
O paulistano respira um pouco melhor. Mas ainda não respira bem. É essa a síntese que emerge do relatório iCapH 2026, divulgado pelo Instituto do Capitalismo Humanista (iCapH) para o município de São Paulo. A pesquisa, realizada nos dias 23 e 24 de maio de 2026 pelo Instituto Guimarães com 616 moradores distribuídos proporcionalmente por toda a área urbana da capital, registrou alta de 12% no Índice do Capitalismo Humanista em relação a 2025, saltando de 4.517 para 5.041 pontos. O número é animador. O que ele revela quando examinado com rigor, porém, não é. Não se trata de pesquisa qualquer. Por força da Lei Municipal nº 17.481, de 30 de setembro de 2020, o iCapH é oficialmente considerado de utilidade pública e instrumento orientador de políticas públicas no Município de São Paulo. A norma inseriu os princípios do capitalismo humanista como balizadores da ordem econômica local e determinou que o índice desenvolvido pelo Instituto do Capitalismo Humanista sirva de régua para as decisões da administração pública municipal. É, portanto, um termômetro com peso institucional, não um levantamento acadêmico de prateleira. E o que esse termômetro diz em 2026 é preciso: São Paulo continua na zona “Regular”. Pela oitava vez consecutiva desde que a série histórica foi iniciada em 2019, a cidade não conseguiu cruzar o limiar dos 6.000 pontos que a elevaria ao patamar “Razoável”. O pico foi atingido em 2023, com 5.525 pontos, puxado em grande medida pelo otimismo pós-pandemia. Desde então, o índice despencou para 4.517 em 2025 e agora recupera parte do terreno perdido. Ainda assim, está abaixo do nível de 2023. A recuperação de 2026 tem o cheiro de alívio conjuntural, não de transformação estrutural. Todos os doze fatores que compõem o iCapH subiram em relação a 2025. A metodologia, ancorada nos princípios da ordem econômica consagrados no artigo 170 da Constituição Federal, avalia cada um desses fatores em escala de zero a mil pontos, somando ao final um índice que pode chegar a 12.000. O melhor desempenho isolado ficou com a Busca do Pleno Emprego, único fator em zona “Razoável”, com 528 pontos. É também o único que apresenta trajetória consistentemente ascendente desde 2019, sem registrar nenhum ano de recuo significativo. Os demais fatores melhoraram, mas a narrativa que os números contam é a de um piso que não sobe. Soberania Nacional (485 pontos) e Livre Iniciativa (462 pontos) aparecem logo atrás do Pleno Emprego, mas seguem classificados como “Regular”. Defesa do Consumidor (450 pontos) e Valorização do Trabalho Humano (437 pontos) completam o grupo intermediário. Na base da tabela, dois fatores se destacam como feridas abertas. A Redução das Desigualdades Regionais e Sociais obteve apenas 288 pontos, o pior resultado entre todos os doze critérios, classificado como “Ruim”. Mesmo com alta de 24% em relação a 2025, o indicador de desigualdade nunca saiu da zona vermelha em toda a série histórica. Desde 2019, o melhor resultado alcançado foi 328 pontos, em 2023. É o retrato de uma ferida que, na melhor das hipóteses, cicatriza lentamente e, nas piores, sangra com força. A Propriedade Privada, por sua vez, registrou 316 pontos, segundo pior resultado da série, superando apenas o mínimo histórico de 250 pontos marcado em 2025. Mais de 54% dos entrevistados avaliam a garantia à propriedade privada como “Ruim” ou “Péssima”. Esse número merece atenção redobrada: a propriedade privada é pilar inegociável do capitalismo humanista. Quando a população não percebe esse direito como efetivamente garantido, não há recuperação conjuntural que tape o buraco. Talvez o dado mais revelador do relatório não esteja na pontuação do iCapH, mas no bloco dedicado ao grau de confiança institucional. A