Quem são Roberto Sánchez e Keiko Fujimori, e o que poderá ser decisivo na eleição no Peru, um país ‘ingovernável’


A candidata de direita à presidência do Peru, Keiko Fujimori, e o candidato de esquerda, Roberto Sánchez
REUTERS/Alessandro Cinque
O Peru vai eleger neste domingo (7/6) o seu nono presidente em apenas uma década.
Após um primeiro turno conturbado e uma contagem de votos que se prolongou por um mês, o país volta às urnas em um clima de incerteza política.
A direitista Keiko Fujimori, herdeira do movimento fujimorista e que obteve 17,92% no primeiro turno, disputa a Presidência contra o esquerdista Roberto Sánchez, que alcançou 12,03% dos votos.
Esta eleição repete um padrão que tem caracterizado a política peruana nas últimas décadas: um confronto entre o fujimorismo e outro candidato, no qual o antifujimorismo costuma desempenhar um papel determinante.
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Keiko Fujimori, filha e herdeira política do polêmico ex-presidente Alberto Fujimori, tem se destacado por sua persistência.
Esta é a quarta vez que Keiko se candidata à Presidência e ela não reconheceu os resultados das duas últimas eleições — nas quais foi derrotada pelo direitista Pedro Pablo Kuczynski em 2016 e pelo esquerdista Pedro Castillo em 2021.
O cientista político Alonso Cárdenas, professor de Ciência Política da Universidade Antonio Ruiz de Montoya, em Lima, afirma que o não reconhecimento dos resultados eleitorais causou danos à democracia peruana.
“Isso foi um dos principais catalisadores do processo de convulsão e instabilidade política que o país vem enfrentando nos últimos dez anos, com oito presidentes, um Congresso profundamente desprestigiado e uma implosão institucional que hoje marca a vida política”, disse à BBC News Mundo.
“Essa situação também resultou na ascensão do crime organizado, expressa em fenômenos como o ‘sicariato’ (prática de homicídio por encomenda) e a extorsão, e deteriorou de maneira significativa a qualidade de vida da população”.
Na cédula também estará Roberto Sánchez, que concorre à Presidência do Peru pela primeira vez. Ele foi ministro do Comércio Exterior e Turismo durante o governo do ex-presidente Pedro Castillo, de quem se considera herdeiro político.
Castillo foi condenado no ano passado a 11 anos e meio de prisão pelos crimes de rebelião e conspiração, após tentar sem êxito dissolver o Congresso e concentrar poderes quando estava à frente do Executivo em 2022.
Os fatores que vão influenciar a eleição
Um dos fatores determinantes nesta eleição será o voto indeciso, que representa cerca de 25% do eleitorado, segundo uma pesquisa do instituto IEP publicada na semana passada.
“Essa porcentagem pode pender para qualquer lado. Nos últimos dias, sobretudo nas redes sociais, muitas pessoas têm se mobilizado para relembrar tudo o que ocorreu com o fujimorismo — os casos de corrupção, a violação dos direitos humanos, o autoritarismo, a cleptocracia”, afirma Cárdenas.
“De acordo com a informação que tenho, a diferença que existia nas pesquisas entre Keiko e Sánchez tem diminuído cada vez mais.”
Também será fundamental a participação em diferentes regiões.
“A Keiko Fujimori não lhe convém que haja abstenção em Lima, o seu principal reduto urbano, enquanto a Roberto Sánchez não lhe convém a abstenção no meio rural e no sul do país, onde conta com grande popularidade.”
Nesse sentido, a mobilização eleitoral em áreas urbanas versus rurais pode ser decisiva no que se prevê que será um resultado eleitoral muito apertado.
Outro elemento determinante é a rejeição histórica a ambos os candidatos, que funciona como uma força política de dinâmica própria.
No caso de Keiko Fujimori, o chamado antifujimorismo traz memórias de autoritarismo e corrupção; no caso de Sánchez, pesa sua associação com a gestão de Pedro Castillo, que “é lembrada como uma gestão muito desordenada, marcada por corrupção e improvisação”, segundo o analista Alonso Cárdenas.
Além do vencedor nas urnas, outra grande incógnita é a governabilidade do país, em um contexto em que o Congresso peruano se tornou um agente-chave na estabilidade política, com capacidade de condicionar a ação do Executivo.
Nos últimos anos, a combinação de um sistema partidário fragmentado e a ausência de maiorias sólidas desencadeou uma persistente instabilidade.
A destituição de presidentes e os constantes confrontos entre Poderes reforçaram a percepção de que a governabilidade depende menos do resultado eleitoral e mais da capacidade do presidente de construir alianças em um Congresso altamente volátil.
Confira abaixo o perfil dos dois candidatos que disputam a eleição neste domingo.
Keiko Fujimori, a herdeira do fujimorismo que concorre pela 4ª vez
A Keiko Fujimori podem ser atribuídas muitas coisas, mas não a falta de perseverança: após três derrotas, a candidata da Fuerza Popular passou pela quarta vez consecutiva ao segundo turno.
Keiko se tornou uma das poucas figuras duradouras na política peruana, que nos últimos anos tem devorado seus líderes no ritmo frenético dos sucessivos escândalos de corrupção.
