
Paula Lopes, ex-secretária da Secretaria de Bem-estar Animal de Canoas (RS), foi presa preventivamente na manhã desta segunda-feira (15) por suspeita de realização de eutanásias irregulares tanto em seu trabalho dentro de um instituto que fundou, quanto em sua atuação no cargo, entre janeiro e julho de 2025.
Paula Lopes é protetora de animais e já estava indiciada após a primeira fase da operação, que foi realizada em setembro de 2025 e investigava o possível esquema de eutanásia fraudulenta de cães e gatos para desviar valores. As investigações começaram após denúncias de pessoas que precisaram da secretaria e de agentes da pasta. Segundo a apuração da polícia, animais eram encaminhados para eutanásia em situações em que ainda haviam alternativas de tratamento, para que os valores necessários para recuperação fossem desviados.
Ainda segundo a delegada, as apurações se aprofundaram e constataram um número desproporcional de eutanásias realizadas, sobretudo em comparação com anos anteriores, após analise dos materiais apreendidos na primeira etapa.
À época, as buscas e apreensões foram realizadas na sede do órgão municipal, naa residência da investigada, em um sítio onde está registrado o seu Instituto Nacional de Proteção Animal (Instituto Paula Lopes) e na casa de médica veterinária que também atuava na secretaria.
Ao todo, 498 animais que foram mortos ao longo dos meses de administração na secretaria, em uma “matança desmedida”, conforme a polícia.
A suspeita motivou a prisão preventiva da ex-secretária nesta segunda (15). Além dela, outros dois médicos-veterinários também foram presos preventivamente e doze mandados de busca e apreensão realizados. As identidades não foram divulgadas. Ao iG, a defesa de Paula comunicou que está tomando ciência da situação e que ainda não teve acesso ao processo, que tem caráter sigiloso, mas que irá se manifestar assim que possível.
Já a prefeitura de Canoas (RS) ressaltou que Paula não integra o quadro de servidores desde julho de 2025 e que os novos fatos divulgados são condutas praticadas majoritariamente no âmbito de sua atuação particular. O município também declara que tem colaborado integralmente com as investigações. Leia a nota na íntegra abaixo.
Instituto de Proteção Animal também era palco do esquema
A exoneração do cargo em Canoas (RS) não desmobilizou o esquema de eutanásias inapropriadas, que continuou operando por meio de Instituto próprio, segundo a polícia.
A segunda fase da operação, realizada nesta segunda-feira (15), mirou na associação, fundada pela ex-secretária em um sítio. De acordo com a investigação, ela atuava desde 2020 e durante o período realizou 549 vaquinhas, com um total de R$ 672.670,39 angariados, vindo de 14.545 doadores.
A polícia acredita que fotos de animais com deficiência resgatados eram utilizadas de fachada para justificar o levantamento de doações e valores pelo instituto. A ação desta manhã também apreendeu um cão sem as duas patas dianteiras, que estava sendo usado nas redes sociais do instituto para pedidos de pix nas últimas publicações das redes sociais do instituto.
Entenda como funcionava o suposto esquema
Por nota, a Polícia Civil exemplificou uma das situações que concretizaram as suspeitas. Segundo a corporação, uma das veterinárias comunicou a possibilidade de cinomose e perguntou se seria feito o teste antes de qualquer decisão.
Contudo, a ex-secretária teria autorizado o procedimento de eutanásia, mesmo sem o diagnóstico definitivo, o que vai contra práticas clínicas recomendadas. Ainda, a apuração aponta que na mesma data, Paula teria pedido de apoio financeiro nas redes sociais para custear o suposto tratamento do animal, enquanto já teria autorizado a morte do bicho. A polícia suspeita, portanto, que havia uma narrativa pública para angariar valores para supostos tratamentos e cuidados que não correspondiam ao destino dado aos animais debilitados, configurando uma prática de estelionato. Segundo a delegada Luciane Bertoletti, a investigação continua, com foco em estimar quantos animais foram vítimas do esquema de “eutanásia financeira”.
Leia a nota da Prefeitura de Canoas (RS) na íntegra:
“Com relação aos novos desdobramentos das investigações conduzidas pela Polícia Civil envolvendo a ex-secretária municipal de Bem-Estar Animal, a Prefeitura de Canoas ressalta que a investigada não integra mais o quadro de servidores do Município desde sua exoneração, ocorrida em julho de 2025.
A Prefeitura também destaca que os novos fatos divulgados pelas autoridades competentes se referem, em grande parte, a supostas condutas praticadas no âmbito de sua atuação particular, como responsável por entidade privada.
Desde que teve conhecimento das denúncias, o Município tem colaborado integralmente com as investigações, fornecendo as informações solicitadas e adotando as medidas administrativas cabíveis para a apuração dos fatos.
Reiterando seu compromisso com a proteção e o bem-estar animal, a transparência na gestão pública e a defesa do interesse da população, a Administração Municipal confia no trabalho das instituições responsáveis pela apuração do caso e espera que todos os fatos sejam esclarecidos com a máxima celeridade e rigor, assegurando a responsabilização de eventuais envolvidos”.
