Empresário e trisal envolvido em sua morte movimentaram R$ 35 mi

Mario Vitorino da Silva Neto, 25 anos, matou o melhor amigo e sócio Igor Peretto, 27. Arquivo Investigação Criminal

Antes de fugir, Mario Vitorino da Silva Neto resolveu o dinheiro. Na manhã de 31 de agosto de 2024, então com 23 anos, horas depois de esfaquear Igor Peretto com mais de 40 golpes de faca em 17 regiões do corpo, ele resgatou investimentos, transferiu R$ 23.900 para uma conta na Midway Instituição Financeira e mais R$ 9.500 para a MV Gestão e Participações Ltda, empresa da qual era sócio. Depois, já foragido, mandou R$ 32.000 via PIX para o advogado criminal André Rachi Vartuli. Nenhuma outra movimentação foi registrada nas contas empresariais de Mario após aquela data.

Era um plano de fuga executado em paralelo ao crime. Havia organização. Havia dinheiro. Esse detalhe, encontrado pelos investigadores da DIG (Delegacia de Investigações Gerais) da Polícia Civil em Praia Grande, litoral sul de São Paulo, no rastreamento bancário dos envolvidos na morte de Igor, se apresentou como algo maior do que um triângulo amoroso que terminou em execução.

O delegado Renato Mazagão Júnior, responsável pela investigação, esclareceu em juízo que o termo “trisal” foi cunhado pela imprensa. A polícia identificou relações afetivas separadas e cruzadas, não simultâneas, não consensuais, não públicas.

Antes de o juiz Felipe Esmanhoto Mateo pronunciar Mario e a irmã da vítima, Marcelly Marlene Delfino Peretto, para o Tribunal do Júri, em outubro de 2025, o COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) mapeou uma rede de R$ 35,5 milhões distribuída entre os quatro protagonistas: o empresário morto, o executor e seu melhor amigo, a irmã (ex-mulher do melhor amigo) e a esposa da vítima (amante do melhor amigo e da mulher dele).

Empresa de carros e R$ 22 milhões

No alto, à esq.: Igor, o empresário morto. Ao lado, Mario, melhor amigo e assassino. Embaixo, à esquerda: Marcelly, mulher de Mario e irmã de Igor. Ao lado, à direita: Rafaela, mulher de IgorArquivo Investigação Criminal

Igor Peretto tinha 27 anos quando morreu. Conheceu Rafaela Costa da Silva numa loja de roupas em São Vicente, litoral sul de São Paulo, casou-se com ela e tinha dois filhos: Théo, com Rafaela, e outro de um relacionamento anterior. Moravam no Canto do Forte, em Praia Grande.

O relacionamento havia chegado a um fim que Igor ainda não aceitava. Dormia na casa da mãe havia semanas, conforme confirmaram em juízo o delegado e a investigadora Katherine Verburg Cramer. Era sócio de Mario numa empresa de revenda de veículos. Um perfil de comerciante local do litoral paulistano. As contas da empresa dizem outra coisa.

A empresa registrada em 26 de abril de 2021 como comércio de automóveis, camionetas e utilitários usados, no bairro Aviação de Praia Grande, acumulou 14 comunicações ao COAF entre agosto de 2021 e outubro de 2024. A movimentação total rastreada pelo sistema de inteligência financeira: R$ 20.136.787.

O capital social foi declarado inicialmente em R$ 10.000. Cresceu para R$ 30.000. Chegou a R$ 300.000. O faturamento médio declarado oscilou entre R$ 191.831 e R$ 272.175 por período. Nenhum desses números explica R$ 20 milhões em movimentações classificadas como atípicas em três anos de operação.

O padrão identificado pelos bancos: depósitos em espécie fracionados no que as apurações chamam de “praças de Minério”, terminais bancários em Praia Grande, São Vicente, Santos e São Paulo. Os depósitos foram executados abaixo do limite de identificação obrigatória estabelecido pela Circular BCB 4.001/2020. A técnica é conhecida pelos analistas de inteligência financeira como smurfing: fragmentar um volume de dinheiro em espécie em múltiplos depósitos pequenos, realizados em cidades e terminais diferentes, para burlar os controles automáticos de comunicação ao regulador.

