ZA investigação aberta pelos Estados Unidos contra o Brasil mudou a leitura sobre a nova rodada de tarifas. No centro da discussão do Painel BM&C, a avaliação foi que Washington colocou no mesmo tabuleiro comércio exterior, Pix, plataformas digitais, propriedade intelectual, Amazônia, segurança jurídica, instituições e crime organizado.
Para os analistas, a tarifa não deve ser observada apenas pelo impacto direto sobre exportações e importações. O movimento americano também funciona como sinalização política, em um momento de disputa por influência, reposicionamento das cadeias globais e questionamentos sobre a aproximação do Brasil com China e Sul Global.
“Então é óbvio que isso é um lado muito mais político do que econômico”, afirmou Roberto Dumas.
Pix vira símbolo de disputa sobre autonomia financeira
O Pix apareceu como um dos pontos centrais da investigação americana. Para Miguel Daoud, a justificativa contra o sistema brasileiro de pagamentos não se sustenta do ponto de vista econômico, já que o Pix foi criado pelo Banco Central para ampliar a bancarização e reduzir custos de transação no país.
Na avaliação dos participantes do Painel BM&C, o incômodo dos Estados Unidos está no fato de o Pix operar como uma infraestrutura financeira nacional, fora da lógica tradicional de bandeiras, adquirentes e intermediários globais. Apesar disso, Roberto Dumas avaliou que o sistema dificilmente será alterado por causa da investigação.
“O que o Pix atrapalha? O Pix é totalmente um sistema de pagamento que o Brasil fez para bancarizar o povo brasileiro”, questionou Miguel Daoud.
Tarifa deve afetar setores específicos, mas não resolve a balança americana
Do ponto de vista comercial, Dumas afirmou que o impacto mais direto da tarifa de 25% deve ficar concentrado em cerca de US$ 10 bilhões em máquinas, equipamentos, bens elétricos e eletrônicos. Para ele, esse é o ponto com maior chance de negociação, porque temas como Pix, Amazônia e propriedade intelectual não serão resolvidos dentro do prazo estabelecido pelos Estados Unidos.
Felipe Nascimento destacou que o mercado já acompanhava a ampliação da investigação pela Seção 301. Na avaliação dele, uma tarifa de 25% ainda traz impacto para empresas e cadeias produtivas brasileiras, mas é vista como um cenário menos severo do que a ameaça anterior de 50%.
“Vai ter impacto nos setores, em atividades produtivas do Brasil, mas é um tanto quanto melhor do que era o esperado”, avaliou Felipe Nascimento.
Crime organizado entra no debate e amplia risco para empresas e bancos
A inclusão de PCC e Comando Vermelho na discussão americana abriu uma nova frente de risco. Para Miguel Daoud, classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas pode deslocar o tema da esfera policial para uma lógica de segurança nacional, com possíveis efeitos sobre bancos, fintechs, empresas e investidores.
Dumas ponderou que, independentemente da classificação adotada pelos Estados Unidos, o Brasil precisa reforçar mecanismos de compliance. A preocupação, segundo ele, é que organizações criminosas já estejam presentes em setores formais da economia, o que pode elevar custos de controle, fiscalização e provisão no sistema financeiro.
Trump dá argumento político a Lula em meio à polarização
No campo político, Daoud avaliou que a ação de Donald Trump pode ajudar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a reforçar uma narrativa de defesa da soberania nacional. Segundo ele, governos tendem a usar ameaças externas para organizar apoio interno, especialmente em momentos de polarização.
O debate também abordou o impacto eleitoral da crise. Para os participantes do Painel BM&C, temas como Pix, tarifa e pressão dos Estados Unidos podem ser usados na comunicação política, mesmo que o eleitor médio não acompanhe todos os detalhes da disputa geopolítica.
“De certa forma sim, ele deu ao presidente Lula a chance de ter argumentos para questionar a ação de Flávio lá nos Estados Unidos”, analisou Miguel Daoud.
Mercado olha para tarifas, mas risco fiscal segue no centro
Apesar da tensão com Washington, Dumas afirmou que o principal fator de risco para os ativos brasileiros continua em Brasília. Na avaliação dele, a política fiscal expansionista, em um ambiente de juros elevados, pesa mais sobre a economia doméstica do que a disputa tarifária isoladamente.
O economista também afirmou que a combinação entre gasto público, consumo aquecido e investimento fraco mantém pressão sobre a política monetária. Para Dumas, a falta de coordenação entre fiscal e monetário dificulta uma trajetória mais confortável para juros, inflação e crescimento.
“É importante que a política fiscal, a política monetária sejam harmoniosas”, pontuou Roberto Dumas.
Economia americana também entra no cálculo das tarifas
O debate também passou pela situação econômica dos Estados Unidos. Dumas avaliou que Trump pode estar usando as tarifas como uma cortina de fumaça diante de problemas internos, como juros elevados, inflação resistente e pressão sobre a dívida americana.
Ainda assim, o economista ponderou que tarifas sobre máquinas e equipamentos podem aumentar custos nos próprios Estados Unidos. Isso porque parte dos produtos atingidos continua sendo necessária para a economia americana, o que pode reforçar pressões inflacionárias em um momento de cautela do Federal Reserve.
“Você coloca uma tarifa de 25% em máquinas e equipamentos que você precisa, você vai acabar importando mais inflação”, alertou Roberto Dumas.
Negociação será decisiva, mas disputa vai além da tarifa
Na conclusão do Painel BM&C, Felipe Nascimento destacou que o Brasil terá uma janela para apresentar argumentos, dialogar com os Estados Unidos e tentar reduzir o alcance das medidas. Para o setor produtivo, o caminho apontado foi o diálogo diplomático e empresarial, com foco em preservar uma relação construída ao longo de décadas.
O ponto central é que a tarifa passou a ser apenas uma parte de uma disputa mais ampla. A investigação americana conecta comércio, tecnologia financeira, crime organizado, segurança jurídica, política doméstica e geopolítica, exigindo de empresas e investidores uma leitura que vá além do impacto imediato sobre exportações.
“Tomara que a nossa diplomacia consiga dar um jeito nessa situação e causar o menos impacto possível”, concluiu Felipe Nascimento.
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