
As guerras não são todas iguais, em muitos sentidos.
A Rússia e a Ucrânia travam a sua desde 2002 sem interrupções e sem outros países envolvidos. A Guerra dos Cem Anos entre a França e a Inglaterra, travada no final da Idade Média, também foi travada entre dois adversários, mas com três tréguas intermediárias. Entre Israel e o Egito, foram necessários quatro conflitos ao longo de 40 anos antes de os países chegarem a um acordo de paz, finalmente assinado em 1979. A atual guerra enfrentada por Israel não é nada assim. Seria bem mais simples enfrentar um conflito com o Irã e seus proxies que, mesmo que longo e custoso, tivesse um começo, um meio e um fim. E que fosse a última. E que tivesse um parâmetro claro que indicasse quando ela chegasse ao fim.
Mas não é assim. Ela nem mesmo chegou ao fim, e já outra está a caminho, ainda que seja difícil saber em que ponto a história está e qual será o próximo fronte entre as várias possibilidades — Gaza, Hezbollah ou Irã. A coisa chegou ao ponto do atual conflito entre Israel e o Hezbollah ser chamado de “Guerra do Cessar-Fogo”.
Maior amigo e bagunça no tabuleiro
Outro aspecto que diferencia a atual guerra de Israel de outras é que o país não está sozinho desse lado do tabuleiro: tem em seu cangote, atuante e ruidosa, a maior força militar do planeta. Os EUA muitas vezes atrapalham mais do que ajudam. Parece ser o caso neste momento.
Nos noticiários, assiste-se, dez vezes por dia, ao vice-presidente americano J. D. Vance tentar explicar, em entrevistas, o que está acontecendo. Afinal, nem mesmo seu público doméstico está entendendo aonde Donald Trump quer chegar ao conduzir o que parece ser o pior acordo da história moderna com o Irã.
O problema, na visão israelense, é que Washington parece oferecer ao regime exatamente o que Israel tentava impedir: tempo. Atenção ao verbo “parece”, já que é difícil ter uma visão clara do que a administração americana planeja, além de ser arriscadíssimo fazer julgamentos categóricos sobre Trump.
Afinal, quando se trata dele, é muito tênue a distância entre um golpe de mestre e pênalti batido pra fora.
Poucos veem o copo meio cheio
Pelo menos em Israel, há bem poucas vozes pedindo “muita calma nessa hora”: a sensação da população não é boa. As análises de especialistas lembram os comentários de pessoas que confortam familiares após o enterro de um ente querido. São poucos os que se esforçam para enxergar o copo meio cheio — mas eles existem.
Esses analistas lembram, antes de mais nada, que a única instituição iraniana que sobreviveu intacta aos ataques foi a máquina de propaganda. Ela está, no momento, operando no máximo para confirmar tudo o que dê respaldo à versão de um triunfo iraniano.
Em uma análise fria, observa-se que os EUA interrompem o bloqueio aos portos iranianos em troca da reabertura do Estreito de Ormuz. Depois disso, os países terão 60 dias para negociar os temas que, na verdade, levaram o Irã à guerra. E se não der certo? Talvez volte-se ao cenário de hoje, um cessar-fogo pra inglês ver, repleto de ameaças e de curtos-circuitos. A outra opção é a retomada da guerra, mas não o seu fim.
Recuperação militar
A estratégia americana não faz sentido para Israel, que prefere manter a pressão econômica e militar sobre o Irã, sem permitir que o Irã se reestruture ou recupere parte de seu poder de fogo. Cada semana de trégua representa uma oportunidade para que o regime reorganize sua capacidade militar e se fortaleça internamente.
Além disso, um dos principais objetivos da guerra para Israel é o fim deste regime — algo que, como Trump anda dizendo, não é de interesse dos EUA.
“Nunca me importei com a mudança de regime. E acho que já houve uma mudança de regime, porque o primeiro grupo está morto, o segundo grupo está morto, parte do terceiro grupo desapareceu e agora estamos lidando com pessoas muito racionais”, disse ele. Depois, completou com uma “pérola”:
“Agora estamos lidando com pessoas muito racionais.”
Vá saber de onde ele tira essas coisas.
Objetivos de curto prazo
Ainda assim, Trump está sendo fiel ao seu estilo de perseguir objetivos de curto prazo: se o regime “sequestrou” o estreito, os EUA farão o que for necessário para liberá-lo. Esse é o raciocínio seguido por Donald Trump, segundo Matt Continetti, diretor de Estudos de Política Doméstica do American Enterprise Institute.
“O processo em curso se assemelha àquele que ele impôs pela libertação dos reféns israelenses, no qual houve um cessar-fogo, a libertação e, em seguida, cumpriu-se a promessa de uma negociação futura (mesmo que ela não tenha chegado a lugar algum, vale dizer). Desta vez, o Estreito de Ormuz foi feito refém: Teerã o capturou e provocou uma crise econômica, que repercutiu em tensões geopolíticas mundiais e em dificuldades políticas para Trump. Haverá um cessar-fogo, a liberação e, em seguida, a negociação”, defende Continetti.
Mesmo que isso faça sentido para os EUA, o acordo atual é perturbador para os israelenses. Não apenas em função da suspensão, mesmo que temporária, da pressão sobre o Irã, mas principalmente pela conexão feita com o fim da campanha israelense contra o Hezbollah no Líbano.
Aos cidadãos do norte de Israel foi prometido um futuro sem ataques de mísseis sobre suas cabeças, realidade que já dura décadas. O governo Netanyahu não pode nem quer deixar essa situação em aberto — ainda mais hoje, quando o grupo e seu principal apoiador, o Irã, estão debilitados como nunca. Israel quer “terminar o serviço”.
Os israelenses têm duas opções. A primeira é enfrentar Trump e seguir em frente na guerra com o Hezbollah. É difícil imaginar qual seria o preço que pagaria pela “ousadia”. A segunda é torcer para que nada caminhe nesses 60 dias de cessar-fogo que estão sendo acordados entre o Irã e os EUA.
Nem é preciso sonhar muito, já que eles sabem que o regime islâmico não abrirá mão de seu programa nuclear, pois ele é sua segunda razão de viver (a primeira é destruir Israel). Ou seja, Israel antevê que, ao fim desse período, a região voltará ao campo de batalha.
Talvez seja justamente esse o maior drama israelense: não saber quando uma guerra termina, mas sim quando a próxima começa.