Uma empresa identificada como PP Eventos e Participações Ltda aparece tanto como remetente (enviou cerca de R$ 175.000 para a conta da empresa de Igor em nove transações) quanto como destinatária de R$ 220.000 provenientes da mesma conta. Uma empresa de eventos como contraparte recorrente de um comércio de carros usados.

À Rafaela foram transferidos da conta empresarial do marido ao menos R$ 82.626: R$ 58.474 em 67 transações ao longo de 2022 e 2023; R$ 14.682 em mais seis transações em 2023 e 2024; e R$ 9.470 em 15 operações em 2022. Eram transferências regulares de um negócio para a mulher do proprietário. Com Igor morto, Rafaela herdaria a meação sobre esse patrimônio. Era o argumento do Ministério Público para incluir motivação financeira na denúncia de homicídio qualificado.

Durante a reprodução simulada da morte de Igor Peretto, Mario mostrou como cravou a faca usada para matar o melhor amigo no sofá da casa de Marcelly, irmã da vítima e mulher do réu pelo crime Arquivo Investigação Criminal

A defesa de Rafaela não contestou as transferências. O juiz, contudo, reconheceu que os dados do COAF referem-se a comunicações realizadas antes do crime. “As transferências identificadas foram realizadas pela própria vítima, de modo que não se estabeleceu uma conexão direta com os fatos examinados nesses autos”, escreveu o magistrado. A tese de motivação econômica, nas palavras do juiz, “não foi comprovada”.

Rafaela foi a única dos três a ter sua conduta desclassificada. O argumento que prevaleceu: ela não estava no apartamento quando Mario esfaqueou Igor. O sistema de câmeras do Condomínio Vogue Residencial confirmou isso com precisão de segundo. Às 05h41min21s, Rafaela saiu do edifício. Às 05h42min27s, partiu de carro. Mario e Igor chegaram ao mesmo endereço 13 segundos depois.

R$ 11 Milhões com salário de R$ 2.000

Rafaela Costa da Silva nasceu em 16 de julho de 1998 em Chá Grande, Pernambuco. Morava em Praia Grande quando o marido morreu. A renda declarada ao banco era de R$ 2.628 por mês. A movimentação rastreada pelo COAF, ao longo de 2020 a 2024: R$ 11.854.625. Dez comunicações ao sistema de inteligência financeira.

Foi justamente a combinação entre o volume de Igor e o de Rafaela que chamou a atenção da investigação. Durante o inquérito policial do homicídio, a equipe do delegado Mazagão solicitou ao COAF um relatório de inteligência financeira, medida distinta da quebra de sigilo bancário, que revelou, nas palavras do próprio delegado em juízo, “movimentações atípicas de cerca de R$ 22 milhões” para Igor e Rafaela, e “valores menores” para Mario e Marcelly. Esse número, R$ 22 milhões, é o que o delegado citou à Justiça, referindo-se à visão consolidada que a investigação obteve do COAF durante o inquérito.

Os documentos de inteligência financeira do COAF mostram um panorama mais amplo. Somadas as movimentações atípicas rastreadas para os quatro atores (R$ 20,1 milhões da empresa de Igor, R$ 11,8 milhões de Rafaela, R$ 2,1 milhões de Marcelly e R$ 1,5 milhão de Mario), o total da rede chega a R$ 35,5 milhões. São dados anteriores ao assassinato de Igor e revelam um ecossistema financeiro considerável.

Para Rafaela movimentar R$ 11,8 milhões com uma renda declarada de R$ 2.628 mensais, sem herança, prêmio ou renda documentada alternativa, seriam necessários mais de 4.500 meses de salário integralmente depositado. Cerca de 376 anos.

