Senador explica elo com Vorcaro: ‘Sou um dos mais importantes’

Investigações da PF apontam que Vorcaro pagaria ‘mesada’ a Ciro Nogueira no valor de R$ 500 mil por facilidades no CongressoReprodução

Nesta semana veio a tona mais uma vez a relação de proximidade do senador Ciro Nogueira (PP) com o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O parlamentar afirmou que sua relevância política expressiva no cenário nacional o colocou “naturalmente” em contato com grandes lideranças empresariais. Nogueira declarou que é “um dos homens mais importantes do país”.

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Segundo o senador, a justificativa explicaria os diálogos frequentes com o ex-banqueiro, que atualmente está preso preventivamente.  Mensagens reveladas pela Revista Piauí, a relação entre os dois ultrapassava as relações de negócios e revela forte intimidade, com o uso recorrente de termos carinhosos como “meu amigo”, “irmão” e “irmãozão”.

Num dos trechos interceptados, Ciro Nogueira mencionou a Vorcaro que havia adquirido um apartamento para sua esposa, mas que estava reformando e que demandaria até quatro meses. Na ocasião, o parlamentar solicitou maior tempo de permanência em um imóvel do empresário, em Brasília, que foi cedido para Nogueira.

Sobre o pedido, o dono do Banco Master respondeu que o parlamentar poderia “relaxar”, ao que Ciro Nogueira replicou garantindo que, caso Vorcaro precisasse do local, ele “daria um jeito” de sair. A mensagem foi finalizada por Ciro com a frase “saudade grande de você” e um emoji de coração.

Relação justificada por atribuições públicas

Segundo o senador piauiense, é comum o trânsito entre “todos os grandes empresários do país”, inclusive do setor financeiro e que isso faz parte de suas obrigações de líder partidário no Congresso. Nogueira considera tal “vínculo” como um “fruto da importância que ganhou no país”.

Na entrevista o senador também atenuou o impacto das acusações em sua base eleitoral e ponderou que episódios como esse costumam ser disseminados em períodos eleitorais – campanha política. Ciro Nogueira manifestou ares de tranquilidade ao declarar que “a população piauiense conhece seu trabalho”.

Senador Ciro Nogueira (PP) é citado como como ‘grande amigo’ de Daniel Vorcaro, é o que aponta mensagens interceptadas do celular do banqueiroPedro França/Agência Senado

Cenário contradiz Nogueira

Conforme as investigações conduzidas pela Polícia Federal (PF) no caso avançam e o cenário que é desenhado é de complexidade. Informações vazadas sobre as apurações, a corporação está verificando a suspeita de repasses mensais de Vorcaro ao parlamentar de até R$ 500 mil. A suposição é de que a “mesada” era para que Nogueira atuasse em defesa dos interesses do Banco Master no Congresso.

Os inquérito não para por aí. Ele aponta ainda para supostas vantagens indiretas ao senador como: custeio de viagens de alto padrão, hospedagens e pagamento de um cartão de crédito pessoal de Ciro Nogueira por parte do ex-banqueiro.

Registros oficiais mostram inclusive uma viagem do senador com Daniel Vorcaro para a França, realizada em janeiro de 2025. Nesta ocasião, uma de suas filhas e a então namorada do empresário também estavam presentes.

A PF analisa também as transações financeiras da CNFL Empreendimentos Imobiliários, empresa que tem como um dos sócios o senador, seu irmão, ex-esposa e filhas. Os policiais supõem que a empresa tenha sido utilizada como fachada, a fim de ocultar transferências de dinheiro indevidas oriundas do suposto esquema.

A defesa técnica de Ciro Nogueira rejeita categoricamente as acusações e sustenta que todas as relações comerciais e de amizade do parlamentar são puramente legais e que ocorreram de forma transparente. O senador classificou os mandados de busca e apreensão realizados em seu endereço e gabinete como atos de “perseguição eleitoral”.

A delação de Vorcaro

Do lado da mesa está a figura central da controvérsia, Daniel Vorcaro, que está detido preventivamente desde o dia 4 de março de 2026, dentro da Operação Compliance Zero, deflagrada pela PF, sob ordem do Supremo Tribunal Federal (STF). Ele é apontado pela polícia como suposto chefe de uma organização criminosa com envolvimento principal em fraudes bancárias bilionárias, gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro.

Para além dos crimes de colarinho branco, o inquérito mostra que o grupo do ex-banqueiro fazia uso de mecanismos tecnológicos robustos, incluindo operações de hackers e milícia privada, para que autoridades e jornalistas independentes fossem monitorados e espionados.

O caso ganhou novos contornos após a formalização de uma proposta de delação premiada ao Ministério Público Federal e a PF, na qual Vorcaro menciona a atuação do próprio senador Ciro Nogueira e também do senador Flávio Bolsonaro (PL).

Ciro Nogueira está cumprindo atualmente seu quarto mandato de oito anos no Senado, no no qual ingressou em 2011. Antes do “alto escalão” do Congresso, o político exerceu mandatos consecutivos como deputado federal pelo Piauí – quatro no total. Em 2021, na gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente preso, alcançou visibilidade no Executivo ao assumor a cadeira de Ministro-Chefe da Casa Civil.

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