
Selma Maria da Silva e Simone Madeiro compartilham a paixão por doces em Bom Despacho.
Arquivo pessoal
Da roça à vitrine de uma confeitaria, qualquer doce passa pelos mais variados processos de produção e diferentes. No entanto, uma coisa não muda: a paixão de quem o faz.
Seja o doce caseiro, aquele feito na roça carregado de memória afetiva, ou o profissional, que carrega receitas clássicas da confeitaria mundial, duas confeiteiras do interior de Minas Gerais transformaram os doces em fonte de renda e até mesmo a cura para a depressão.
Para comemorar o Dia da Doceira, celebrado no sábado (6) e homenagear essas mulheres que alegram o dia de milhares pessoas com seu “docinho do dia”, o g1 conta as histórias de Selma Maria da Silva e Simone Madeiro.
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Paixão que começou na roça
Selma Maria da Silva fazendo o seu tradicional doce no tacho
Carla da Silva/ Arquivo Pessoal
A trajetória na produção de doces de Selma Maria da Silva, de 59 anos, moradora do distrito de Engenho do Ribeiro, em Bom Despacho, começou na roça, ainda na infância, observando a mãe. Anos depois, essa prática que ajudava nas despesas da casa se tornou seu maior porto seguro.
A relação de Selma com os doces vem de berço. Nascida e criada na roça, ela aprendeu a arte com a mãe, observando cada movimento, cada ponto da calda.
“Eu morava na roça e minha mãe fazia muito doce, eu pegava e fazia. Depois casei e passei a fazer para a despesa mesmo”, relembrou.
No entanto, a mudança do campo para a cidade marcou um momento crítico. Longe da paisagem que sempre conheceu e se adaptando a um novo ritmo, Selma sentiu o peso do isolamento.
“Eu vim embora para a cidade, vim morar na casa da minha menina e quase entrei em depressão”, disse.
Foi a própria filha quem percebeu como a mãe estava triste. E como tratamento, a sugestão de voltar a fazer os deliciosos doces.
“Minha filha disse: ‘mãe, por que a senhora não começa a fazer doce para vender? Os doces da senhora são muito bons’. E assim eu voltei a fazer as receitas que fazia na roça”.
Selma voltou para a cozinha não apenas para cumprir uma tarefa, mas para resgatar quem ela era. O ritual de descascar a laranja, de limpar a raiz de mamão, de cuidar do doce de leite e da tradicional brusia (doce de ovo) se tornou o seu refúgio.
“Acostumei, graças a Deus. O dia de descascar a laranja, de preparar a raiz, aquilo ali você vai distraindo”, contou.
E além da cura, o doce de Selma circula pelas casas em Bom Despacho e retorna para ela na forma de renda, gratidão e reconhecimento.
“Eu fico alegre com os elogios dos outros, a gente tá fazendo isso com amor, né? Quando a pessoa fala que meu doce é tão bom, eu acho bom demais. Isso me dá forças”, finalizou.
Curiosidade infantil que se transformou em profissão
Simone Madeiro dona da ” Maria Doce”
Simone Madeiro/ Divulgação
Simone Madeiro, de 41 anos, também de Bom Despacho, gosta de fazer doces desdemuito cedo. O que começou como uma curiosidade infantil, alimentada por programas de televisão e pelos primeiros testes na cozinha de casa, se transformou ao longo das décadas em uma carreira sólida e respeitada. Hoje, à frente da “Maria Doce”, Simone representa a profissional de confeitaria.
Para ela, a confeitaria nunca foi apenas um passatempo e lembra com clareza da primeira experiência de sucesso: um bolo de fubá com queijo.
“Deu super certo! Acho que foi uma daquelas experiências que deixam uma memória afetiva”, recordou.
No entanto, o desejo de elevar a paixão a um outro nível levou Simone a buscar formação acadêmica em Gastronomia.
Foi durante sua primeira experiência profissional em uma cafeteria em Belo Horizonte que ela conheceu a realidade da confeitaria.
O caminho, contudo, não foi simples. Simone recorda dos desafios iniciais, onde receitas davam errado e ingredientes eram perdidos.
“Foi uma fase de muito aprendizado, persistência e crescimento”, definiu.
Ao decidir transformar seu amor pelos doces em fonte de renda e abrir a Maria Doce, Simone enfrentou um desafio que muitos confeiteiros desconhecem: a transição do “fazer” para o “gerir”. Para ela, o maior obstáculo não estava no forno, mas na gestão.
“Eu sabia fazer doces, mas precisei aprender sobre a parte financeira e administrativa. Com o tempo entendi que empreender vai muito além da cozinha: é preciso cuidar de cada detalhe para o sonho crescer”, explica.
Hoje, a vitrine da Maria Doce é um reflexo desse equilíbrio entre a criatividade artística e a disciplina empresarial. Seus brigadeiros, fatias de bolo, brownies e cupcakes são o resultado de uma confeitaria de sucesso.
*estagiária sob supervisão de Guilherme Gonçalves.
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