
A Finlândia está prestes a se tornar o primeiro país do mundo a colocar em operação um depósito geológico permanente para resíduos nucleares altamente radioativos. Localizada em Eurajoki, no sudoeste do país, a instalação chamada Onkalo, palavra finlandesa que significa “caverna”, foi construída a 433 metros de profundidade e deverá começar a receber combustível nuclear usado entre o final deste ano e o início do próximo. As informações são do Science Alert.
O primeiro cemitério de lixo nuclear
Escavado em formações rochosas com cerca de 1,9 bilhão de anos, o complexo foi projetado para armazenar de forma definitiva os resíduos gerados pelos reatores nucleares finlandeses. A expectativa é que a autoridade reguladora de segurança nuclear da Finlândia conceda a aprovação final nas próximas semanas, permitindo a emissão da licença de operação.

O projeto busca resolver um dos maiores desafios da indústria nuclear: o destino do combustível irradiado após seu uso nas usinas. Desde o surgimento das primeiras centrais nucleares, na década de 1950, países ao redor do mundo acumulam resíduos altamente perigosos que permanecem radioativos por dezenas de milhares de anos. Atualmente, a maior parte desse material é mantida em depósitos temporários.
O combustível armazenado em piscinas de resfriamento na usina de Olkiluoto, às margens do Mar Báltico, será o primeiro a ser transferido para o novo repositório. Com capacidade para armazenar cerca de 6.500 toneladas de urânio utilizado, o local foi dimensionado para receber os resíduos produzidos pelos cinco reatores nucleares em operação na Finlândia.

A construção do Onkalo começou em 2004 sob responsabilidade da empresa Posiva. O custo total do empreendimento já ultrapassa 1 bilhão de euros, equivalente a aproximadamente US$ 1,16 bilhão (R$ 5,84 bilhões).
O sistema de armazenamento foi desenvolvido para suportar escalas de tempo raramente consideradas em projetos de engenharia. O combustível usado será encapsulado em cilindros de cobre altamente resistentes à corrosão. Esses recipientes serão depositados em perfurações abertas na rocha, envoltos por argila bentonítica, um material capaz de impedir a circulação de água e aumentar a estabilidade do ambiente.
Após o preenchimento dos túneis, cada galeria será fechada com tampões de concreto reforçado e aço. O processo de deposição deve durar cerca de 100 anos. Ao final desse período, toda a estrutura será definitivamente selada.
Especialistas da autoridade nuclear finlandesa afirmam que os primeiros 10 mil anos representam a fase mais crítica para a integridade das cápsulas de armazenamento. Entre os riscos avaliados estão a corrosão dos recipientes metálicos e possíveis movimentos geológicos associados a futuras eras glaciais. Mesmo assim, os estudos de segurança realizados ao longo das últimas décadas apontaram resultados considerados satisfatórios.
Apesar do amplo apoio popular ao programa nuclear finlandês, grupos ambientalistas seguem preocupados. Críticos argumentam que nenhuma tecnologia pode garantir, com absoluta certeza, a contenção de materiais radioativos por períodos tão longos.
A Finlândia, entretanto, mantém sua aposta na energia nuclear como parte de sua estratégia energética. O governo também estuda a implantação de pequenos reatores modulares, conhecidos como SMRs. Ainda não foi definido como os resíduos dessas futuras unidades serão tratados, mas uma avaliação oficial sobre o tema deverá ser concluída no próximo ano.
Com o início das operações do Onkalo, a Finlândia poderá estabelecer um marco histórico na gestão de resíduos nucleares, oferecendo ao mundo um modelo inédito para o armazenamento permanente de materiais radioativos.
