Cientistas mapeiam gigantesca rede subterrânea de fungos

(Society for the Protection of Underground Networks/Reprodução) (Society for the Protection of Underground Networks/Reprodução)

Por: Sofia Barbuio

Debaixo de florestas, campos, desertos e até das cidades existe uma infraestrutura invisível de fungos que conecta plantas, transporta nutrientes e ajuda a combater as mudanças climáticas. Agora, cientistas conseguiram mapear essa gigantesca rede subterrânea pela primeira vez e descobriram que ela é muito maior do que se imaginava.

O estudo, publicado na revista Science, revelou que os fungos micorrízicos arbusculares organismos que vivem associados às raízes das plantas formam uma rede global com cerca de 110 quatrilhões de quilômetros de extensão, distância equivalente a quase um bilhão de vezes o trajeto entre a Terra e o Sol.

Além da dimensão impressionante, os pesquisadores descobriram que essas estruturas desempenham um papel crucial na captura e armazenamento de carbono, ajudando a regular o clima do planeta.

O que são os fungos que vivem sob nossos pés?

Os fungos micorrízicos arbusculares, conhecidos pela sigla AM, estabelecem uma relação de cooperação com aproximadamente 70% das espécies vegetais existentes na Terra.

Nesse sistema de troca, as plantas fornecem aos fungos açúcares produzidos pela fotossíntese. Em contrapartida, os fungos ampliam a capacidade das raízes de absorver água e nutrientes essenciais, como fósforo e nitrogênio.

Segundo os pesquisadores, essa parceria existe há centenas de milhões de anos e foi fundamental para a expansão da vida vegetal em ambientes terrestres.

A maior rede biológica já mapeada

Para estimar a dimensão dessa infraestrutura subterrânea, os cientistas analisaram mais de 16 mil amostras de solo coletadas em diferentes partes do mundo.

Com auxílio de inteligência artificial, imagens robóticas e modelos ecológicos, eles conseguiram prever a densidade dessas redes mesmo em regiões onde não havia medições diretas.

Os resultados impressionam:

  • Cerca de 110 quatrilhões de quilômetros de hifas (filamentos fúngicos) espalhados pelo planeta;
  • Aproximadamente 300 megatons de carbono armazenados na biomassa desses fungos;
  • Transporte anual de cerca de 4 bilhões de toneladas de dióxido de carbono para o solo.
  • De acordo com os autores, uma simples colher de chá de terra saudável pode conter até 10 metros dessas estruturas microscópicas.

O “sistema circulatório” oculto da Terra

Os pesquisadores descrevem as redes micorrízicas como uma espécie de sistema circulatório do planeta.

Assim como as veias distribuem nutrientes pelo corpo humano, esses fungos transportam água, carbono e minerais entre as plantas e o solo.

Em alguns casos, eles conseguem aumentar em até 100 vezes a área de exploração das raízes, permitindo que as plantas encontrem recursos mesmo em ambientes pobres em nutrientes.

O que estamos vendo é uma infraestrutura viva em escala planetária“, afirmam os autores do estudo.

O papel dos fungos no combate às mudanças climáticas

Uma das descobertas mais relevantes da pesquisa envolve o ciclo global do carbono.

Os cientistas estimam que essas redes subterrâneas movimentem cerca de 4 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente para o solo todos os anos, valor que corresponde a aproximadamente 11% das emissões globais de carbono geradas pelas atividades humanas.

Ao armazenar parte desse carbono abaixo da superfície, os fungos ajudam a reduzir a quantidade de gases de efeito estufa presente na atmosfera.

Por isso, especialistas defendem que esses organismos passem a ser considerados em estratégias de conservação ambiental e políticas climáticas.

Agricultura ameaça a infraestrutura subterrânea

O estudo também identificou um fator preocupante. Áreas agrícolas apresentam, em média, densidades de redes fúngicas cerca de 50% menores do que ecossistemas naturais, como campos e florestas.

Os pesquisadores alertam que a degradação dessas comunidades pode comprometer a fertilidade do solo, reduzir a capacidade de armazenamento de carbono e tornar os ecossistemas mais vulneráveis a secas e eventos climáticos extremos.

As pradarias, por exemplo, concentram aproximadamente 40% de toda a biomassa de fungos micorrízicos do planeta, mas continuam entre os ecossistemas menos protegidos do mundo.

Ainda há muito a descobrir

Apesar do avanço, os cientistas afirmam que o conhecimento sobre os fungos subterrâneos ainda está apenas começando.

Grandes regiões do planeta permanecem sem amostragem adequada, o que significa que a verdadeira dimensão dessas redes pode ser ainda maior.

Para os pesquisadores, compreender melhor essa infraestrutura invisível será essencial para enfrentar alguns dos maiores desafios do século XXI, incluindo a segurança alimentar, a degradação dos solos e as mudanças climáticas.

“Os fungos moldaram a vida na Terra durante centenas de milhões de anos. Estamos apenas começando a entender a importância desse sistema subterrâneo para o funcionamento do planeta”, concluem os autores.

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