
Um esquema de simulação de vendas de gado entre fazendas de Alegrete (RS) lavou cerca de R$ 100 milhões provenientes do tráfico de drogas em municípios do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.
Segundo investigação do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS), os suspeitos emitiam notas fiscais e Guias de Trânsito Animal (GTAs) referentes a animais que nunca existiram, simulando movimentações financeiras milionárias legais.
A prática deu origem ao nome da operação, “Boi Fantasma”, e ao “gado de papel” (gado inexistente), um dos recursos comerciais utilizados para ocultar valores no esquema. A apuração iniciou a partir de relatórios da Brigada Militar (BM) e se estendeu por cerca de 10 meses.
Segundo a investigação, após as movimentações fictícias envolvendo o chamado “gado de papel”, os recursos eram distribuídos entre contas de terceiros e direcionados a plataformas de bets, além da compra de imóveis e veículos para ocultar a origem do dinheiro oriundo do tráfico de drogas.
A Justiça autorizou o bloqueio de R$ 100,7 milhões, além do sequestro de 15 veículos e de um imóvel. Documentos e aparelhos celulares também foram apreendidos durante a operação realizada na manhã desta terça-feira (09), com colaboração do MPSC.
As apurações identificaram um grupo de aproximadamente 30 investigados. O Ministério Público aponta que apenas cinco integrantes do núcleo principal movimentaram R$ 24,8 milhões nos últimos dois anos. O montante total chegou a ser movimentado em todo território nacional.
As ordens judiciais foram cumpridas em Alegrete (RS), Quaraí (RS), Pelotas (RS), Capão do Leão (RS), Itaqui (RS), Canoas (RS), São Leopoldo (RS) e Porto Alegre, além de Palhoça (SC) e Joinville (SC). Também houve ações em presídios de São Gabriel (RS), Uruguaiana (RS) e Cachoeira do Sul (RS).
Conforme o MPRS, o esquema era liderado por um traficante conhecido como “rei do gado”, que comandava as operações de dentro de um presídio em Uruguaiana (RS).
Ele deverá ser transferido para o Módulo de Segurança Máxima da Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (RS). As identidades dos suspeitos não foram divulgadas.
Como funcionava o esquema
Segundo a investigação, o dinheiro com origem no tráfico de drogas era “arrendado” por meio de operações de compra e venda de gado entre duas propriedades em Alegrete (RS), uma em nome de laranja e outra de familiar do principal investigado.
Para isso, Guias de Transferência Animal (GTAs) e notas fiscais eram emitidas simulando as vendas legalmente. Monitoramento por meio de drones do MPRS comprovaram que as cabeças de gado não existiam entre as duas propriedades. Dados fiscais, bancários e do sistema de defesa agropecuária também apontaram inconsistências nas supostas negociações.
Após essas etapas iniciais, o dinheiro era destinado a outras atividades para ocultar valores, como compra e venda de imóveis e veículos, além de empresas e bets.
Ao todo, a operação realizada nesta terça (09) envolveu:
- oito prisões preventivas;
- 35 mandados de busca e apreensão;
- 30 investigados;
- bloqueio de R$ 100,7 milhões;
- sequestro e apreensão de 15 veículos e de um imóvel;
- 10 cidades do RS e duas de SC;
- ações em três presídios do RS;
- transferência do líder da facção para o Módulo de Segurança Máxima da PASC.
A operação faz parte de uma grande frente de investigações contra facções criminosas chamada “Convergência Nacional” e foi a terceira ação do tipo no Rio Grande do Sul.