O relatório bancário identificou o padrão mais revelador nos depósitos em espécie de Rafaela realizados em Parnaíba, no Piauí, e em Diadema, região do ABC paulista, na Grande São Paulo. Um exemplo: em 24 de setembro de 2021, múltiplos depósitos de R$ 2.000 a R$ 5.000 realizados em sequência no mesmo terminal piauiense, em intervalo de cerca de 12 minutos. Parnaíba fica a 3.000 quilômetros de Praia Grande.

Além das transferências recebidas da empresa de Igor, há um registro ainda não examinado profundamente: Rafaela recebeu R$ 428.541 via 2º Oficial de Registro de Imóveis de Guarulhos, na Grande São Paulo, em uma transação capturada pelo segmento CNI-Notários no COAF.

O dado que o COAF classificou como comunicação individual: em 8 de agosto de 2024, 23 dias antes de Igor ser morto, Rafaela transferiu R$ 20.350 para Mario Vitorino. Era o único registro direto de dinheiro indo da conta de Rafaela para a conta de Mario. Rafaela declarou em juízo que deixou o apartamento de Marcelly sem saber que Igor havia morrido. Mario tinha ligado dizendo: “corre, que eu dopei o Igor; quando ele acordar, ele vai te matar.” Ela partiu em direção a São Paulo sem entender o que havia ocorrido. Soube da morte horas depois, num posto de gasolina, quando encontrou Mario em fuga.

Na sentença de 16 de outubro de 2025, o juiz Felipe Esmanhoto Mateo revogou a prisão preventiva de Rafaela. Ela recebeu alvará de soltura no mesmo dia em que Mario e Marcelly foram pronunciados para o Tribunal do Júri.

Loja de roupas e os Dois Milhões

Marcelly Marlene Delfino Peretto tinha 22 anos quando foi pronunciada para o Tribunal do Júri. Nasceu em 29 de março de 2003. Era irmã de Igor, ex-mulher de Mario. O casamento havia durado cerca de sete anos. Ela contou em juízo que conheceu Mario quando tinha 14 anos, trabalhando com o pai em transporte alternativo em São Vicente. Mario, ao ser interrogado, disse que ela tinha 17 quando se conheceram. Casaram-se em 2020, após a emancipação dela. Separaram-se cerca de dois meses antes do crime, embora Mario ainda a visitasse com frequência.

Marcelly também mantinha um relacionamento com Rafaela, a cunhada. Declarou em juízo que o episódio íntimo entre as duas ocorreu uma única vez, no dia anterior ao crime, e que ela própria o revelou à polícia. Ninguém saberia, caso não tivesse contado.

Rafaela e Marcelly, minutos antes de Igor Peretto, marido de Rafaela, ser morto por Mario, seu melhor amigo e companheiro de Marcelly, irmão do empresário assassinadoArquivo Investigação Criminal

O apartamento na Avenida Paris, 724, apto 44, era dela. A faca de aproximadamente 22 centímetros de lâmina usada para matar Igor foi encontrada no banheiro dela.

A empresa de Marcelly, do ramo de comércio varejista de artigos de vestuário e acessórios, constituída em setembro de 2021 em Praia Grande, declarou faturamento de R$ 25.000,00. A movimentação rastreada pelo COAF: R$ 2.179.565,00 em três comunicações, entre junho de 2023 e setembro de 2024. O banco registrou: “os recursos transacionados estão incompatíveis com a capacidade financeira e sugerem atipicidades em suas movimentações de acordo com seu perfil transacional.” O mesmo padrão de depósitos em espécie abaixo do limite regulatório.

Entre os destinatários identificados: Mario recebeu R$ 8.633 de Marcelly em nove PIX ao longo de 2023. A empresa de Igor recebeu R$ 5.565 em três transações. A Prada Brasil Importação Luxo recebeu R$ 9.850. Artigos de luxo como destino de uma empresa de roupas com faturamento declarado de R$ 25.000 não é, por si só, evidência de crime. Mas o volume total, 87 vezes o faturamento declarado, é o que o sistema de inteligência financeira classifica como atípico.

Durante a busca e apreensão na residência da mãe de Marcelly, Zenilda Gomes Delfino Peretto, os policiais encontraram e apreenderam R$ 93.350 em espécie.

Marcelly declarou em juízo que mentiu parcialmente em seu primeiro depoimento à polícia. Foi instruída pelos irmãos Tiago e Maurício a colocar toda a culpa em Mario, sob a promessa de que pagariam seu advogado. Depois decidiu contar a verdade.

Executor, advogado e as empresas de Mario

Mario Vitorino da Silva Neto era o menor elo financeiro dos quatro: R$ 1.534.403 rastreados pelo COAF em sete comunicações entre junho de 2020 e setembro de 2024. Renda declarada: R$ 18.000 por mês. Mas Mario não tinha apenas uma empresa. Tinha três. A Rei das Motos, dedicada ao comércio de motocicletas e motonetas novas, era o negócio no mesmo setor de Igor. A MV Gestão e Participações era a conta para onde enviou R$ 9.500 no dia do crime. E havia ainda uma empresa de vestuário, ramo idêntico ao da ex-mulher Marcelly.

Mario (à esqu.) e Igor, no elevador do prédio onde Marcelly vivia, minnutos antes de o empresário ser morto pelo melhor amigo e sócioArquivo Investigação Criminal

Na manhã do crime, um amigo de Mario recebeu cinco ligações seguidas. Não conseguiu atender às primeiras. Quando retornou, encontrou Mario desesperado, chorando, repetindo: “se não fosse o Igor, seria eu”. Ao fundo, uma voz de mulher chorava e dizia “meu Deus do céu, o que aconteceu?”. O amigo reconheceu a voz de Marcelly. A esse amigo, Mario contou sua versão ainda quente. Disse que houve uma briga, que agira em legítima defesa, que Igor partira para cima dele. Perguntava, insistente, se a polícia já tinha ido atrás dele. Estava em pânico. E precisava de dinheiro.

O pedido veio em duas parcelas. Antes da festa, Mario já havia solicitado R$ 4.000 para os gastos da noite. Depois do crime, pediu R$ 100.000. Disse que uma parte iria para o advogado e a outra ficaria com ele, para se manter escondido enquanto desaparecia por alguns dias. Mandaria um motoboy buscar o dinheiro.

O motoboy apareceu na casa do amigo e entregou os R$ 100.000. A testemunha destinou o valor ao advogado e separou R$ 30.000 para serem levados a Mario. Mas, ao conversar com o advogado, ouviu que aquilo poderia configurar favorecimento pessoal. Recuou. O dinheiro foi devolvido. A partir daí, o amigo não teve mais contato com Mario, que viria a ser preso na casa do tio de Rafaela, no interior.

O preço de ajudar Mario não parou no dinheiro recusado. Depois do crime, a testemunha passou a receber ameaças por telefone e redes sociais, contra ele, a filha, a esposa e a mãe, vindas de números falsos e perfis anônimos. Uma das mensagens dizia: “vai dar a sua cabeça para falar onde seu irmão está”. Por medo, não registrou boletim de ocorrência. As ameaças cessaram contra ele, mas continuaram contra a esposa, hostilizada nas redes por parecer defender o acusado.

Mario não se entregou. Disse que temia a influência política de Tiago Peretto, vereador em São Vicente e irmão de Igor, e acreditava que corria risco de vida.

A síndica do Condomínio Vogue Residencial informou aos investigadores que Mario havia sido alvo de uma operação policial por estelionato antes do crime. A mesma operação atingiu Igor e Maurício Peretto Junior. Na busca e apreensão no apartamento de Mario, os policiais encontraram o local parcialmente violado. Uma CPU e um notebook haviam sido removidos antes da chegada da polícia. A síndica confirmou que familiares de Marcelly tentaram entrar no apartamento desde o dia 1º de setembro. Havia uma parede com estrutura suspeita, descrita como possível fundo falso. Equipamentos de airsoft foram apreendidos.

