Do travesseiro de tijolo ao mistério da água em túmulo: os segredos do padre Donizetti no interior de SP


Do travesseiro de tijolo ao mistério da água em túmulo: os segredos do padre Donizetti
O mês de junho de 2026 marca um centenário histórico para os devotos do Padre Donizete Tavares de Lima. Há 100 anos, em junho de 1926, o religioso chegava ao município de Tambaú (SP) para assumir como pároco da Igreja Santo Antônio — marco inicial de uma trajetória repleta de fé, fenômenos inexplicáveis, curas impossíveis e forte apelo social.
Para celebrar a data, a cidade realiza uma semana de comemorações que se encerra no próximo domingo (21), com a 50ª edição da Marcha da Fé.
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Um dos 16 filhos da professora Francisca e do advogado Tristão, Donizetti nasceu em Cássia (MG) e ficou conhecido pela trajetória cercada de relatos milagrosos em Tambaú. Ele foi beatificado em 2019, após o Papa Francisco reconhecer o milagre que curou os pés tortos de Bruno Henrique Arruda de Oliveira. Para ser canonizado, é necessário o reconhecimento de mais um milagre do beato.
O mistério da água e a Igreja de Santo Antônio
A história do padre Donizetti é interligada a eventos considerados milagrosos, muitos deles relacionados à água.
A imagem de Nossa Senhora Aparecida intacta (1927–1929): Em 1927, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida chegou à cidade sob forte chuva, mas os relatos afirmam que a água não atingia a procissão. Dois anos depois, em 1929, um incêndio destruiu completamente a Igreja Santo Antônio. A única peça que sobrou intacta, inclusive com seu manto de seda, foi a mesma imagem de madeira de Nossa Senhora. A igreja foi reconstruída e reinaugurada no dia 12 de junho.
Aparições na garrafa: Nos anos seguintes, fiéis relatavam enxergar a imagem de Nossa Senhora Aparecida dentro de garrafas de água e óleo que eram erguidas no momento em que o padre dava a bênção da janela de sua casa.
As gotas inexplicáveis: Durante o processo de beatificação, o Vaticano realizou a exumação do corpo do religioso e o caixão boiava em uma grande poça d’água subterrânea. Atualmente, o túmulo do padre recebeu um fechamento de vidro que permanece constantemente coberto por bolinhas de água sem explicação. O mesmo fenômeno ocorre em uma placa de vidro instalada no antigo serpentário de sua casa.
O voto de pobreza e o travesseiro de tijolo
100 anos após chegada de Padre Donizetti a Tambaú, legado de fé e milagres segue vivo
A antiga casa paroquial onde o padre Donizete morou por 35 anos transformou-se em um museu aberto à visitação pública. O local preserva o mobiliário original de madeira, vestimentas sacras, batinas e os restos do caixão e da vestimenta da exumação.
O quarto do religioso é um dos pontos mais visitados. Embora fosse um padre diocesano — categoria que não exige o voto de pobreza —, ele optou por abdicar das riquezas.
A antiga casa paroquial onde o padre Donizete morou por 35 anos transformou-se em um museu aberto à visitação pública
Fabio de Souza/EPTV
Padre Donizete dormia diretamente no chão do quarto e utilizava bíblias e tijolos como travesseiro. A cama hospitalar exposta no local só foi aceita por ele nos momentos finais de sua vida, por recomendação médica, após ser internado na Santa Casa.
O espaço do museu também abriga o antigo serpentário. Na época, devido ao grande número de fazendas, pessoas eram picadas constantemente. O padre recolhia as cobras na casa paroquial e as enviava de trem para o Instituto Butantan, em São Paulo, recebendo em troca o soro antiofídico que salvava os moradores locais.
Antigo serpentário
Fabio de Souza/EPTV
A Sala dos Milagres e o reconhecimento do Vaticano
No auge das grandes peregrinações, entre os anos de 1954 e 1955, Tambaú chegou a receber 200 mil pessoas em um único dia e 3 milhões de peregrinos em um semestre.
O museu possui a “Sala dos Milagres”, que acumula milhares de objetos deixados por fiéis em agradecimento a curas recebidas:
Peças de gesso (representando pernas, pés e cabeças);
Botas e equipamentos de ferro antigos;
Muletas, andadores e bengalas;
Caixas cheias de óculos e capacetes.
Um mapa-múndi exposto no local exibe alfinetes que demarcam relatos de milagres vindos de várias partes do mundo. O arquivo conta com 14 pastas de correspondências internacionais escritas em línguas como inglês, espanhol e italiano.
Sala dos Milagres no Museu do Padre Donizetti, em Tambaú
Fabio de Souza/EPTV
O Milagre da Beatificação
Embora existam registros históricos famosos em vida — como o caso do menino “Braguinha”, que voltou a andar e jogar bola após retirar próteses de ferro —, o milagre que validou a beatificação foi o do menino Bruno Henrique Arruda de Oliveira.
Bruno nasceu com uma deformidade congênita grave nos dois pés. Em maio de 2006, sua mãe pediu a intercessão do Padre Donizete e, em setembro do mesmo ano, a deformidade desapareceu. A cura inexplicável foi constatada por um médico em 2007, reconhecida oficialmente pelo Papa Francisco em abril de 2019 e culminou na cerimônia de beatificação em novembro de 2019.
O legado de Padre Donizete mistura-se com a história da cidade de Tambaú, sintetizado por sua frase mais célebre:
“Para aquele que crê, nenhuma explicação é necessária. Para aquele que não crê, nenhuma explicação é suficiente.”
O milagre que validou a beatificação do padre Donizetti foi o do menino Bruno Henrique Arruda de Oliveira
EPTV/Reprodução
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