
Um vídeo gravado em abril de 2024 trouxe a primeira prova concreta de um fenômeno que pesquisadores e especialistas em vida selvagem da Espanha já suspeitavam há anos. As imagens mostram uma cobra-ferradura nadando pelas águas cristalinas que separam a costa leste de Ibiza do pequeno ilhéu de Santa Eulària, a cerca de 450 metros de distância, em busca de novos territórios e alimento. As informações são do The Guardian.
As imagens mostram uma cobra-ferradura nadando pelas águas cristalinas que separam a costa leste de Ibiza do pequeno ilhéu de Santa Eulària, a cerca de 450 metros de distância, em busca de novos territórios e alimento. pic.twitter.com/nYRCKNM2Zk
— iG (@iG) June 2, 2026
O registro confirmou que a espécie invasora, originária do continente espanhol, expandiu sua área de ocupação para novas ilhas do arquipélago das Baleares. Segundo os cientistas, o avanço do réptil representa uma ameaça direta aos lagartos endêmicos de Ibiza, animais que existem apenas nessa região e que já sofrem um declínio dramático de suas populações.
Pesacadores da região havioam denunciado o surgimento de cobras entre as ilhas
De acordo com o biólogo Oriol Lapiedra, do Centro de Pesquisa Ecológica e Aplicações Florestais (Creaf), havia diversos relatos de pescadores e turistas afirmando ter visto cobras nadando entre as ilhas. No entanto, até então não existiam evidências visuais que comprovassem o comportamento. O vídeo mudou esse cenário e reforçou a preocupação dos pesquisadores.

A cobra-ferradura (Hemorrhois hippocrepis), espécie não venenosa comum no sul e leste da Espanha, começou a aparecer em Ibiza há cerca de duas décadas. Sua chegada foi associada à importação de oliveiras centenárias do continente por proprietários de imóveis de luxo. Os troncos ocos e cheios de cavidades serviram como esconderijo para serpentes em hibernação e seus ovos, permitindo a colonização involuntária da ilha.
Vinte anos depois, a situação se tornou crítica. A espécie invasora já ocupa aproximadamente 90% do território de Ibiza e desenvolveu uma forte preferência alimentar pelos lagartos locais. O impacto foi tão severo que, em 2022, a União Internacional para a Conservação da Natureza elevou o status do lagarto-de-Ibiza (Podarcis pityusensis) de “quase ameaçado” para “ameaçado de extinção”.
Além do valor simbólico e turístico, os lagartos desempenham papel essencial no equilíbrio ecológico. Eles ajudam a controlar populações de insetos, incluindo pragas agrícolas, além de contribuírem para a polinização de flores e a dispersão de sementes. Os pesquisadores destacam ainda que cada ilha e ilhéu do arquipélago abriga populações com colorações únicas, resultado de milhares de anos de evolução isolada.
As autoridades das Baleares estimam que mais de 3.500 cobras-ferradura foram capturadas apenas no último ano. Desde 2016, mais de 16 mil exemplares foram removidos. Apesar disso, projeções indicam que a espécie poderá ocupar 100% da ilha até o final de 2027.
Outro fator que chama a atenção dos cientistas é o tamanho dos animais. Enquanto as cobras do continente raramente ultrapassam 1,8 metro de comprimento, exemplares encontrados em Ibiza já superaram os 2 metros e chegam a pesar duas vezes e meia mais do que seus parentes da Península Ibérica. A abundância de alimento e a ausência de predadores naturais favorecem esse crescimento incomum.
Os efeitos sobre a biodiversidade já são evidentes. Em Santa Eulària, pesquisadores registraram 72 lagartos em 2016. Em 2023, restavam apenas três indivíduos observados. Atualmente, dez populações únicas de lagartos em pequenos ilhéus já foram consideradas extintas, levando consigo linhagens evolutivas que nunca poderão ser recuperadas.
Como tentativa de salvar a espécie, foi criado em Barcelona um programa de reprodução em cativeiro conhecido como “Arca de Noé”, que reúne exemplares de oito populações distintas de lagartos. Embora os resultados iniciais sejam positivos, especialistas alertam que a velocidade da invasão das cobras deixa pouco espaço para otimismo.
Mesmo diante do cenário preocupante, há um fato curioso. As populações mais estáveis de lagartos sobrevivem atualmente em áreas urbanas de Ibiza. Nesses locais, as cobras costumam ser atropeladas com frequência ou eliminadas por moradores, reduzindo a pressão sobre os pequenos répteis.
Para os pesquisadores, porém, a perda contínua dos lagartos representa uma tragédia ecológica e cultural. Cada população extinta significa o desaparecimento de uma história evolutiva única, construída ao longo de milhares de anos. Lapiedra compara a situação à destruição de um patrimônio histórico insubstituível: “É como um incêndio em uma igreja antiga”.
