
Os ataques sofridos por um menino de 11 anos e uma jovem de 19 anos nesta semana voltaram a colocar Pernambuco no centro das discussões sobre a presença de tubarões no litoral brasileiro. A região concentra o maior número de ocorrências do país desde os anos 1990, e especialistas afirmam que fatores ambientais, condições do mar e intervenções humanas ajudam a explicar por que esses encontros acontecem com mais frequência.
Segundo reportagem da Agência Brasil, pesquisadores destacam que os incidentes não são resultado de um comportamento agressivo dos tubarões em busca de seres humanos. Na maioria das vezes, as mordidas acontecem porque os animais confundem banhistas com possíveis presas durante a busca por alimento.
Dados do Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit) mostram que Pernambuco e Fernando de Noronha registraram 84 ataques desde 1992, quando o monitoramento começou a ser realizado oficialmente. Somente a Praia de Boa Viagem, no Recife, contabilizou 25 ocorrências no período.
Dois ataques recentes reacenderam o alerta
O debate sobre os ataques de tubarão ganhou força novamente após dois casos registrados nesta semana no litoral da Região Metropolitana do Recife.
O primeiro envolveu um menino de 11 anos, que foi atacado enquanto estava no mar em uma área considerada de risco. Poucos dias depois, uma jovem de 19 anos também sofreu um ataque em uma praia da região. Ambos seguem internados, em estado grave, no Hospital da Restauração, em Recife.
Os dois casos mobilizaram equipes de resgate e voltaram a chamar atenção para os cuidados necessários em trechos do litoral pernambucano que convivem há décadas com a presença frequente de tubarões.
Segundo especialistas ouvidos pela Agência Brasil, os episódios reforçam a importância de respeitar a sinalização instalada nas praias e evitar entrar no mar em condições consideradas mais favoráveis para a aproximação dos animais, como períodos de maré alta e água turva.
Obras em Suape mudaram a dinâmica da região
Entre os fatores apontados pelos especialistas está a construção do Complexo Industrial Portuário de Suape, na Região Metropolitana do Recife.

Pesquisas citadas por especialistas indicam que as obras alteraram áreas importantes para a reprodução e alimentação dos tubarões. Segundo o biólogo marinho Marcelo Szpilman, a implantação do complexo provocou impactos em manguezais e fechou duas desembocaduras de rios.
Essas áreas funcionavam como corredores naturais utilizados principalmente por fêmeas de tubarão-cabeça-chata para reprodução e desenvolvimento dos filhotes. Com a alteração desses ambientes e a redução da oferta de alimento na região, parte dos animais teria migrado para áreas mais próximas das praias da Grande Recife.
De acordo com os pesquisadores, essa mudança aumentou a possibilidade de encontros entre tubarões e frequentadores da orla.
Condições do mar favorecem encontros com tubarões
Além das mudanças ambientais, algumas condições naturais podem aumentar o risco de incidentes.
Uma delas é a maré alta. Nesse período, os tubarões conseguem ultrapassar com mais facilidade as barreiras formadas pelos recifes, aproximando-se das áreas utilizadas por banhistas.
Outro fator importante é a água turva, situação comum durante períodos chuvosos. Quando a visibilidade diminui, os tubarões passam a depender mais de estruturas sensoriais chamadas ampolas de Lorenzini, pequenos receptores localizados na região da cabeça que funcionam como uma espécie de “sexto sentido”.
Esses sensores conseguem detectar campos elétricos emitidos por outros seres vivos, ajudando os tubarões a localizar possíveis presas mesmo sem enxergá-las claramente. Em algumas situações, isso pode levar o animal a se aproximar de uma pessoa para realizar uma chamada mordida investigativa, usada para identificar o que está à sua frente.
Cabeça-chata lidera registros de ataques
Segundo os especialistas, cerca de 90% dos ataques registrados na Grande Recife envolvem o tubarão-cabeça-chata.

A espécie é conhecida por conseguir viver tanto em água salgada quanto em rios e estuários, o que amplia sua área de circulação. Já o tubarão-tigre responde por aproximadamente 10% dos casos e costuma frequentar regiões mais profundas e afastadas da faixa de areia.
Na Praia de Boa Viagem, pesquisadores também apontam a existência de um canal submarino próximo à costa, utilizado por peixes e tubarões durante seus deslocamentos. Essa característica ajuda a explicar a maior presença dos animais em determinados pontos da orla.
Como reduzir os riscos no mar
Especialistas recomendam evitar entrar na água durante períodos de chuva intensa, quando a visibilidade fica reduzida. Também é aconselhável não nadar em áreas sem proteção de recifes, principalmente durante a maré alta.
Outras orientações incluem evitar o banho de mar ao amanhecer e ao entardecer — horários em que os tubarões costumam estar mais ativos — e não entrar na água com ferimentos ou sangramentos, já que os animais possuem olfato altamente desenvolvido.
Atualmente, Pernambuco conta com mais de 150 placas de alerta distribuídas ao longo de 33 quilômetros de litoral para orientar moradores e turistas sobre os cuidados necessários em áreas monitoradas.

