
Luizinho Calixto com o neto e o filho, Thiago Calixto. O legado do pai segue firme no livro “Puxando o fole: a sanfona de 8 baixos e a alma do Nordeste”, de autoria dele. Obra que deve ser lançada ainda este ano. Três gerações ligadas pelo som do fole, respeito e memória
Roxanny Fotografia / Reprodução Instagram
As primeiras memórias musicais do paraibano Luizinho Calixto, referência do fole de 8 baixos, não começam no palco, mas sim na cozinha. Era ali que dona Maria mudava o ritmo do dia cantando músicas antigas enquanto cuidava da rotina da família. E com o olhar atento de mãe, percebeu cedo a admiração do filho pela sanfona.
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Chamou o mais velho, Zé Calixto, já respeitado no oito baixos, e insistiu que o menino Luizinho também tinha jeito para a coisa. Pouco tempo depois, a sanfona já ocupava espaço nas mãos pequenas da criança. Coincidência ou não, aos oito (anos, não baixos), veio a primeira apresentação do garoto Luizinho, em uma rádio de Campina Grande.
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No meio dos adultos, tímido e ao mesmo tempo inquieto, como qualquer criança diante de tanta gente, Luizinho Calixto ainda não imaginava que aquele instrumento contaria a história de vida, sobrevivência e superação da própria família. Cresceu tocando e, aos poucos, tornou-se, junto à família Calixto, um dos principais responsáveis por levar o fole de 8 baixos para o mundo:
“Foi difícil, sim. Mais difícil ainda é segurar essa popularização, que não é tão grande, né? Quase não temos instrumentistas de 8 baixos, é uma defasagem muito grande”, desabafa.
Antes de fazer história nas mãos do garoto, o fole roncava nos braços do pai. João de Deus, seu “Dideus”, respeitado pelo jeito firme e pela habilidade com a sanfona. Tocava em festas, encontros e até para homens do cangaço, em uma época em que a música levava alívio aos caminhos mais duros do Nordeste.
Foi nesse ambiente que Luizinho cresceu: aprendendo sem caderno, sem partitura e sem professor. O ensino acontecia no ouvido, na observação e na repetição diária dentro de casa. Décadas depois, a vida colocou o sanfoneiro, até então, improvável: ensinar o que ele aprendeu sem escola.
“Eu consegui criar o primeiro manual para tocar fole de 8 baixos em uma afinação que nem existia. Criei um método e levei esse método para a Espanha, África, Suíça, Argentina, Espanha… tudo isso para mostrar a outros povos, outras culturas, uma afinação que é nossa e que é única”, disse Luizinho Calixto.
Luizinho Calixto criou um método básico para aprender o fole de 8 baixos
Amana Midiaa / Reprodução/Instagram
Em 2012, quando Luizinho morava em Fortaleza, um convite veio direto de Campina Grande: ministrar uma oficina de 8 baixos, divulgar uma cartilha que ele criou em detalhes, um método básico que, segundo o próprio, nem existia.
E foi assim que, na Universidade Estadual da Paraíba, Luizinho Calixto formou novos sanfoneiros de 8 baixos; Instrumento que, pelas mãos e olhar do músico, passou pela inovação técnica e impulsionou novos mercados.
O então pró-reitor da UEPB, também músico e poeta, Rangel Júnior, foi quem, através do convite, fez Luizinho voltar para a Paraíba com a família e se dedicar ao curso:
“Fole de 8 baixos com afinação nordestina… ele me perguntou se eu conseguia imprimir a cartilha. Foi feita uma tiragem, ele foi contratado e terminou que deu certo, ele foi repatriado. Crianças, adultos e idosos aprenderam com ele. Uma contribuição imensa para a nossa cultura”, lembra Rangel.
Diferente da sanfona mais conhecida do público, a de 8 baixos carrega outra lógica, outro som e outra forma de tocar. O instrumento é menor, mais limitado em recursos e mais desafiador tecnicamente, o que exige de quem toca um domínio quase artesanal.
Uma sanfona diferente e outros ritmos
Cada abertura do fole muda as notas e o som sai diferente quando o ar volta. Possibilidades que permitem aos adeptos do instrumento ‘passear’ por outros ritmos. Bossa Nova, bolero, tango, valsa, entre outros, são apenas alguns dos ritmos que saem do fole de Calixto.
Espaço aberto para que o instrumento fosse muito além do forró e chegasse até ao frevo. No palco de Alceu Valença, por exemplo, a sanfona é muito bem-vinda e ganhou até outra velocidade, dialogando com metais, bateri e muita energia.
Quem entrega esse presente ao público é o sanfoneiro pernambucano André Julião, parceiro de palco de Alceu, na banda de pífanos elétrica do artista.
“Conheci Alceu Valença no Som Brasil, da Rede Globo. Ele me viu tocando e me chamou… pra atuar. Eu disse que não era ator, ele disse que sabia e que eu ia me encaixar no filme mesmo assim. Fiquei feliz não, me amostrei”, conta.
