A recente queda do dólar frente ao real tem levado brasileiros a antecipar planos de investimento nos Estados Unidos, especialmente por meio do visto EB-5, programa que concede residência permanente a estrangeiros que aportam capital em projetos no país. O movimento ocorre em meio à expectativa de possíveis ajustes nas regras do programa a partir do próximo ciclo fiscal americano, que começa em outubro.
Escritórios especializados em imigração e investimentos relatam aumento na procura nas últimas semanas, impulsionado pela combinação entre custo de entrada mais baixo, devido ao câmbio, e a perspectiva de mudanças regulatórias no horizonte. A avaliação é que investidores buscam aproveitar as regras atuais antes de eventuais revisões.
“Historicamente, momentos de variação cambial combinados com expectativa de revisão de regras geram picos de demanda. O investidor tenta ganhar previsibilidade ao antecipar a decisão. Até o final de 2025, nós recebíamos de 1 a 2 consultas por mês de brasileiros interessados no investimento, nos últimos meses, chegamos a atender até 20 interessados nessa modalidade de visto”, afirma Mila de Olano, vice-presidente da América Latina na EB5AN, empresa especializada em estruturação de investimentos para o visto EB-5.
Hoje, o programa exige um investimento mínimo de US$ 800 mil em projetos que gerem empregos nos Estados Unidos. Com a valorização recente do real, o valor necessário em moeda brasileira recua, o que pode representar uma diferença relevante no volume total aportado.
Na prática, o movimento acompanha uma tendência mais ampla de internacionalização de patrimônio entre brasileiros de alta renda. Dados do Departamento de Estado dos EUA, compilados pela IIUSA (Invest in the USA), associação americana do setor EB-5, mostram que a emissão consular de vistos EB-5 passou de 8.506 no ano fiscal de 2023 para 12.055 em 2024, crescimento de aproximadamente 42%, indicando aumento da demanda pelo programa. O Brasil se mantém como um dos principais mercados da América Latina, com 336 vistos emitidos no ano fiscal de 2024.
Historicamente, o programa também demonstra relevância econômica significativa. Estudo da IIUSA aponta que, entre 2016 e 2019, o EB-5 gerou US$ 75,2 bilhões em investimentos privados, criou 1,7 milhão de empregos e gerou US$ 14,5 bilhões em receitas tributárias.
Um investidor brasileiro do setor de logística, que prefere não se identificar, afirma ter antecipado o processo diante do cenário atual. “A decisão já estava no radar, mas o câmbio mais favorável e a possibilidade de mudanças nas regras pesaram para acelerar. Em processos como esse, previsibilidade faz diferença”, diz.
Além do fluxo brasileiro, o movimento se insere em um contexto global de mobilidade de grandes patrimônios. Levantamento da Henley & Partners, com base em dados da New World Wealth, aponta que mais de 120 mil milionários mudaram de país em 2023, o maior volume já registrado.
Apesar do cenário considerado favorável, especialistas alertam que o momento exige cautela. O modelo do EB-5 prevê que o capital esteja sujeito a risco e vinculado à geração de empregos, o que demanda análise detalhada dos projetos.
“O investidor precisa entender que não se trata de uma simples aquisição de visto, mas de um investimento estruturado. Avaliar o projeto e sua viabilidade continua sendo essencial, independentemente do momento de mercado”, afirma a VP da América Latina.
Criado em 1990, o programa EB-5 segue como uma das principais vias de obtenção de residência permanente nos Estados Unidos por meio de investimento produtivo, especialmente em um cenário de maior diversificação geográfica de patrimônio entre investidores internacionais.
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