A Copa vai acordar os meninos que ainda habitam em nós?

Calor pode chegar a 45 graus durante a Copa de 2026shutterstock

Em 2014 passei parte da Copa correndo atrás do meu filho de um ano que resolvia querer escalar as escadas do antigo prédio bem na hora do jogo.

Em 2018, aos cinco anos, ele se encantou com a vuvuzela e a produção de estrago sonoro que poderia causar correndo pela vizinhança pouco antes de o Brasil entrar em campo.

Quatro anos depois ele até chorou com o pênalti desperdiçado pelo Marquinhos (“como que me deixam o Neymar por último?”), mas gastava parte das partidas brincando com os amigos, sem paciência para enredos com mais de 90 minutos.

Mas a doutrinação em matéria futebolística foi bem feita e ele atingiu o auge, para ele, no momento em que preciso acionar uma sonda para encontrar meu ânimo na faixa de embasamento cristalino, a última da camada do pré-sal.

Às seis da manhã do dia da abertura, ele já acordou fardado de verde-e-amarelo, o álbum quase completo nas mãos, enquanto eu me negava a abrir os olhos depois de trabalhar até mais tarde e acordar de sonhos intranquilos na madrugada. Nenhum deles tinha a ver com o escrete.

Sei que este texto vai envelhecer bem igual leite (odeio). No primeiro chute minimamente decente de algum compatriota para o gol alguma luzinha profunda do menino que ainda vive em mim se acende. Mais por memória muscular-afetiva do que por passe de mágica.

O menino talvez não esteja tão interessado em saber como os vizinhos dos Estados Unidos vão dividir o protagonismo com Donald Trump como países-sede do Mundial. Um o chefe da Casa Branca quer anexar. Outro é atacado desde que o Texas ainda era território mexicano. A ambos têm sido duros na postura de resistência contra o habitante do outro lado do muro. O que recebe países do mundo todo enquanto declara guerra a meio mundo.

O alegado caldo cultural que vemos todos os anos de anos de Copa desta vez é peneirada pela política anti-imigratória do anfitrião de um dos palcos. Considerado o melhor árbitro do continente africano, Omar Artan, que estava prestes a se tornar o primeiro somali a apitar uma partida de Copa, foi barrado ao pisar no Aeroporto Internacional de Miami e precisou voltar para casa sem explicação – dada depois, por um porta-voz estadunidense, sem apresentar prova alguma, de que ele teria ligações com o terrorismo.

Um atacante do Iraque ficou retido sete horas na imigração. Saiu de lá dizendo que foi tratado como terrorista.

Outros atletas foram recepcionados, ainda na pista dos aeroportos, por cães farejadores e aparelhos de detecção de metal. Eram as boas-vindas daquela que já foi a terra da liberdade (risos).

Como disse o comentarista Gian Oddi, na ESPN, as autoridades norte-americanas têm lá suas razões para reforçar a segurança em um país que já foi alvo de terroristas internos e estrangeiros. Mas, se não consegue lidar com tanta gente atravessando a fronteira em um momento que quer justamente expulsar quem vem de fora, era melhor ter admitido a incapacidade de sediar uma Copa e jogado a toalha.

A Fifa, que tanto gosta de se sobrepor ao poder local dos países-sede do Sul, abana o rabo e lava as mãos dessa vez. Muitas vezes é a entidade que se antecipa, como fez ao barrar um elemento visual do uniforme da seleção do Haiti em alusão à independência do país. A justificativa era que no evento esportivo, contaminado até a medula por questões políticas, não comporta manifestações políticas. Já pensou? A menção a um movimento haitiano influenciar as decisões políticas de um país em 1804?

Se toda censura é burra, Gianni Infantino precisa tomar cuidado ao pisar em um gramado. Periga se ajoelhar e comer toda a grama.

Enquanto meu filho chacoalha meu cobertor, lembro do padre do filme “O Ovo da Serpente”, de Ingmar Bergman, que primeiro ouve as confissões do pecador e depois pede perdão pela sua apatia. A minha é plural, e elas se misturam entre as (baixas) expectativas sobre a seleção (falo delas na próxima crônica) e sobre a oportunidade de entender o que sentiu um fã do esporte nas Olimpíadas de Berlim em 1938 ou na Copa da Itália, quatro anos antes. Conto nos próximos capítulos.

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