Reality shows que espelham o trauma

Reality shows exibem o desgaste da sociedade israelense.AI

Os israelenses são aficionados por reality shows. Há muitos, de todos os tipos e, via de regra, bem produzidos. Mesmo que essa seja uma tendência mundial, não deixa de ser curioso que os israelenses busquem uma distração da realidade assistindo justamente a ela.

No país onde a vida é normalmente mais dramática do que a ficção, os telespectadores acompanham histórias que, em muitos aspectos, espelham as suas próprias, envolvidos por um cotidiano simplesmente enlouquecedor há quase quatro anos.

A catarse de janeiro de 2023

O ano de 2023 começou turbulento como resultado da proposta de reforma judicial apresentada pela coalizão de governo mais à direita já formada em Israel, que se materializou em manifestações inflamadas e paralisantes todas as semanas. Uma onda de antagonismo e ódio convulsionou o país e o dividiu em dois.

Mas a crise política que dominava o debate nacional foi subitamente obscurecida por um evento muito maior, e a discussão teve de ser temporariamente deixada de lado pelo mortífero ataque do Hamas em 7 de outubro. Pela primeira vez desde a criação de Israel, o país sofreu um pogrom em suas fronteiras, que resultou em 1,2 mil mortos e mais de 5 mil feridos.

A ele se seguiu a mais longa guerra já enfrentada pelo país, que ainda está em andamento, contra sete frentes de guerra. Todas elas continuam em aberto; partes delas, ativas.

Esses choques sucessivos, que ainda estão em pleno andamento, promoveram e continuam promovendo mudanças profundas na sociedade israelense. É nos participantes desses reality shows que os efeitos dessas transformações se tornam mais visíveis. É como se, após uma aula teórica sobre o que significa ser israelense e sobreviver a esse significado, os participantes dos programas oferecessem uma aula prática.

Exemplos reais em um casamento fictício

No reality show Chatuná Bemabat Rishon (Casamento à Primeira Vista), três psicólogos formam pares entre candidatos que se conhecem apenas no momento do casamento, sob uma chupá simbólica (uma tenda sob a qual se realizam casamentos na tradição judaica); depois, os casais têm 42 dias para tentar fazer o relacionamento dar certo.

Reservistas e participantes de reality show.Reprodução

Na atual temporada, há um casal formado por uma oficial do exército de 32 anos que deixou o serviço militar após 14 anos. Seu “marido em potencial” tem 38 anos e, desde 2023, vem se dividindo entre seu trabalho como engenheiro e sua atuação como combatente, em longas temporadas em território inimigo. Ambos sofrem de um tipo pouco visível de pós-trauma. Ambos perderam inúmeros colegas, amigos e conhecidos. Ambos participaram de mais funerais do que qualquer pessoa normal do planeta.

A dor destes participantes é bastante familiar ao espectador israelense. É desnecessário dizer que eles não são os únicos reservistas do programa, do qual participam pessoas com entre 30 e 40 anos. Afinal, há uma população inteira dentro desse looping em Israel.

Cantando a realidade da guerra

Outro programa exemplar nesse sentido é o musical Kochav Nolad (Nasce uma estrela). No primeiro ano após o massacre, a temporada trouxe um sobrevivente do ataque ao kibutz Kfar Aza. Daniel Weiss escapou com vida, mas perdeu os pais naquele dia. Também participou o reservista Shmuli Greenglik, morto em Gaza pouco depois de ter passado pela primeira fase do programa. No ano seguinte, entre os candidatos mais fortes estavam Ido Malka, um reservista da divisão Golani, e Yuval Raphaeli, sobrevivente do massacre do Festival Nova, que escapou à morte ao se esconder sob corpos. Ela concedeu várias entrevistas descrevendo as horas de desespero.

Ido Malka e Yuval Raphaeli: o combatente e a sobreviventeReprodução

Os dois formam hoje um casal festejado em Israel. Malka, o guerreiro, e Yuval, a sobrevivente, são, de alguma forma, um casal que representa o ethos nacional. E tudo isso acontece assim, sob o olhar do público, em programas de reality.

Por tudo isso, os reality shows israelenses estão longe de serem apenas entretenimento. Tornaram-se um espelho da sociedade, registrando em tempo real as cicatrizes, os traumas e as transformações de um país que há anos vive entre crises políticas, guerras e luto coletivo.

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