
Dia de Santo Antônio: como surgiu a fama de ‘santo casamenteiro’
Mergulhar a imagem do santo de cabeça para baixo na água, colocá-la no congelador ou até retirar o menino Jesus de seu colo estão entre as simpatias adotadas por fiéis que buscam a intercessão de Santo Antônio para encontrar um parceiro. Mas, afinal, como surgiu a fama de santo “casamenteiro” associada ao religioso?
Para marcar o Dia de Santo Antônio, celebrado neste sábado (13), o g1 buscou entender a origem dessa tradição e das devoções ligadas ao santo. O padre Élcio Roberto de Góes, de Itapetininga (SP), aponta que a figura religiosa é um dos santos mais queridos e venerados do mundo.
📲 Participe do canal do g1 Itapetininga e Região no WhatsApp
“Ele é um grande santo da Igreja. Acho que é um dos que mais tem devotos e um dos mais conhecidos. Ele é conhecido por ser um religioso e por ser um grande pregador. Ele era também uma pessoa muito caridosa.”
Dia de Santo Antônio é celebrado neste sábado (13), com festas em Itapetininga (SP) e Capão Bonito (SP)
Pâmela Beker/g1
O padre conta que Santo Antônio nasceu em Lisboa, capital de Portugal. Ele morreu em Pádua, na Itália, onde atualmente estão em exposição alguns de seus restos mortais, que foram encontrados preservados em seu túmulo.
“Ele era um grande pregador. Há até uma história de que as pessoas não queriam ouvi-lo. Um dia, ele foi ao meio de um rio e começou a falar o Evangelho. Um tempo depois, os peixes acabaram saindo da água para ouvir a pregação dele”, relata o pároco.
‘Casamenteiro’ e caridoso são algumas das associações feitas ao beato franciscano
Pâmela Beker/g1
Apesar de ser um homem de muitas palavras, que realizava pregações e a disseminação do Evangelho, Santo Antônio também era uma pessoa de ação.
“Tem uma frase dele que é: ‘Cesse as palavras e iniciam-se as obras’. Isso quer dizer que, ao mesmo tempo em que ele era um grande pregador, também convidava as pessoas não só a falar, mas a fazer e colocar em prática as palavras”, analisa Élcio.
As ações caridosas de Santo Antônio ocorriam no cuidado e atendimento às pessoas em situação de vulnerabilidade social. Conforme Élcio, é a partir disso que surge a tradição da bênção dos pães relacionada ao santo.
Apesar do legado de caridade e do trabalho em favor das pessoas mais vulneráveis, Santo Antônio é lembrado principalmente por aqueles que buscam um relacionamento amoroso, especialmente o casamento.
Segundo o padre, a tradição de recorrer ao santo como intercessor para encontrar um parceiro ganhou força no Brasil e se tornou uma das características mais populares da devoção ao religioso.
“Isso é uma tradição aqui do Brasil, é típico nosso. Tem histórias que dizem que uma mulher estava rezando e pedindo para o santo um marido. Ela não foi atendida, pegou a imagem e jogou pela janela. Nisso, caiu justamente na cabeça de um homem que passava pelo lugar e acabou se tornando o marido dela. São histórias populares”, compartilha o padre.
Conhecido pelas simpatias ligadas ao amor, Santo Antônio também deixou um legado de caridade e atenção aos mais necessitados
Divulgação
LEIA TAMBÉM:
Casados por mais de 6 décadas, marido morre uma hora após o enterro da mulher: ‘Nem a morte conseguiu separá-los’, diz filho
Casal que começou a namorar após protesto na ditadura contra proibição de beijos em locais públicos celebra 45 anos de união
Da festa junina ao casamento: encontro em quermesse de Santo Antônio marca início de história de amor de 35 anos no interior de SP
Casal que se conheceu em acampamento religioso transforma história de amor em música no interior de SP
Os pedidos amorosos ao santo não ficam apenas nas orações. O pároco cita que alguns devotos acabam buscando simpatias populares, o que ele enxerga como uma prática de fé.
“Não sei se seria um pecado, mas é uma forma de a pessoa expressar a fé dela. São demonstrações populares, mas não têm nenhuma ligação com imposições feitas pela Igreja”, esclarece.
A fama de santo “casamenteiro” também está ligada à tradição de que Santo Antônio ajudava mulheres que não conseguiam se casar por não terem recursos para pagar o dote exigido na época. Sensível às dificuldades enfrentadas pela população, ele recorria à generosidade de outras pessoas para auxiliá-las a realizar o sacramento do matrimônio.
💍 Casamento na comunidade de Santo Antônio
Em Capão Bonito (SP), um casal se conheceu dentro da comunidade de Santo Antônio há 26 anos
Adriana Maria de Proença Cunha/Arquivo pessoal
Mesmo sem medalinha no bolo, pedido ao santo ou simpatia, os caminhos de Adriana Maria de Proença Cunha, de 49 anos, e Ed Carlos da Cunha, de 47 anos, se cruzaram há 26 anos em um lugar especial para relacionamentos: a Reitoria Santo Antônio, em Capão Bonito (SP).
“Eu já fazia parte da comunidade com trabalhos comunitários desde a infância. Na época, meu esposo recebeu um convite para fazer parte da liturgia da Igreja, onde eu também ajudava. Nos conhecemos, começamos a paquerar, namorar e, aí, casamos”, compartilhou Adriana ao g1.
