
A Copa do Mundo da FIFA está aí e muita gente vem demonstrando incômodo diante de um detalhe. Entre as 48 equipes que participam o torneio, disputado nos Estados Unidos, no México e no Canadá, existe uma certa tensão em torno da presença da Irã e do tratamento que os atletas e dirigentes estão recebendo do governo americano. Oficialmente, o Irã já estava classificado para a Copa mesmo antes do fim das eliminatórias asiáticas — no dia 10 de junho de 2025. Mas apenas no dia 9 de maio passado, a federação de futebol do país — depois de ameaçar não pôr o time em campo — aceitou as normas de segurança impostas pelo governo dos Estados Unidos. A delegação não poderá pernoitar em território americano. O time se hospedará em Tijuana, no México, e viajará de avião para as cidades de Los Angeles (onde enfrentará as equipes da Nova Zelândia e da Bélgica) e de Seattle (onde jogará contra o time do Egito). E nem todos os integrantes da delegação estarão autorizados a pisar em território americano — apenas aqueles que estiverem diretamente envolvidos com a partida. A viagem de ida será feita no dia do jogo e a volta, logo depois da partida. Entre Tijuana e Los Angeles, a viagem dura 45 minutos. Até Seattle, pouco mais de duas horas. Visto por esse lado, é um absurdo. Obrigar atletas a condições tão desiguais de competição em relação aos adversários está sendo considerado um absurdo do ponto de vista esportivo. Isso comprometeria o desempenho e reduziria as chances da equipe. Mas, e se for justamente isso que o Irã deseja? Ou seja: usar sua presença na Copa como uma espécie de alto falante para o discurso antiamericano que faz questão de manter inflamado. O time do Irã certamente não se classificará para a segunda fase da competição — e a culpa pelo desempenho dos atletas certamente será debitada na conta das imposições dos Estados Unidos. Será que apenas isso explicará o mau desempenho? Antes da participação atual, a equipe iraniana esteve presente em seis das 22 edições da Copa. A primeira delas em 1978, na Argentina, antes da revolução islâmica que transformou o país num inimigo declarado do Ocidente. Nunca foi além da primeira fase.
Guerra declarada
Os críticos do presidente Donald Trump, no entanto, fazem questão de ignorar as circunstâncias que envolvem o Irã e o atual momento. E varrem para debaixo do tapete tudo o que possa justificar a dose extra de cuidado que as autoridades americanas vêm dedicando à seleção. Esta, porém, é a primeira vez na história das competições esportivas que um país recebe em seu território a delegação de outro país, contra o qual está em guerra declarada. E do qual recebe ameaças sucessivas. Os adversários de Trump insistem em argumentar que o momento é de congraçamento e que os Estados Unidos deveriam aproveitar a oportunidade para avançar em direção à paz. Pois bem… Se o futebol fosse forte o bastante para justificar o fim de qualquer hostilidade entre inimigos declarados, por que os países do Oriente Médio não oferecem à Seleção de Israel segurança na disputa pelas eliminatórias da Copa do Mundo? Na história de todas as Copas, a time israelense teve apenas uma participação — na Copa de 1970, no México. Terminou em 12º lugar entre as 16 seleções que disputaram aquele torneio. Hoje, a Fifa abre espaço para 48 seleções, 32 vagas a mais do que naquela edição vencida pelo time brasileiro. E nem assim Israel consegue espaço. Por quê? Bem, até 1970, Israel disputava as eliminatórias asiáticas e sua presença sempre estimulou boicotes de países árabes. Depois, a FIFA chegou a fazer uma experiência, transferindo a equipe israelense para disputas com times da Oceania. Até que, a partir das eliminatórias para a Copa de 1982, o time passou a disputar eliminatórias contra as fortes seleções europeias. Para a Copa deste ano, por exemplo, o sorteio da UEFA, a federação da Europa, deixou Israel num grupo que tinha a forte seleção da Noruega e a tetracampeã mundial Itália (que não se classificou) tinha também as equipes da Moldávia e da Estônia.
Sangue na areia
Copa do Mundo à parte, essa situação que envolve as seleções de futebol do Irã e de Israel faz parte do mesmo contexto que cerca as relações políticas, diplomáticas e bélicas na região mais conflagrada do mundo. Quem acompanha o noticiário internacional sobre o Oriente Médio costuma ser bombardeado por uma narrativa binária, quase sempre importada das redações ocidentais e repetida à exaustão pelos comentaristas de serviço. De um lado, fala-se incessantemente em “processo de paz”, “solução de dois Estados” (para o caso de Israel e da Palestina), “direitos humanos” e “autodeterminação dos povos”. Do outro, assistimos, perplexos, ao colapso contínuo de qualquer tentativa de estabilização, com o sangue manchando as areias de uma região que parece imune à diplomacia moderna. A verdade incômoda, que poucos têm a coragem ou o preparo intelectual para admitir, é que, na geopolítica, assim como do futebol, o Ocidente insiste em ler a região com o mapa errado. Tenta-se exportar um sistema operacional — a democracia liberal e o conceito europeu de Estado Nação — para um hardware social que simplesmente não foi desenhado para rodá-lo. Como bem definiu o Dr. Mordechai Kedar, um dos maiores especialistas mundiais em cultura árabe-islâmica e ex-oficial da Inteligência Militar de Israel, com 25 anos de experiência no terreno: “Não se pode rodar o sistema Android num iPhone. Simplesmente não funciona”. E, no entanto, é exatamente isso que diplomatas, políticos e organizações internacionais tentam fazer há mais de um século. Para entender o fracasso crônico das políticas ocidentais na região, é preciso abandonar a lente da política tradicional e adotar a lente da sociologia profunda. O Oriente Médio não é movido por ideologias partidárias, manifestos constitucionais ou fronteiras desenhadas em gabinetes refrigerados em Paris, em Londres ou na sede das Nações Unidas, em Nova York. Ele é movido por uma estrutura milenar, inquebrável e visceral: o clã. A lealdade primária de um indivíduo no mundo árabe não é ao país, não é à bandeira, nem sequer ao governo central. A lealdade absoluta é à sua tribo, à sua família estendida.