Mario e Marcelly, irmã de Igor Peretto, deixam o prédio dela após empresário ter sido mortoArquivo Investigação Criminal

A movimentação de Mario no dia 31 de agosto fortaleceu a narrativa financeira do caso com exatidão de extrato bancário. Às horas em que Igor estava sangrando no apartamento de Marcelly, Mario liquidava investimentos. Enquanto o SAMU constatava o óbito às 07h37, Mario transferia para a Midway e para a MV Gestão. Dias depois, já foragido na casa do tio de Rafaela e ainda não capturado, mandou R$ 32.000 ao advogado criminal. A fuga tinha custo.

Mario foi capturado em Torrinha, no interior de São Paulo. Tiago Peretto, irmão tanto da acusada Marcelly quanto da vítima Igor, recebeu uma ligação anônima em seu gabinete parlamentar informando o paradeiro de Mario, confirmou o endereço com vizinhos do local e acionou a Polícia Militar. A prisão foi rápida.

O que os vizinhos ouviram

A reconstituição do delegado chegou até onde os documentos alcançavam. Laudos descreviam o estado do apartamento. Câmeras registravam a entrada e a saída do prédio. O que aconteceu no interior do 44, entre uma coisa e outra, os documentos não diziam. Dois vizinhos disseram. Um ouvia da sacada. O outro, da janela do banheiro.

A testemunha protegida “A” acordou com vozes em tom exaltado. Ouviu um homem em descontrole gritar frases: “Vocês sabem o quanto eu amo essa mulher, eu sou o único que não sabia de nada, estavam todos tramando contra mim.” E depois: “Seus traíras, estão todos tramando contra mim.” A voz foi ficando mais baixa. Chorosa. Em tom diferente. Depois veio um grito feminino de dor. Então a palavra “piranha”, repetida três ou quatro vezes, a voz enfraquecendo a cada repetição, até cessar completamente.

A testemunha protegida “B” ouviu três vozes distintas: uma bastante alterada, uma mais calma, uma feminina. As vozes falavam ao mesmo tempo. Ouviu sons de batidas na madeira, semelhantes a golpes em porta. Depois, silêncio. Ao ir à sacada com o marido, escutou uma voz externa dizer que chamaria a polícia e pedir o número do apartamento.

Nenhuma das duas testemunhas disse ter ouvido palavras que indicassem premeditação. Nenhum “conseguimos”. Nenhum “deu certo”. O que ouviram foi raiva. Traição descoberta. Descontrole.

Trama e o que ela vale

O Ministério Público construiu a denúncia em camadas. A primeira chegou ao júri: homicídio qualificado por motivo torpe, porque consideraram Igor “um empecilho para os relacionamentos íntimos e sexuais que os três denunciados mantinham entre eles”; meio cruel, “com diversos golpes de faca contra a vítima, causando-lhe intenso sofrimento”; e recurso que dificultou a defesa da vítima. O perito confirmou que um único golpe nas costas de Igor já era capaz de causar tetraplegia. Igor estava desarmado. Era o seu melhor amigo quem o atacava.

A segunda camada é a financeira. O delegado Mazagão disse em juízo que o COAF identificou “movimentações atípicas de cerca de R$ 22 milhões”, referindo-se à soma das movimentações de Igor e de Rafaela que a investigação acessou por relatório de inteligência. O COAF revelou um total de R$ 35,5 milhões entre os quatro atores. São dados anteriores ao crime. Na decisão de pronúncia, o juiz foi claro ao concluir que não estabelecem conexão com o homicídio.