Ela também teve o seu próprio escândalo: um caso de lavagem de ativos no âmbito da construtora brasileira Odebrecht. Mas mesmo depois de passar pela prisão, o Tribunal Constitucional acabou arquivando o processo. A decisão lhe permitiu voltar a ser candidata a tempo para estas eleições.
Para conquistar os eleitores cansados da corrupção e da insegurança, Fujimori não hesitou em reivindicar o legado de seu pai, que faleceu em 2024 e passou cerca de 16 anos na prisão após ser condenado por crimes contra a humanidade.
Com o slogan eleitoral de “volta à ordem”, tentou associar sua imagem àquela que os admiradores têm de Alberto Fujimori: um líder firme que estabilizou um país abalado pela crise econômica e pela violência do Sendero Luminoso na década de 1990.
No entanto, seu pai continua sendo uma figura que gera divisões no Peru, e muitos também lembram as violações dos direitos humanos ocorridas sob seu comando, assim como os severos cortes decorrentes de suas reformas econômicas.
Seu sobrenome é seu grande ativo político, mas também seu principal fardo. De fato, a figura de Keiko sempre esteve ligada à de seu pai.
Nascida em 1975 e a mais velha de quatro irmãos, coube a ela assumir o papel institucional de primeira-dama do Peru quando o casamento de seus pais se desfez.
Foi então que os peruanos conheceram uma jovem Keiko como acompanhante de seu pai em atos públicos e viagens de Estado.
Após estudar Administração de Empresas nos Estados Unidos, regressou ao Peru e dedicou-se plenamente à política.
Em 2006, com seu pai já detido no Chile, foi eleita congressista pela primeira vez.
Cinco anos depois candidatou-se à presidência. Voltou a tentar em 2016 e 2021, perdendo em cada ocasião para políticos que não chegaram ao fim de seus mandatos.
Keiko manteve o controle do fujimorismo, mas isso teve um custo: conflitos familiares e decisões controversas, inclusive envolvendo seu próprio pai e irmão.
Em 2022 separou-se do empresário norte-americano Mark Vito, com quem teve duas filhas e que agora faz parte do mundo da televisão e do entretenimento peruano.
Esta é a primeira vez que Keiko Fujimori é candidata à presidência após a morte de seu pai. Durante a campanha, tentou aproveitar ainda mais esse capital político e a sensação de muitos peruanos de que o país vive uma situação excepcional que requer medidas firmes.
Entre suas propostas está a construção de megaprisões de segurança máxima e a retirada do Peru da Corte Interamericana de Direitos Humanos.
Após as eleições deste domingo, saberemos se novamente vai apenas chegar perto do cargo — ou se finalmente vai conseguir realizar seu sonho de se tornar presidente.
Roberto Sánchez, o sobrevivente da era Castillo
Sobreviver ao naufrágio político que foi o governo do ex-presidente Pedro Castillo, preso e processado por vários crimes, parecia uma tarefa difícil — mas Roberto Sánchez Palomino conseguiu.
Embora poucos dias antes da votação o candidato do Juntos por el Perú aparecesse muito atrás nas pesquisas, ele conseguiu conquistar votos em pouco tempo e, beneficiando-se do fragmentado cenário eleitoral peruano, agora é o candidato que disputará o segundo turno presidencial com Keiko Fujimori.
Nascido em 1969 em Huaral, uma localidade predominantemente agrícola a cerca de 80 km de Lima, e psicólogo de formação, Sánchez conseguiu transformar sua proximidade com Castillo como o responsável por Turismo e Comércio Exterior (foi o único ministro que sobreviveu às constantes mudanças de gabinete) em um ativo político quando, para todos os especialistas, isso parecia um fardo.
O candidato não hesitou em reivindicar sua ligação com o governo de Castillo e chegou a aparecer nos debates com o mesmo chapéu de camponês com o qual o ex-presidente se apresentava aos peruanos, que se tornou um símbolo do Peru rural e andino.
Graças a isso, conseguiu angariar o apoio de alguns dos setores que levaram Castillo à Presidência, sobretudo no sul do país, o mais afetado pela violência na repressão dos protestos que se seguiram à queda do ex-presidente e onde está muito difundido o ressentimento em relação aos políticos de Lima.
Com seu estilo moderado e seu tom sereno em meio à permanente tensão política no país, Sánchez soube manobrar com habilidade e, ao contrário de outros membros do gabinete, não teve de responder judicialmente pela tentativa fracassada de Castillo de dissolver o Congresso, que acabou provocando sua destituição e prisão em dezembro de 2022.
O então ministro Sánchez renunciou pouco depois de Castillo aparecer na televisão anunciando, com a mão trêmula, suas medidas de exceção, e se absteve na votação no Congresso que acabou destituindo o presidente, o que muitos interpretaram como uma tentativa de não afundar junto com ele.
Castillo não parece guardar rancor. Em uma de suas últimas audiências judiciais, pediu voto para ele. E o candidato soube explorar o descontentamento de amplos setores do Peru rural com o destino do ex-presidente.
Ramiro Escobar, analista político da Pontifícia Universidade Católica do Peru, disse à BBC Mundo que a ida de Sánchez para o segundo turno “mostra que os círculos políticos de Lima continuam sem entender a magnitude do descontentamento em algumas regiões”.
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