
Poucos temas contemporâneos são tão debatidos, e ao mesmo tempo tão incompreendidos, quanto o sionismo.
O termo, frequentemente utilizado de forma imprecisa no debate público, acabou sendo revestido de significados que não correspondem à sua origem histórica, espiritual e jurídica.
O sionismo nasceu como um movimento de afirmação nacional do povo judeu. Mais do que um projeto político, possui profundas raízes espirituais ligadas à tradição judaica e, sob outra perspectiva teológica, também ao pensamento cristão.
Durante séculos, a ligação do povo judeu com a Terra de Israel permaneceu presente em suas orações, em seus textos sagrados e em sua identidade coletiva, mesmo nos longos períodos de dispersão.
A própria tradição cristã registra a centralidade da questão judaica na História.
Não por acaso, segundo os Evangelhos, Jesus de Nazaré foi condenado à crucificação sob a acusação romana de apresentar-se como “Rei dos Judeus”, imputação que, naquele contexto, possuía evidente conotação política e potencial revolucionária perante o Império Romano.
Independentemente da interpretação religiosa que se adote, o episódio demonstra como a identidade nacional judaica ocupa lugar relevante na formação da civilização ocidental.
O sionismo representa uma das mais extraordinárias afirmações de continuidade histórica já produzidas pela humanidade. Após séculos de dispersão, perseguições, expulsões e tentativas de apagamento cultural, o povo judeu recusou-se a desaparecer.
O sentimento sionista nasce dessa convicção profunda de que a identidade judaica não poderia ser reduzida à condição de minoria errante submetida aos humores da História.
É a expressão do orgulho de um povo que preservou sua memória, sua fé, sua cultura e sua ligação ancestral com suas raízes mesmo diante das maiores adversidades.
O orgulho sionista não é o orgulho da conquista, mas da sobrevivência. É a celebração de uma civilização que atravessou impérios, inquisições, pogroms, guetos e o Holocausto sem perder sua essência.
O sionismo transformou a esperança em realidade histórica e demonstrou que a perseverança de um povo pode ser mais forte do que o ódio de seus perseguidores.
Por isso, para milhões de judeus e simpatizantes ao redor do mundo, o sionismo representa não apenas uma ideia política, mas um compromisso moral com a memória daqueles que sofreram para que as futuras gerações pudessem viver com dignidade, segurança e liberdade.
Mais do que um movimento nacional, o sionismo é visto por seus defensores como uma trincheira avançada da civilização contra a barbárie.
Em uma época marcada pelo fanatismo, pelo terrorismo e por ideologias que glorificam a violência, a resistência a essas forças transcende fronteiras e interesses locais.
Para muitos, a luta travada contra organizações extremistas não protege apenas os judeus, mas também os valores que sustentam as democracias ocidentais: a liberdade religiosa, o pluralismo, o Estado de Direito e a dignidade da pessoa humana.
Quando a barbárie é contida, não é apenas uma nação que se defende; é a própria civilização que reafirma seu direito de sobreviver.
O combate ao terrorismo não constitui apenas uma opção política dos Estados.
Trata-se de um dever jurídico decorrente da necessidade de proteção da vida humana, da segurança coletiva e da preservação da ordem internacional.
Organizações que adotam a violência deliberada contra civis colocam-se à margem dos princípios mais elementares do Direito Internacional Humanitário.
Para aqueles que compreendem o sionismo como a expressão do direito nacional do povo judeu à sua própria pátria, o antissionismo não passa de uma forma moderna e sofisticada de antissemitismo.
Se o direito à autodeterminação é reconhecido a todos os povos, mas negado exclusivamente aos judeus, a distinção entre antissionismo e antissemitismo torna-se meramente semântica.
O antissionista afirma combater uma ideia política; na prática, combate a existência do único Estado judaico do planeta.
Sob essa perspectiva, o antissionismo seria apenas o velho antissemitismo vestido com uma nova linguagem, mais aceitável aos olhos da opinião pública contemporânea, mas animado pela mesma recusa em aceitar que os judeus possuam o mesmo direito à soberania e à existência nacional reconhecido a qualquer outro povo.
A civilização avança quando reconhece a pluralidade das nações, das culturas e das crenças.
Retrocede quando aceita que determinados povos não merecem existir.
O verdadeiro desafio do nosso tempo não é escolher quais povos têm direito à vida nacional, mas assegurar que todos possam exercê-lo em paz, segurança e liberdade.
Em tempos de crescente radicalização e intolerância, o orgulho sionista permanece como a afirmação de que a memória é mais forte que o esquecimento, a liberdade mais forte que o medo e a civilização mais fortes que a barbárie.
Essa talvez seja sua maior contribuição ao mundo contemporâneo.
*Flavio Goldberg, advogado e membro efetivo do grupo Judaísmo sem Partido
