A combinação entre tarifas comerciais, guerra no Irã, pressão sobre o petróleo e incertezas políticas nos Estados Unidos ampliou a relevância dos investimentos internacionais na estratégia de alocação dos brasileiros. No Global Wallet, da BM&C News, o economista Bruno Corano avaliou que o cenário externo exige atenção não apenas aos ativos, mas também às mudanças econômicas e geopolíticas que afetam inflação, juros, moedas e fluxos de capital.
O debate conduzido por Rafael Lara passou pela estratégia de Donald Trump, pelos efeitos das tarifas sobre a economia americana, pelo impacto do conflito no Oriente Médio e pela importância da diversificação em dólar. A leitura central é que o investidor brasileiro precisa observar o mercado global com mais profundidade, já que decisões tomadas nos Estados Unidos continuam influenciando diretamente o custo de vida, os mercados financeiros e a percepção de risco no Brasil.
“O bolso é o órgão mais sensível do corpo humano”, pontuou Bruno Corano.
Tarifas de Trump aumentam incerteza econômica nos Estados Unidos
Corano avaliou que parte da população americana apoia a ideia de priorizar os interesses dos Estados Unidos, mas vê com ressalvas a forma como Trump tem conduzido a política tarifária. Para ele, o problema não está necessariamente em negociar condições mais favoráveis com outros países, mas na instabilidade provocada por mudanças bruscas de alíquotas e sinalizações contraditórias.
Segundo o economista, tarifas funcionam como aumento de custo para quem vive e consome nos Estados Unidos. Ao encarecer produtos importados, a medida pode pressionar a inflação e reduzir o poder de compra das famílias, especialmente em um momento em que o Federal Reserve ainda observa os riscos de uma inflação mais persistente.
“Quem paga as tarifas é quem mora nos Estados Unidos e consome as coisas”, explicou Bruno Corano.
Guerra no Irã pressiona petróleo e inflação global
O conflito envolvendo o Irã também foi apontado como um fator de risco para a economia global. Corano afirmou que o petróleo segue como variável central não apenas pelo impacto direto nos combustíveis, mas porque está presente em praticamente toda a cadeia produtiva, da agricultura ao transporte e às embalagens.
Na avaliação dele, uma escalada prolongada no Oriente Médio pode gerar um repique inflacionário nos Estados Unidos e no Brasil. O risco aumenta se houver restrição persistente no fornecimento de petróleo, especialmente em um cenário de fechamento de rotas estratégicas e menor previsibilidade sobre estoques globais.
“O petróleo é a matéria-prima mais inflacionária do mundo”, destacou Bruno Corano.
Brasil sente efeitos externos por meio de câmbio, combustíveis e juros
Para o Brasil, o impacto de choques externos aparece em diferentes frentes. A alta do petróleo pode pressionar combustíveis, fretes e custos de produção, enquanto a volatilidade internacional tende a afetar câmbio, juros e decisões de investimento. Mesmo sendo produtor, o país ainda depende de cadeias externas de refino e abastecimento.
Corano ponderou que o efeito inflacionário pode ser temporário, mas sua intensidade dependerá da duração do conflito e da reação dos mercados. Quanto maior a incerteza, maior a chance de os bancos centrais manterem postura cautelosa, dificultando ciclos de queda de juros e reforçando a busca por proteção nos portfólios.
“A gente vai ter um repique. Nos Estados Unidos, a inflação poderia chegar a 4,5% ou 5%”, projetou Bruno Corano.
Diversificação em dólar ganha relevância para brasileiros
A partir desse cenário, o programa discutiu a importância da diversificação internacional. Para Corano, a maior parte dos brasileiros concentra patrimônio, renda, emprego, empresa e imóveis no Brasil, ficando exposta a uma única economia, a uma única moeda e a um mesmo conjunto de riscos locais.
O dólar, segundo ele, continua sendo uma alternativa relevante pela liquidez, pela profundidade do mercado financeiro americano e pela variedade de produtos disponíveis. A diversificação não significa retirar todo o capital do Brasil, mas reduzir a dependência de um único país e preservar parte do patrimônio em uma moeda mais forte.
“É prudente que ele diversifique”, defendeu Bruno Corano.
Mercado americano tem escala e menor dependência política
Corano também comparou o mercado americano ao brasileiro. Para ele, a bolsa dos Estados Unidos é mais ampla, diversificada e menos dependente do ambiente político imediato, enquanto o mercado brasileiro sofre mais com notícias domésticas, mudanças de governo e o peso de empresas ligadas ao Estado.
A diferença de escala ajuda a explicar essa dinâmica. Enquanto o mercado americano reúne milhares de companhias e concentra parcela relevante do mercado global, o Brasil tem um número menor de empresas listadas e maior sensibilidade a decisões de política econômica, juros, fiscal e ruídos eleitorais.
“O mercado americano de capitais é bem desconectado e descolado do ambiente do universo político”, comparou Bruno Corano.
Estratégia de investimento deve considerar perfil e ciclo econômico
Na parte final do programa, Corano afirmou que a estratégia de investimento precisa ser estruturada para diferentes cenários. Crescimento, retração, volatilidade, juros, inflação e choques geopolíticos devem ser considerados na composição das carteiras, mas o peso de cada ativo depende do perfil, do objetivo e do prazo de cada investidor.
O economista também destacou que a indústria financeira brasileira ainda está em processo de amadurecimento. Para ele, escolher quem cuida do patrimônio exige critério, histórico, qualificação e capacidade técnica, já que decisões mal tomadas podem comprometer anos de acumulação financeira.
“Cuidar do dinheiro de alguém é muito sério”, alertou Bruno Corano.
Investidor precisa olhar além da rentabilidade imediata
A leitura do Global Wallet é que o ambiente internacional seguirá relevante para investidores brasileiros. Tarifas, petróleo, inflação americana, juros globais e conflitos geopolíticos continuarão influenciando preços de ativos, moedas e decisões de alocação.
Nesse contexto, a diversificação internacional aparece como uma ferramenta de gestão de risco, e não apenas como busca por rentabilidade. Para o investidor, o desafio é construir uma carteira capaz de atravessar diferentes ciclos econômicos, preservando liquidez, proteção cambial e exposição a mercados mais profundos.
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