
Elevação do nível do mar tem expulsado moradores nas costas de países como o México.
Reuters
Episódios extremos de elevação do mar, capazes de inundar regiões costeiras, ficaram quatro vezes mais frequentes desde 1900 por causa da ação humana.
A conclusão é de um estudo publicado nesta quarta-feira (10) na revista científica “Nature Climate Change”.
Quando todos os fatores são somados — incluindo causas naturais e o afundamento do solo em algumas regiões —, o resultado é ainda mais expressivo: episódios de maré extremamente alta que, no início do século 20, eram esperados apenas uma vez a cada 100 anos hoje acontecem, em média, uma vez a cada 8 anos. Isso representa um salto de 12 vezes na frequência.
“Em quase metade dos 130 locais analisados no estudo, uma inundação esperada uma vez a cada 100 anos em 1900 agora ocorre pelo menos uma vez por década”, afirmou o autor principal da pesquisa, Sönke Dangendorf, professor da Universidade Tulane, nos Estados Unidos.
Os chamados eventos extremos do nível do mar acontecem quando marés altas, ressacas provocadas por tempestades e o nível médio do oceano — que vem subindo — se combinam.
O resultado são inundações que danificam casas, estradas e ecossistemas costeiros.
Segundo estimativas, mais de 680 milhões de pessoas vivem em regiões litorâneas baixas no mundo, onde pequenas variações no nível do mar podem mudar bastante o risco de alagamento.
“À medida que o nível do mar sobe, tempestades menores podem produzir inundações que antes exigiam condições mais severas”, explicou Dangendorf.
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Para chegar aos resultados, os pesquisadores combinaram registros de marégrafos — instrumentos que medem o nível do mar — com simulações climáticas para separar a influência das atividades humanas, de fatores naturais e dos movimentos do próprio solo.
A análise reuniu dados de 130 marégrafos espalhados pelo mundo, embora a maior parte das estações esteja concentrada na América do Norte e na Europa.
Para reduzir esse desequilíbrio, os autores aplicaram um método estatístico que sorteou 5 mil combinações de estações de diferentes regiões.
A análise mostrou que, sozinho, o aquecimento causado pelo ser humano tornou esses eventos raros cerca de quatro vezes mais prováveis.
As causas naturais também contribuíram, mas perderam força ao longo do tempo: tiveram maior peso na primeira metade do século 20, enquanto a influência humana passou a predominar a partir da década de 1960.
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Diferenças de uma região para outra
Em Sandy Hook, na costa do estado americano de Nova Jersey, um evento que ocorria uma vez por século passou a se repetir aproximadamente a cada 16 anos. Já em Wellington, na Nova Zelândia, a mudança foi muito mais dramática: o mesmo tipo de episódio passou a acontecer cerca de duas vezes por ano.
Em Manila, capital das Filipinas, o fator decisivo foi local. A retirada acelerada de água subterrânea fez o solo afundar e elevou o nível relativo do mar em cerca de 60 centímetros, o que tornou as inundações extremas mais de 300 vezes mais frequentes.
Apesar de casos como esse, o estudo aponta que, na maioria dos locais analisados, a mudança climática causada pelo ser humano é o principal fator por trás do aumento das inundações.
Em um número menor de pontos — 25 dos 130 analisados, no norte da Europa, na América do Norte e no Japão —, os eventos extremos ficaram menos frequentes, porque ali o solo está subindo, em um movimento ligado ao fim da última era glacial ou a terremotos, o que compensa a elevação do oceano.
Segundo os autores, os resultados mostram que a transformação do risco de inundação costeira não é uma projeção para o futuro distante: ela já está em curso.
Por isso, estimativas históricas de frequência de enchentes podem não refletir mais as condições atuais, com consequências diretas para o planejamento de obras de proteção e a adaptação das cidades litorâneas.
Julie G
A diretora do Centro Vasco de Pesquisa sobre Mudança Climática (BC3), María José Sanz, que não participou do trabalho, destacou esse ponto em declaração ao Science Media Centre da Espanha.
Para ela, “a conclusão mais relevante é que a transformação do risco de inundação costeira já está em marcha e não é simplesmente uma projeção para 2050–2100”, com implicações diretas para o planejamento da adaptação, o desenho de infraestruturas e a definição de preços de seguros.
Os pesquisadores afirmam ainda que esse tipo de análise, que liga diretamente as emissões de gases de efeito estufa a danos concretos em comunidades vulneráveis, pode servir de base para ações judiciais climáticas e pedidos de compensação por perdas e danos — um campo que cresce no mundo, especialmente em regiões costeiras baixas.
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