Clã hegemônico
Quando olhamos para o mapa desenhado após a Primeira Guerra Mundial, sobretudo por meio do infame Acordo de Sykes-Picot (1916), vemos a raiz do caos contemporâneo. Potências coloniais como a França e a Grã-Bretanha, embriagadas pela vitória sobre o Império Otomano, decidiram retalhar o Oriente Médio com réguas e esquadros. Criaram Estados artificiais — Síria, Iraque, Líbia, Líbano, Iêmen — agrupando dezenas de clãs, etnias e religiões historicamente rivais sob um mesmo guarda-chuva institucional. O resultado é o que vemos hoje nos noticiários: guerras civis intermináveis, massacres sectários e governos centrais que só conseguem manter a coesão por meio da força bruta e do terror de ditaduras implacáveis. Tentar forçar unidades nacionais onde só existem lealdades tribais é, para usar uma linguagem que o mundo corporativo entende bem, como tentar fazer uma fusão entre empresas com culturas diametralmente opostas e hostis. O valor é destruído, a sinergia é uma miragem e o conflito interno torna-se a única constante. O nacionalismo árabe, promovido por líderes como Gamal Abdel Nasser no Egito ou pelo Partido Ba’ath na Síria e no Iraque, provou ser um slogan vazio diante da força telúrica da tribo. Como nota o professor Kedar, “não existe nação iraquiana”. O Iraque é um mosaico fraturado de mais de 70 clãs, curdos, árabes, sunitas e xiitas, forçados a conviver num espaço delimitado por interesses britânicos. Em contrapartida, basta olhar para as monarquias do Golfo Pérsico para entender o que realmente funciona naquela latitude. Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Catar, Omã e Arábia Saudita são oásis de prosperidade, segurança e estabilidade. Por quê? A resposta fácil e preguiçosa seria “por causa do petróleo”. Mas o Iraque e a Líbia também nadam em petróleo e, no entanto, são o inferno na terra. O verdadeiro diferencial do Golfo é estrutural e sociológico: nestes casos, a fronteira política coincide perfeitamente com a sociologia local. Cada um desses países é, na prática, governado por um único clã hegemônico. No Kuwait, governa a família Al-Sabah; no Catar, os Al-Thani; em Dubai, os Al-Maktoum; em Abu Dhabi, os Al-Nahyan; e na Arábia Saudita, a própria família Al Saud dá o nome ao país. Não há crise de identidade nacional, não há guerras civis por poder sectário, porque o Estado e a tribo são a mesma entidade. A governança é orgânica. O Estado não é uma imposição externa; é a extensão natural da estrutura familiar. Essa mesma miopia sociológica ocidental contamina, de forma trágica, a visão sobre a questão palestina. A narrativa hegemônica de uma “nação palestina” coesa, unida por um propósito comum e pronta para assumir as rédeas de um Estado democrático moderno, esbarra violentamente na realidade demográfica e tribal do terreno.
Paz de Hudaybiyyah
Como aponta minuciosamente o Dr. Kedar, a sociedade árabe na Cisjordânia e em Gaza é uma “sociedade em transição”, profundamente fragmentada em clãs locais. Mais ainda, a própria ideia de uma ancestralidade palestina imemorial é desafiada pela linguística e pela demografia. Muitos palestinos carregam sobrenomes que revelam as suas origens estrangeiras recentes. Nomes como Al-Masri (o egípcio), Al-Horani (da Síria) ou AlHijazi (da Arábia Saudita) contam a história de populações árabes que migraram para a região no final do século XIX e início do século XX, atraídas pelo formidável desenvolvimento econômico e pelas oportunidades de emprego geradas pelo incipiente movimento sionista. A Autoridade Palestina, criada sob os auspícios dos Acordos de Oslo nos anos 90, é o exemplo perfeito do erro ocidental. É uma estrutura artificial, financiada e sustentada pelo Ocidente e por Israel, liderada por figuras que não pertencem às tribos dominantes da região. Yasser Arafat nasceu no Egito; Mahmoud Abbas, o atual presidente, nasceu em Safed, na Galileia. Para o clã Jabari, que domina a cidade de Hebron, ou para o clã Masri, em Nablus, estes líderes são forasteiros ilegítimos. Não é por acaso que Abbas raramente sai do seu complexo em Ramallah para visitar outras cidades palestinas; ele sabe que a sua autoridade orgânica é nula. A isto soma-se um vetor ainda mais profundo e frequentemente ignorado pelo secularismo ocidental: a teologia islâmica. No Islã, a visão sobre territórios, soberania e acordos de paz difere radicalmente da visão diplomática de Genebra ou Nova Iorque. A teologia islâmica divide o mundo e as religiões de forma muito clara. O Islã é considerado a única religião verdadeira (Din Haq), enquanto o judaísmo e o cristianismo são vistos como religiões invalidadas (Din Batil). Historicamente, judeus e cristãos só podiam viver sob domínio islâmico na condição de