Esse foi o primeiro contato. Depois, Julião foi chamado para a banda, onde segue carreira até hoje. Reconhece o cachê melhor dos dias atuais, mas lembra que nem sempre as coisas foram fáceis: Tem o investimento na própria sanfona, que pode chegar a mais de cinquenta mil reais (quando não são as mais raras, que podem chegar a mais de cem mil reais), além dos custos com manutenção, transporte e até a segurança do instrumento. Além disso, o instrumento, em si, pode chegar a 15 kg, o que exige do músico até preparo físico.
Julião levou a sanfona ao frevo de Alceu Valença, com quem divide os palcos
Jefferson Tetto / Reprodução Instagram
Um malabarismo constante entre os altos custos e, na maioria das vezes, a baixa valorização do mercado. E por entre os instrumentos caros e cachês que minguam, mesmo em redutos tradicionais, como Campina Grande, existem, ainda, as mulheres sanfoneiras.
As dificuldades para as mulheres na sanfona
Em um universo historicamente marcado por homens, muitas mulheres que vivem do instrumento precisam enfrentar a instabilidade financeira, o preconceito e a disputa por reconhecimento, ainda distante dos palcos e da projeção nacional.
Um cenário que Ana Paula da Silva se enxerga bem. Aos 45 anos, ela carrega mais de duas décadas de relação com a sanfona. São 26 anos na busca por transformar a música em permanência, profissão em sustento, em um mercado que, segundo ela, oferece menos espaço para as mulheres.
“O tratamento é diferente, sim. Mulheres na sanfona, na zabumba, triângulo, não é algo comum. Tem muito preconceito por parte de homens e mulheres. Acham que a gente não toca forró pé de serra igual aos homens, só que a gente toca melhor. É mais bonito e mais charmoso”, diz.
Uma fala que, para muitos, pode soar provocativa; para a sanfoneira, é um desabafo de quem faz a economia girar de forma quase invisível.
Invisibilidade essa que é incompatível com os números: Dados do Sebrae, referentes a 2025, apontam crescimento da presença feminina na economia criativa e no empreendedorismo brasileiro, especialmente em áreas ligadas à cultura, produção artística e serviços criativos.
Na Paraíba, já são cerca de 160 mil mulheres empreendedoras, muitas delas atuando justamente em setores criativos e de prestação de serviços. Elas representam 35% dos empreendedores paraibanos.
Mais da metade dessas mulheres é chefe de família: 53,6%. Por outro lado, os dados também revelam que 70,5% das empreendedoras paraibanas ainda atuam na informalidade. Mais de 50% dessas mulheres relatam já ter sofrido preconceito no mercado pelo simples fato de serem mulheres.
Números que mostram um avanço, mas preocupam quando se fala em sobrecarga e desigualdade. Ao mesmo tempo em que as mulheres ampliam presença no empreendedorismo criativo, esbarram em uma realidade financeiramente instável.
“A gente vive em luta constante para ser reconhecida. Até a música que tocamos, também. O forró pé-de-serra não é valorizado. Aí vem manutenção da sanfona, figurino… Um investimento alto para ganhar pouco”, disse.
Sanfoneira mirim, Antonella Brasileiro tem apenas dez anos e já sustenta nos braços e nos palcos a responsabilidade de uma sanfona. O primeiro instrumento foi um de brinquedo, dado de presente pelo avô, quando ela era ainda mais jovem, aos seis anos de idade. Ela não gostou e cobrou seriedade. Queria uma sanfona de verdade.
O pai, Silvio Brasileiro, achou melhor levar a filha para uma aula de sanfona, antes de investir em um instrumento. Na época, o professor foi incisivo e disse que a menina levava muito jeito para a coisa.
“Ela super empolgada nessas aulas, aí tive que comprar uma sanfona pra ela de 48 baixos, aí foi só o foguete subindo. Depois investi em uma sanfona profissional de 120 baixos”, conta o pai.
Talento que já estava no sangue. “Descobri que temos parentesco com Sivuca, o meu avô era primo dele e era músico da Polícia Militar”, complementa.
Sendo o presente da sanfona, artistas que já vem de longe e os que chegam agora enxergam mesmo um futuro inteiro pela frente. Vida longa ao instrumento, reconhecimento e oportunidades de empreender em torno de uma arte que atravessa gerações sem perder a capacidade de se reinventar. E Antonella já enxerga esse roteiro muito bem escrito:
“Como eu imagino o meu futuro? Conhecendo muitos artistas, viajando pelo mundo todo… eu já sei que vou ser famosa, porque eu nunca desisto. Eu quero levar minha cultura para o mundo todo, pra todo mundo conhecer o que é Nordeste, o que é São João e o que é forró.”
Antonella Brasileiro ganhou a primeira sanfona aos seis anos de idade
Foto: Arquivo Pessoal
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