
Projeto no interior do AC desidrata frutas amazônicas e gera renda
No Jordão, município do interior do Acre isolado por via terrestre, frutas abundantes na floresta enfrentavam um problema comum: muitas se perdiam antes de chegar ao consumidor. A dificuldade de transporte, os altos custos logísticos e a distância dos grandes centros tornavam inviável o aproveitamento de parte da produção local.
Foi dessa realidade que nasceu o Projeto Liofilização e Beneficiamento de Alimentos Orgânicos Tradicionais da Amazônia, que reúne cerca de 50 famílias indígenas e ribeirinhas no processo da liofilização de frutas amazônicas.
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A técnica, que retira a água dos alimentos por meio de um processo de desidratação a frio, permite aumentar a durabilidade dos produtos, preservar nutrientes e criar uma nova fonte de renda para comunidades do município.
Os idealizadores do projeto é o casal de médicos Marcela Thiemi Andrade Korogi e César Mancilha Carvalho Pedigone.
Desenvolvida pelo Instituto Flor da Floresta, a iniciativa conta ainda com a participação de produtores locais e lideranças comunitárias, entre elas a seringueira e ribeirinha Sebastiana Rocha, da Reserva Extrativista Alto Tarauacá, e Adriana Pereira de Souza, cozinheira especializada em alimentação tradicional.
Formada em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em medicina de família e comunidade, Marcela chegou ao município há cinco anos, pouco depois de participar de uma vivência com povos indígenas.
Marcela Thiemi e César Pedigone estão entre os idealizadores da iniciativa que transformou frutas que antes se perdiam em uma nova oportunidade de renda para famílias do Jordão
Cedida/Arquivo Pessoal
“Aqui encontrei o César, que se tornou meu esposo e então fundamos o Instituto Flor da Floresta, uma organização que trabalha com bioeconomia, povos indígenas e ribeirinhos, assistência social e ações em saúde”, contou.
Segundo ela, a ideia da liofilização surgiu entre 2022 e 2023, quando ela passou a observar que parte da produção dos agricultores era perdida por falta de alternativas de escoamento.
“Eu via diversas frutas da produção dos agricultores se perderem no Jordão. Somado à dificuldade logística de um município onde uma passagem para Rio Branco custa cerca de R$ 2 mil e o quilo do frete aéreo gira em torno de R$ 10, pensamos em um produto de valor agregado que pudesse gerar renda”, explicou.
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A proposta, segundo a médica, era encontrar uma alternativa capaz de reduzir os impactos do transporte, agregando valor à produção local sem abrir mão da sustentabilidade.
“Esse produto teria um pequeno peso, o que facilitaria o transporte para fora do município. Além disso, precisaria ser proveniente de algo local, sustentável e regenerativo, beneficiando produtores ribeirinhos e indígenas”, acrescentou.
Projeto desenvolvido no Jordão, interior do Acre, reúne famílias indígenas e ribeirinhas em torno da produção da liofilização de frutas amazônicas
Cedida/Arquivo Pessoal
Processo de liofilização
Diferentemente dos processos convencionais de desidratação, que utilizam calor para retirar a água dos alimentos, a liofilização é feita no frio e utiliza vácuo para remover a umidade.
Segundo Marcela, o método retira até 95% da água presente nas frutas e preserva boa parte de suas características nutricionais.
“A principal vantagem é que ele preserva até 98% das vitaminas e antioxidantes. Além disso, o produto pode ser armazenado por até dois anos sem conservantes, desde que esteja adequadamente acondicionado”, explicou.
A técnica começou a ser aplicada inicialmente no açaí, fruto nativo da região, mas logo passou a incluir outras frutas amazônicas.
“Hoje já liofilizamos também polpas de patauá, abacaba, buriti, graviola, entre outras frutas raras e consideradas superalimentos da Amazônia”, disse.
Açaí liofilizado e produzido no Jordão pode ser reconstituído com água e armazenado por longos períodos sem conservantes
Cedida/Arquivo Pessoal
Desafios e logística
Apesar dos avanços, Marcela conta ainda que os desafios continuam fazendo parte da rotina do projeto. A logística é apontada como o principal obstáculo para quem vive e produz no município, acessível principalmente por via aérea e fluvial.