De um lado, a versão de Mario Vitorino. No interrogatório, declarou que Igor era fisicamente mais forte, frequentava academia e usava anabolizantes. Disse que Igor o agrediu com socos ainda no carro. Que, dentro do apartamento, Igor quebrou o espelho do guarda-roupa, pegou um caco de vidro e o atacou. Que pegou a faca da cozinha só para pedir que Igor se afastasse. Que a luta foi corporal, no chão. Que feriu Igor sem intenção de matá-lo. Que, ao sair, acreditava que Igor estava apenas inconsciente. Negou premeditação. Negou motivação financeira. “Se não fosse o Igor, seria eu”, disse Mario a uma testemunha, horas depois do crime.

Do outro lado, a resposta da perícia. O médico legista confirmou que Mario apresentava ferimento na mão, compatível com quem empunha uma faca, não com quem se defende de um espelho. O sangue encontrado nas escadas e no apartamento era provavelmente do próprio Mario, conforme a análise pericial e o relato de Marcelly. O delegado disse que a natureza e a quantidade das lesões em Igor não eram compatíveis com uma reação defensiva.

A defesa de Marcelly construiu tese de coerção. Ela teria sido ameaçada por Mario ao sair: “agora você vai comigo, senão vou fazer pior.” Disse estar sob efeito de entorpecentes e abalada emocionalmente, sem conseguir reagir. Quando saiu do quarto, viu Igor no chão ensanguentado e Mario de pé. Saiu em estado de choque. As imagens do circuito interno do condomínio, segundo a acusação, mostram Marcelly se debruçando sobre o peito de Mario no elevador do prédio dela, às 06h16min44s. Para a defesa, era reação de medo. Para a acusação, era cumplicidade visível.

A defesa admitiu que Marcelly usou ecstasy e álcool naquela noite. O delegado Renato Mazagão Júnior confirmou que ela declarou isso no interrogatório. Nenhum exame toxicológico foi realizado na investigação.

Há ainda um elemento que atravessa o caso em três direções. Tiago Peretto, vereador em São Vicente e irmão tanto de Marcelly quanto de Igor, orientou a versão inicial que Marcelly apresentou à polícia, segundo ela própria declarou em juízo. O mesmo Tiago acessou o celular de Mario durante a prisão, contaminando o aparelho e impossibilitando parte da perícia digital, conforme relatado pelo delegado com base nos laudos. E foi também Tiago quem recebeu a ligação anônima que levou à captura de Mario em Torrinha.

Rafaela, única dos três réus a ter a conduta desclassificada, foi solta no dia 16 de outubro de 2025, o mesmo dia em que Mario e Marcelly foram pronunciados. O juiz desclassificou a acusação de homicídio qualificado contra ela para favorecimento pessoal (artigo 348 do Código Penal), por ter, segundo a decisão, auxiliado na fuga e no esconderijo de Mario. O caso foi remetido a uma das Varas Criminais comuns de Praia Grande. A transferência de R$ 20.350 que fez a Mario 23 dias antes do crime não gerou investigação. A transação imobiliária de R$ 428.541 em Guarulhos tampouco.

Os pais de Igor habilitaram-se como assistentes de acusação. A família ofereceu R$ 50.000 de recompensa pela localização de Mario durante a fuga. O pedido de reparação de danos morais do Ministério Público é de valor mínimo de R$ 300.000.

A empresa de carros usados de Igor, que movimentou R$ 20 milhões em três anos, acumulou 14 comunicações ao COAF e operava com capital social declarado de R$ 300.000, continua com CNPJ ativo nos registros da Receita Federal.

Investigação descobriu que Rafaela Costa da Silva, mulher do empresário Igor Peretto, movimentou cerca de R$ 11 milhões Arquivo Investigação Criminal

O júri de Marcelly foi marcado para 26 de novembro de 2026, às 9 horas, na Vara do Júri de Praia Grande. Ela está presa na Penitenciária Feminina de Sant’Anna, no Carandiru, zona norte de São Paulo. Mario, por sua vez, interpôs Recurso em Sentido Estrito contra a pronúncia, o que separou os processos. Enquanto o recurso não for julgado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, Mario não tem data de julgamento pelo Tribunal do Júri. Ele está na Penitenciária 1 de São Vicente.

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