Pó vermelho e barulho: como a exploração de minério mudou a rotina de comunidade isolada no Pantanal


População de Porto Esperança, distrito de Corumbá, relatam problemas na região
A rotina dos moradores do distrito de Porto Esperança, em Corumbá, mudou nos últimos anos após a chegada de uma estrada. A obra acabou com o isolamento da comunidade, mas trouxe aumento no fluxo de caminhões de minério, o que tem assustado moradores por causa da poeira e do barulho constantes.
A comunidade, localizada no Pantanal sul-mato-grossense, cresceu a partir da ferrovia. Por décadas, o acesso ao distrito era feito apenas de trem. Depois do fim das operações, a chegada só era possível por barco.
✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MS no WhatsApp
O tráfego intenso de bitrens ocorre durante todo o dia, já que a via é usada para escoar parte da produção de minério de ferro extraído na região de Corumbá.
A movimentação contrasta com a rotina tranquila da comunidade. Moradores relatam que a poeira vermelha, que vem do minério, se espalha pelas casas, telhados e ruas. Em muitos casos, o uso de máscara ao sair de casa virou hábito.
“Eu mesmo estava internado esses tempo em Corumbá, fiquei 9 dias no CTI , com um problema pulmonar e eu acredito que é consequência dessa poeira, desse pó de minério que os caminhões passam. Hoje não é tão mais essa poeira, porque tão molhando, mas no começo cada carreta que passava levantava aquela poeira e vinha tudo para o lado da comunidade”, detalha o piloteiro José Domingos.
A comunidade
Comunidade fica às margens do rio Paraguai, no Pantanal.
Luiz Correia/Arquivo Pessoal
Porto Esperança tem pouco mais de 30 famílias. São pescadores, piloteiros e cozinheiros que sempre viveram no ritmo da natureza, mas que agora precisam conviver com o barulho constante dos caminhões.
Além da poeira, os moradores também reclamam do impacto da atividade mineradora na pesca e no turismo. Segundo relatos, a movimentação de embarcações afastou peixes e reduziu a presença de turistas.
“A poeira a gente não vê, ela vem pelo ar, só que prejudica a saúde né. Mas tem hora que você vê, fica vermelho de poeira. Parece até um vendaval”, comentou o piloteiro.
Em um dos trechos da comunidade, nem mesmo a grade instalada consegue impedir a entrada do barulho e da poeira nas casas. Diante da situação, a Associação de Moradores de Porto Esperança denunciou o caso ao Ministério Público Estadual e Federal.
Imagens anexadas à denúncia mostram móveis e eletrodomésticos cobertos por pó de minério, além da estrada tomada por caminhões.
“Ao chegar na comunidade nós nos deparamos assim com uma situação muito triste inclusive. Nós entrávamos nas casa das pessoas e encontrávamos pó de minério, nos móveis, nos quartos, nos cômodos da casa, nas camas que as pessoas dormiam, em alguns casos até na água que as pessoas consumiam tinha o pó de minério, tinha essa coloração avermelhada. […] E além disso os moradores também reclamam muito da questão do barulho, nós temos ali maquinários, nós temos ali carretas que são carregadas diuturnamente”, detalhou o advogado Matheus Vianna.
Após a denúncia, caminhões-pipa passaram a molhar a estrada para reduzir a poeira. Ainda assim, moradores afirmam que o problema do barulho e do tráfego intenso continua.
“Nós acreditamos sim que é possível, uma convivência harmônica da mineradora com os moradores de porto esperança. Porém nós precisamos adotar medidas para mitigar os impactos dessa atividade”, disse advogado.
Alguns moradores preferiram não gravar entrevistas por medo de prejudicar pessoas da comunidade que trabalham na mineradora. Mesmo assim, a população busca alternativas para melhorar a convivência com a atividade industrial.
O que diz a mineradora
A reportagem entrou em contato com a mineradora LHG Mining. Em nota, a empresa informou que mantém diálogo com a comunidade de Porto Esperança e adota medidas para reduzir os impactos.
Entre as ações, estão a ampliação da umidificação das vias com quatro caminhões-pipa operando 24 horas por dia e a instalação de um sistema de aspersão de água em quatro quilômetros da estrada. Segundo a empresa, as medidas também geraram empregos para moradoras da região.
O que diz a Secretaria de Saúde
Sobre as queixas de problemas respiratórios, a Secretaria Municipal de Saúde de Corumbá informou que atende os casos conforme a demanda. O órgão afirmou que, até o momento, não há comprovação de relação direta entre os sintomas e o pó de minério.
Segundo a secretaria, uma conclusão depende de estudos técnicos específicos. A pasta informou ainda que segue monitorando a situação de saúde da comunidade.
Veja vídeos de Mato Grosso do Sul:
Adicionar aos favoritos o Link permanente.