pergunta foi direta: o quanto o paulistano confia em empresas e empresários, bancos e instituições financeiras, e governo, para a conquista do bem-estar econômico? A resposta é um sinal de alerta para todos os atores. Empresas e empresários são os mais bem avaliados, mas com apenas 33,4% de confiança. Governo e bancos empatam no descrédito, com 70,4% de não confiança cada. Não se trata de ceticismo passageiro. Trata-se de uma crise de legitimidade que permeia todos os pilares institucionais da vida econômica. O cruzamento de dados aprofunda o diagnóstico. Entre os que confiam no governo, 42% avaliam o bem-estar econômico como ótimo ou bom. Entre os que não confiam, esse número cai para 18,3%. A percepção da qualidade de vida econômica está intimamente ligada à fé nas instituições, e essa fé está em colapso para a maioria expressiva dos paulistanos. O mesmo padrão se repete com bancos: entre os que confiam no sistema financeiro, apenas 9% avaliam o bem-estar como ruim ou péssimo. Entre os que não confiam, esse número salta para 32,3%. A desconfiança não é um dado sentimental. É uma variável econômica com efeitos concretos sobre o consumo, o investimento e a percepção de prosperidade. De fato, o iCapH foi concebido como ferramenta para medir até que ponto a economia capitalista brasileira, tal como desenhada pelo constituinte de 1988 no artigo 170 da Constituição Federal, está efetivamente se concretizando na vida das pessoas. A premissa é elegante e juridicamente consistente: a Constituição estabelece um modelo econômico que conjuga livre iniciativa com valorização do trabalho, propriedade privada com função social, soberania nacional com defesa do consumidor. O capitalismo humanista não é ideologia avulsa. É a leitura do texto constitucional. O que o relatório de 2026 mostra é que essa promessa segue muito distante da realidade percebida pelo paulistano médio. Em oito anos de medição, o índice nunca alcançou sequer a zona “Razoável”. Oscilou entre o “Regular” e a beira do “Ruim”, com um único pico moderado em 2023 que durou apenas um ciclo. A recuperação de 2026 é bem-vinda e real. Uma alta de 12% em um único ano não é trivial. Mas colocar 5.041 pontos em perspectiva histórica é um exercício que desconforta: significa que a cidade está exatamente no mesmo patamar onde estava em 2022, como se os últimos quatro anos tivessem sido um ciclo de queda e retorno ao mesmo ponto de partida. O capitalismo humanista, como proposta civilizatória, defende que mercado e dignidade humana não apenas coexistem, mas se potencializam mutuamente. O iCapH foi criado para medir esse potencial se realizando. O que a edição de 2026 revela é que São Paulo, a maior economia do hemisfério sul, ainda não começou a realizar essa promessa. A cidade chegou ao mesmo lugar de onde partiu quatro anos atrás. Isso não é diagnóstico de crise. É diagnóstico de estagnação. E estagnação, em termos de bem-estar econômico, é uma crise com outro nome. Dados: Pesquisa iCapH 2026, Instituto do Capitalismo Humanista / Instituto Guimarães. Coleta: 23 e 24 de maio de 2026. Amostra: 616 entrevistados, município de São Paulo. Margem de erro: ±3,9 p.p. (IC 95%). Ricardo Sayeg Jornalista. Advogado. Jurista Imortal da Academia Brasiliense de Direito e da Academia Paulista de Direito. Professor Livre-Docente de Direito Econômico da PUC-SP, da Universidade Federal do Rio de Janeiro e do INSPER. Pós-Doutor em Ciências Sociais e Doutor e Mestre em Direito Comercial, tudo pela PUC-SP. Oficial da Ordem do Rio Branco. Presidente da Comissão de Direito Econômico Humanista do IASP. Presidente da Comissão Nacional Cristã de Direitos Humanos do FENASP. Comandante dos Cavaleiros Templários do Real Arco Guardiões do Graal.
