o judeu aparece como explicação conveniente.
Isso não é teoria. É registro histórico documentado em séculos de inquisições, pogroms, expulsões em massa e, por fim, no genocídio mais sistematicamente planejado da história moderna.
A guerra atual e o que não te contam
O conflito no Oriente Médio voltou a ocupar as manchetes, e com ele voltou também o velho reflexo: simplificar, escolher lados, e colocar o judeu no papel do vilão.
É necessário dizer com clareza o que os noticiários frequentemente omitem.
O Hamas, organização que governa Gaza desde 2007, tem em sua carta fundadora a destruição do Estado de Israel como objetivo explícito. O ataque de 7 de outubro de 2023 foi o maior massacre de judeus desde o Holocausto: mais de 1.200 pessoas assassinadas, entre elas bebês, idosos e jovens num festival de música; outras 250 levadas como reféns. Isso não é narrativa israelense. Está documentado por câmeras, testemunhos e organizações internacionais de direitos humanos.
A resposta militar israelense, com seus custos humanitários devastadores para a população civil de Gaza, é legítima de ser criticada. Guerras devem ser criticadas. Governos devem ser questionados. Mas há uma diferença fundamental entre criticar as políticas de um governo e desumanizar um povo. Entre cobrar responsabilidade do Estado de Israel e responsabilizar coletivamente cada judeu do mundo pelo que acontece em Gaza.
Quando manifestantes em universidades europeias e americanas gritam “morte aos judeus”, não “abaixo o governo”, mas morte aos judeus, estamos diante de antissemitismo, não de antissionismo. Quando sinagogas são pichadas no Brasil, quando crianças judias são intimidadas em escolas, quando professores universitários publicam mensagens celebrando o massacre de 7 de outubro, estamos vendo o ódio antigo com roupagem nova.
E a mídia, muitas vezes, falha em nomear isso pelo que é.
A representação que precisamos
A comunidade judaica brasileira tem cerca de 120 mil pessoas. É uma minoria numericamente pequena, mas com presença histórica e contribuição desproporcional em áreas como medicina, direito, jornalismo, literatura, ciências e empreendedorismo. E, apesar disso, é uma comunidade que frequentemente opta pelo silêncio, seja por trauma histórico, seja por medo de parecer “queixosa”, seja por uma espécie de assimilação defensiva que aprendeu a não se destacar.
Esse silêncio não protege mais. Talvez nunca tenha protegido.
É necessário que lideranças judaicas ocupem espaço público não apenas em datas comemorativas, mas no debate político cotidiano. É necessário que a história judaica no Brasil seja ensinada nas escolas, não como curiosidade, mas como parte constitutiva da formação desta nação. É necessário que o antissemitismo seja combatido com a mesma energia e seriedade com que se combatem outras formas de racismo e intolerância religiosa, porque ele é racismo, ele é intolerância, e ele mata.
É necessário, também, que a comunidade judaica construa pontes. Que se reconheça
na luta de outros povos perseguidos. Que o sofrimento histórico não vire muralha, mas sim empatia. O judeu que sobreviveu ao trabalho escravo no antigo Egito, aos guetos na Europa medieval e moderna, sabe, melhor que ninguém, o que significa ser tratado como sub-humano. Essa memória é um recurso moral, e desperdiçá-la no isolamento seria uma segunda derrota.
Uma herança que não se herda em silêncio
Meu avô morreu tendo lutado em dois lados opostos da mesma guerra pela
sobrevivência. Não era contradição, era a lógica brutal de quem nasceu numa época em que ser judeu significava não ter um lugar seguro no mundo.
Israel foi fundado para que houvesse pelo menos um lugar. Isso não o torna acima da crítica. Nenhum Estado está. Mas significa que sua existência não é negociável, e que quem a nega está, consciente ou não, defendendo o que os nazistas não conseguiram terminar.
Escrevo isso como brasileiro, como engenheiro, como filho de uma mulher que nasceu num táxi na Avenida São João, porque seus pais, judeus da Bessarábia, tinham chegado a São Paulo com tanta urgência que o tempo não esperou nem por um hospital. Filha de quem fugiu dos pogroms carregando a vida em malas e o medo no corpo, ela nasceu literalmente no meio do caminho, como metáfora perfeita de uma história que nunca parou de estar em trânsito.
E como neto de quem empunhou armas para que eu pudesse empunhar palavras.
O silêncio já foi tentado. Não funcionou.
* Isaias Veisid é judeu, brasileiro, engenheiro e membro efetivo do grupo Judaísmo sem Partido.
