Vale a pena gastar bilhões para eleger essa classe de políticos?

Em 1º de junho, o Tesouro repassou ao TSE R$ 4,9 bilhões do Fundo Eleitoral para bancar as campanhas de 2026 — o maior valor da história. Dois dias depois, soube-se que, sozinho, o PL ficará com R$ 881,7 milhões, recorde absoluto para uma única legenda; somados a PT com R$ 615 milhões, União Brasil com R$ 526 milhões e PSD R$ 421 milhões. Os três partidos primeiros partidos abocanham 40% do bolo. A notícia foi tratada como rotina orçamentária. A pergunta que importa, porém, nunca é “quanto foi destinado?”, mas “o que isso significa e o que recebemos em troca?”.

Vale somar as parcelas antes de julgar. Além dos R$ 4,9 bilhões do Fundo Eleitoral — que só existe em ano de pleito —, os partidos recebem cerca de R$ 1,4 bilhão por ano de Fundo Partidário, pago mês a mês para manter estruturas, salários e aluguéis. São mais de R$ 6,3 bilhões de dinheiro público irrigando a política num único ano. Para dimensionar a escalada: em 2018, o Fundo Eleitoral foi de R$ 1,7 bilhão. Em oito anos, quase triplicou. Num país com mais de 150 milhões de eleitores, é como se cada um financiasse, sem ser consultado, cerca de R$ 40 da máquina partidária.

Mas o custo da política não cabe no Fundão. O verdadeiro lastro do poder está nas emendas parlamentares: R$ 61 bilhões em 2026, contra R$ 50,5 bilhões em 2025. Desse total, quase R$ 50 bilhões são de execução obrigatória — o governo é obrigado a pagar, queira ou não. Metade das emendas individuais precisa ir para a saúde, o que soa nobre; mas cerca de R$ 7 bilhões escoam como “emendas Pix”, transferências diretas a prefeituras com rastreabilidade frágil. Para abrir espaço a esse volume, o relator do Orçamento cortou Pé-de-Meia, Auxílio-Gás, seguro-desemprego e despesas previdenciárias — algo em torno de R$ 6,3 bilhões retirados justamente de quem mais depende do Estado.E, para fixar a desproporção: as emendas de 2026 superam o próprio PAC, o programa de investimentos do governo, orçado em R$ 52 bilhões. Distribui-se mais em moeda política do que se investe no futuro do país. Gastos sem estratégia, sem prioridade apenas para saciar a sanha das emendas.

Isso não significa que eu concorde com políticas assistenciais dessa natureza, o melhor sempre foi transferir renda diretamente para a líder da casa, a mulher, em dinheiro vivo, ou em pix e nada de programas “leve-isso” “leve-aquilo” – transferência direta na conta do beneficiário, mas isso é outra história.
Agora, a moldura macro. O Brasil fechou 2025 com déficit nominal de R$ 1,06 trilhão — 8,34% do PIB — e seguia, no início de 2026, acima de R$ 1 trilhão no acumulado de doze meses. A dívida bruta caminha para perto de 100% do PIB ainda nesta década, empurrada pela bola de neve dos juros: quanto mais alta a Selic, mais caro carregar a dívida; quanto maior a dívida, maior o déficit; e assim por diante.

Diante desse quadro, é tentador apontar o Fundão como vilão fiscal. Seria um erro de análise. Os R$ 4,9 bilhões representam menos de 0,5% do rombo nominal: cortá-los inteiramente não conserta a conta. Aqui mora a primeira armadilha narrativa — a indignação fácil com o “fundão” é fiscalmente irrelevante e desvia o olhar do que de fato pesa nas contas públicas.

O problema, então, não é só o preço em si; é a relação entre preço e valor. A pergunta correta não é “a democracia é cara demais?”. Democracias custam, e o financiamento público nasceu em 2017 justamente para reduzir a dependência de doadores privados e o caixa dois — um avanço, não um capricho. A pergunta incômoda é outra: pagamos bilhões para eleger e sustentar uma classe política que entrega o quê? Quando o dinheiro se concentra em três siglas, quando as emendas viram moeda opaca de barganha entre Executivo e Congresso, e quando tudo isso convive com um déficit de trilhão e cortes em programas sociais, o que está em xeque não é o custo da urna — é o retorno sobre o investimento cívico.

O que pode acontecer a partir daqui? Vejo três trajetórias. Na primeira, prevalece a inércia: os fundos crescem, as emendas incham, e a desconfiança com a política se aprofunda até virar combustível antidemocrático — terreno fértil para quem promete “explodir tudo”. Na segunda, faz-se a reforma cosmética: corta-se o Fundão para acalmar a opinião pública, que já é passiva, sem tocar nas emendas, que são o verdadeiro centro de gravidade do poder. Na terceira, a mais difícil e a única que de fato importa: transparência radical sobre a destinação dos recursos, vinculação a resultados mensuráveis e regras que premiem renovação em vez de perpetuação.
Eleição cara não é, por si só, escândalo. Escândalo é pagar caro por representação barata. Antes de perguntar quanto custa votar, o Brasil precisa responder a uma questão mais desconfortável: o que, exatamente, estamos comprando — e porque aceitamos pagar tão bem por tão pouco.

*Carlos Honorato é economista, PhD e mestre em Administração, especialista em estratégia, cenários econômicos e Scenario Planning. É CEO da OUTPOD e professor da FIA Business School e do Albert Einstein.

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