
Reuters
Os 10% de pessoas que mais consomem no mundo provocam danos ambientais avaliados entre US$ 1,7 trilhão e US$ 5,7 trilhões por ano (algo entre R$ 8,72 trilhões e R$ 29 trilhões, na cotação atual).
A estimativa é de um estudo das universidades de Leiden, na Holanda, e Oxford, no Reino Unido, publicado nesta quarta-feira (18) na revista científica “Communications Sustainability”.
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A cifra chama atenção porque supera, mesmo no cálculo mais conservador, a soma de duas grandes metas internacionais: os US$ 993 bilhões por ano prometidos para ações climáticas até 2035, em acordo fechado na COP30, em Belém, e os US$ 675 bilhões estimados como necessários para conter a perda de biodiversidade até 2030.
Na prática, dizem os autores, o padrão de consumo do topo da pirâmide global já impõe uma conta maior do que aquela que os governos dizem estar dispostos a pagar para enfrentar as crises do clima e da natureza.
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Quem entra nesse grupo
O estudo olha para o consumo, e não diretamente para a renda — embora as duas coisas estejam relacionadas. Em média, cada pessoa entre os 10% que mais consomem responde por danos ambientais de US$ 2.300 a US$ 7.500 por ano.
Mas a conta varia muito conforme o país. Nos Estados Unidos, onde o impacto individual é o mais alto entre os locais analisados, o prejuízo atribuído a cada pessoa desse grupo vai de US$ 19 mil a US$ 63 mil por ano. Isso equivale a algo entre 6% e 20% da renda dessas pessoas.
Na outra ponta, os menores valores aparecem no Egito, entre US$ 266 e US$ 852 por pessoa ao ano. Na Índia, a estimativa fica entre US$ 410 e US$ 1,4 mil.
A pesquisa analisou seis países — Brasil, China, Egito, Alemanha, Índia e Estados Unidos — além do total global. Segundo os autores, mais de 60% das pessoas que fazem parte do topo mundial do consumo vivem nos Estados Unidos e na União Europeia. Na Índia, está apenas cerca de 2% desse grupo.
Para a autora principal do estudo, Inge Schrijver, o problema não está apenas no fato de esse grupo consumir mais, mas em escolhas específicas que elevam o impacto ambiental.
“O comportamento desses 10%, como voos frequentes e carros grandes, é o que causa o dano. Então há uma oportunidade para os formuladores de políticas fazerem a diferença”, afirmou.
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Perda de natureza pesa mais que clima
O estudo mostra ainda que a maior parte da conta ambiental associada ao consumo dos 10% do topo não vem do aquecimento global, mas da perda de biodiversidade, responsável por 47% a 56% dos danos estimados. As mudanças climáticas aparecem em seguida, com 36% a 45%.
Para os autores, o dado reforça que clima e natureza não podem ser tratados como crises separadas: o mesmo padrão de consumo que aumenta emissões também pressiona florestas, rios, solos e espécies.
O coautor Paul Behrens afirma que esse grupo tem peso especial porque influencia a economia como consumidores, investidores, empregadores e formadores de tendências.
“O poder deles de cortar emissões é ainda maior do que a parcela que lhes cabe.”
Hoje, porém, a conta não recai diretamente sobre quem mais consome. “Atualmente, os custos são arcados pelos ecossistemas e pelas comunidades que enfrentam secas e poluição”, disse Behrens.
A pesquisa se apoia no princípio do “poluidor-pagador”, segundo o qual quem causa um dano ambiental deve assumir os custos desse impacto.
Mas os autores fazem uma ressalva: a ideia não é criar uma espécie de “licença para poluir”, em que bastaria pagar para continuar destruindo.
Para eles, a cobrança só faria sentido se viesse acompanhada de medidas para reduzir o dano na origem, sobretudo no consumo de luxo, com regras mais rígidas e fiscalização.
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