“Hoje temos uma das gasolinas mais caras do Brasil, assim como o gás e a energia elétrica. O açaí, a abacaba e o patauá têm um tempo correto para retirada e despolpa. Se isso não acontece no momento adequado, as frutas podem estragar. Essa logística continua sendo um verdadeiro desafio”, afirmou.
Outro entrave enfrentado no início do trabalho foi a necessidade de qualificação da mão-de-obra. “Apesar de a produção de açaí ser tradicional, muitas práticas de higiene e controle microbiológico ainda não eram adotadas. Por isso tivemos que fazer diversas capacitações ao longo desses anos”, explicou.
Entre os aspectos que mais marcaram Marcela estão os conhecimentos transmitidos entre gerações. “Existe uma lua certa para plantar, um período certo para colher, um cântico específico para aquela semente, o benzimento das avós. Existe uma ritualização da vida que preserva saberes muito valiosos”, destacou.
Atualmente, a produção ainda ocorre em pequena escala. Segundo Marcela, cerca de quatro quilos de frutas liofilizadas são produzidos por mês.
A comercialização também permanece concentrada no próprio município. De acordo com a médica, os produtos são vendidos apenas no Jordão neste momento, enquanto a equipe trabalha para ampliar a capacidade produtiva e estruturar novas etapas do projeto.
Estrutura
Mesmo com os resultados alcançados, os responsáveis pela iniciativa afirmam que a estrutura disponível ainda é limitada para atender ao potencial da produção local.
Entre as necessidades apontadas estão:
Construção de uma unidade regularizada para o beneficiamento dos alimentos;
Melhorias na infraestrutura elétrica;
Ampliação da capacidade de armazenamento das polpas
Formalização de postos de trabalho.
A expectativa é consolidar uma cadeia produtiva capaz de agregar valor às frutas amazônicas e fortalecer a bioeconomia no município.
Capacitação de trabalhadores locais foi uma das etapas necessárias para estruturar a produção de frutas liofilizadas no Jordão
Cedida/Arquivo Pessoal
Marcela informou ainda que o grupo utiliza atualmente um liofilizador de pequeno porte. Um novo equipamento deve chegar ao município nos próximos meses para ampliar a capacidade de produção.
Segundo a Médica, o aumento da estrutura poderá permitir um crescimento gradual da quantidade produzida.
Apesar da expectativa de ampliar a produção, Marcela ressalta que a iniciativa não foi criada com foco em lucro.
“O objetivo do instituto não é gerar lucro. A ideia é pagar os salários, manter o funcionamento da iniciativa e reinvestir os recursos no próprio projeto do açaí, em outros programas sociais e em novas ações desenvolvidas pelo instituto”, explicou.
Reconhecimento nacional
O trabalho desenvolvido no Jordão ganhou visibilidade ao chegar à etapa final do 13º Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social.
Segundo Marcela, a equipe envolvida não esperava que uma iniciativa criada em um município tão distante dos grandes centros alcançasse projeção nacional. Entre mais de mil projetos inscritos, o projeto desenvolvido no interior do Acre avançou até a fase final da premiação.
“Quando começamos, a nossa preocupação era encontrar uma forma de aproveitar as frutas que estavam se perdendo e gerar renda para as famílias. Nunca imaginamos que esse trabalho pudesse chegar tão longe”, afirmou.
Para a médica, o reconhecimento ajudou a dar visibilidade não apenas ao projeto, mas também à realidade das comunidades da região.
“Muitas vezes as pessoas nem sabem onde fica o Jordão ou quais são os desafios de viver aqui. Participar de uma premiação como essa foi uma oportunidade de mostrar a riqueza que existe na Amazônia e o potencial das comunidades tradicionais”, disse.
Representantes do projeto desenvolvido no Jordão participaram da etapa final do 13º Prêmio Fundação Banco do Brasil de Tecnologia Social
Cedida/Arquivo Pessoal
O resultado foi divulgado no último dia 29 de maio, embora não tenha ficado entre os vencedores, Marcela destaca que o principal legado da iniciativa não está em premiações, mas na possibilidade de construir alternativas econômicas a partir dos recursos da própria floresta.
“Nosso maior objetivo continua sendo criar oportunidades para que as pessoas possam viver com dignidade no lugar onde nasceram, valorizar os conhecimentos tradicionais e preservar a floresta”, completou.
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