
O litoral do Espírito Santo se consolidou como uma das áreas mais importantes para a reprodução das baleias-jubarte no Atlântico Sul. Um levantamento inédito realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e do Projeto Amigos da Jubarte identificou até 97 filhotes nascidos na costa capixaba durante a temporada reprodutiva de 2025.
O estudo também apontou que cerca de 2 mil baleias utilizam anualmente a região entre Serra e Guarapari, reforçando o papel estratégico do Espírito Santo para a conservação da espécie.
As baleias-jubarte estão entre os maiores mamíferos marinhos do planeta. Os adultos podem atingir até 16 metros de comprimento e pesar cerca de 40 toneladas. Conhecidas pelos saltos espetaculares e pelos longos cantos emitidos pelos machos durante a época de reprodução, elas realizam uma das maiores migrações do reino animal.
Todos os anos, entre junho e novembro, deixam as águas geladas da Antártida e percorrem cerca de 4 mil quilômetros até a costa brasileira em busca de águas mais quentes e protegidas para acasalar, dar à luz e amamentar seus filhotes.
Segundo a bióloga marinha Amanda Di Giacomo, pesquisadora e coordenadora de pesquisa do Jubarte.Lab, o estudo confirma cientificamente algo que os pesquisadores observavam há anos durante os trabalhos de campo.
“Confirmamos que as jubartes estão utilizando a nossa costa como berçário, local para o nascimento e amamentação dessa espécie”, afirma.
Berçário natural das gigantes do oceano
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, os filhotes não nascem em mar aberto próximo à Antártida. As fêmeas migram grávidas para águas tropicais e subtropicais, onde encontram melhores condições para os recém-nascidos.

Os filhotes chegam ao mundo medindo aproximadamente cinco metros de comprimento e pesando cerca de uma tonelada. Nos primeiros meses de vida dependem integralmente do leite materno, rico em gordura, para ganhar peso rapidamente antes da longa viagem de volta ao sul.
De acordo com Amanda Di Giacomo, características naturais da costa capixaba ajudam a explicar por que tantas baleias escolhem a região.
“O Banco dos Abrolhos se estende até a nossa costa, e o relevo submarino cria áreas mais protegidas. Isso favorece o nascimento e o desenvolvimento dos filhotes durante os primeiros meses de vida”, explica.
🔍O Banco dos Abrolhos é a maior formação recifal e uma das áreas marinhas mais importantes do Atlântico Sul. Ele fica na costa do sul da Bahia e do norte do Espírito Santo, abrangendo uma extensa plataforma continental no oceano. A região é conhecida por sua enorme biodiversidade e por ser um dos principais berçários marinhos do país. É lá que muitas espécies se reproduzem, se alimentam e encontram abrigo.
Caça de baleias
A pesquisadora Amanda Di Giacomo destaca ainda que a presença crescente das jubartes também reflete a recuperação populacional da espécie após décadas de caça comercial.
Durante boa parte do século XX, as baleias-jubarte foram intensamente caçadas em diversos países. A atividade levou a população do Atlântico Sul a um declínio dramático.
Com a proibição da caça comercial e a adoção de medidas de proteção internacional, a espécie iniciou um processo gradual de recuperação. Hoje, volta a ocupar áreas históricas de reprodução em diferentes pontos da costa brasileira.
Como os pesquisadores identificam os filhotes
Contar baleias em mar aberto é um desafio que exige tecnologia e observação especializada.
O monitoramento realizado no Espírito Santo combina drones, hidrofones — equipamentos capazes de captar sons subaquáticos — e observação direta a partir de embarcações.
Os pesquisadores não acompanham os partos, mas conseguem identificar os recém-nascidos por características específicas, como tamanho reduzido, coloração mais clara e comportamento extremamente próximo das mães.
Segundo Amanda Di Giacomo, o uso de drones trouxe um salto de qualidade para as pesquisas.
“Hoje conseguimos visualizar animais que muitas vezes ficam submersos e medir seus corpos com muito mais precisão. Isso permite diferenciar filhotes de juvenis e aumenta a confiabilidade das estimativas”, afirma.

Batidas com embarcações estão entre as maiores ameaças
Apesar da recuperação populacional, as jubartes ainda enfrentam riscos importantes. Uma das principais preocupações dos pesquisadores é o aumento das batidas com navios e embarcações de grande porte.
A bióloga marinha Bruna Rezende Gonçalves, coordenadora-geral do Projeto Amigos da Jubarte, explica que parte dessas ocorrências sequer chega ao conhecimento das autoridades.
“Muitas colisões acontecem longe da costa e acabam não sendo registradas. Por isso, é fundamental entender onde as baleias estão e como utilizam essas áreas para reduzir os riscos”, diz.
Desde 2017, o projeto desenvolve estudos para mapear pontos de maior conflito entre rotas marítimas e áreas frequentadas pelos animais.
Segundo Bruna, a expectativa é que os dados coletados ajudem a orientar medidas como ajustes em rotas de navegação, redução de velocidade e sistemas de monitoramento em tempo real.
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Projeto acompanha baleias há mais de dez anos
Criado em 2014, o Projeto Amigos da Jubarte surgiu com o objetivo de ampliar o conhecimento sobre a presença das baleias-jubarte no Espírito Santo e aproximar a população da conservação marinha.
Além da pesquisa científica, o grupo atua em ações de educação ambiental, divulgação científica e monitoramento dos animais ao longo da temporada reprodutiva.
Para Bruna Rezende Gonçalves, o trabalho vai muito além da produção de dados.
“Nosso maior legado é contribuir para que as próximas gerações encontrem uma população saudável de baleias-jubarte e compreendam a importância de proteger esses animais e os ecossistemas marinhos”, afirma.
O resultado da pesquisa reforça que o Espírito Santo não é apenas uma rota de passagem. A costa capixaba se tornou um verdadeiro berçário das gigantes do oceano, desempenhando papel fundamental na reprodução e na recuperação de uma das espécies mais emblemáticas dos mares do planeta.