O matrimônio do casal também foi celebrado dentro da comunidade, em 2001. “Para a nossa família, Santo Antônio representa um grande santo da nossa Igreja Católica. Nós tivemos a honra de nos conhecer pelas mãos de Deus”, celebra Adriana.
Para o casal, ter se conhecido e viver um romance em uma comunidade ligada ao santo é sinal de fé: “A gente foi construindo o nosso relacionamento ali até se casar. Foi tudo dentro da comunidade. O santo representa, para a gente, fé nos caminhos de Deus que trilhamos.”
Além de se conhecer na comunidade, o casal de Capão Bonito (SP) também se casou no local
Adriana Maria de Proença CunhaArquivo pessoal
⛪ Igreja em Itapetininga
As ações e aprendizados deixados por Santo Antônio permanecem. Em Itapetininga, uma paróquia realiza diversas atividades relacionadas ao atendimento a pessoas em situação de vulnerabilidade social. No local, há distribuição gratuita de alimentos, e atendimentos médico e de bem-estar.
Aparecida das Dores Ayres Nunes, administradora da paróquia em Itapetininga, aponta que Antônio e Francisco de Assis eram amigos, da ordem dos Franciscanos.
“Santo Antônio era muito voltado para o cuidado das pessoas. Ele era de família rica e despojou de tudo o que tinha. Para mim, a sua importância está voltada para a caridade. Além de ele fazer parte da ordem dos Franciscanos. Ele e São Francisco de Assis eram amigos.”
Em Itapetininga (SP), a Igreja de Santo Antônio fica localizada na Rua Campos Salles, na região central
Pâmela Beker/g1
Cerca de quatro pessoas por dia trabalham no local para atender ao público que necessita de acolhimento.
“Eu conto com a ajuda da população para isso acontecer. Nada se constrói sozinha, eu não conseguiria sozinha”, relatou.
Nos dias que antecedem a celebração de Santo Antônio, a paróquia promove diversas atividades religiosas e recreativas em homenagem ao santo. Entre elas, a mais aguardada pelos fiéis é a tradicional venda do bolo de Santo Antônio.
A expectativa gira em torno da possibilidade de encontrar, no pedaço adquirido, uma medalha do santo escondida na massa, símbolo que, segundo a crença popular, pode trazer sorte no amor.
Segundo Aparecida, para este ano, foram produzidos 13 metros de bolo. Os recheios são variados e as medalhas são distribuídas aleatoriamente nos pedaços, que são vendidos a partir de R$ 5.
Para que a celebração ocorra, os devotos ajudam com doações e a produção é realizada por participantes da comunidade.
Comunidade Santo Antônio, em Itapetininga (SP), celebra a data com venda de bolos neste sábado (13)
Aparecida das Dores Ayres Nunes/Arquivo pessoal
No local, os visitantes também podem aproveitar a programação religiosa neste sábado, com missas às 7h, 9h, 12h, 15h, 16h e 19h. Há também opções de outros quitutes sendo vendidos durante a celebração, como lanche de pernil, mini pizza, doces, caldos e bebidas.
A Igreja de Santo Antônio em Itapetininga fica na Rua Doutor Campos Salles, 4, na região central da cidade.
💒 Celebração em Capão Bonito
Reitoria de Santo Antônio, em Capão Bonito (SP), fica localizada na Avenida Adhemar de Barros, na Vila Santa Rosa
Reitoria Santo Antônio/Arquivo pessoal
Na comunidade onde o casal capão-bonitense se conheceu, Santo Antônio é padroeiro da reitoria desde a década de 1940. A igreja possui uma devoção e tradição fortes ligadas ao beato.
“Santo Antônio é um santo muito querido pelo povo, conhecido pela sua pregação, pela caridade com os pobres, pelo amor à Eucaristia e pela proximidade com as necessidades concretas das pessoas”, diz o padre Matheus Vinicius de Oliveira, responsável pela comunidade.
As celebrações no local são marcadas por atividades tradicionais, como a realização da trezena de Santo Antônio, missas diárias, procissões, bênçãos e até mesmo a quermesse.
A reitoria fica localizada na Avenida Adhemar de Barros, no bairro Santa Rosa. Neste sábado, às 8h, há uma procissão com a imagem do santo; às 10h, uma missa presidida pelo Bispo Diocesano de Itapeva (SP); e, às 16h, a santa missa de encerramento.
“Também temos tradições muito queridas, como a bênção dos pães e a partilha dos alimentos. É uma festa religiosa, mas também profundamente comunitária, porque aproxima as pessoas e fortalece os laços de fé e amizade”, citou Matheus.
Para o religioso, Santo Antônio relembra aos cristãos que a fé precisa se tornar uma atividade concreta. Se pudesse defini-lo em uma palavra, seria proximidade.
“Ele foi um grande pregador, mas também um homem profundamente atento aos pobres, aos sofridos e aos pequenos. Ele é um santo próximo do povo, próximo dos pobres, próximo das famílias e, sobretudo, próximo de Deus. Talvez por isso o povo tenha tanta confiança nele”, apontou o padre.
O pároco diz que o santo também mostra a importância da caridade e atenção aos mais necessitados, e que a fé cristã não pode ser indiferente, sendo necessário gerar compromisso, solidariedade, justiça, cuidado com as pessoas e a disseminação do amor.
“Santo Antônio nos mostra que uma vida verdadeiramente cristã é uma vida que se faz dom para os outros”, conclui.
Initial plugin text
*Colaborou sob supervisão de Larissa Pandori
Veja mais notícias no g1 Itapetininga e Região
VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM
