O dia em que o futebol ajudou a selar a paz na Costa do Marfim

Didier Drogba sendo escoltado por soldados em Abidjan, na Costa do Marfim, em 10 de outubro de 2005Reprodução

“Futebol e política não se misturam.”

Muita gente pensa dessa forma e, para dizer a verdade, e há até um certo sentido nessa afirmação. Para quem defende essa ideia, o futebol seria apenas entretenimento: um espaço neutro, onde as disputas da sociedade deveriam ficar do lado de fora dos estádios. Ali, o que importaria seria apenas regra do jogo, uma espécie de pausa da realidade, um refúgio para esquecer o que nos aflige do lado de fora dos gramados.

Mas a história do esporte mostra exatamente o contrário. A realidade não fica do lado de fora, ela atravessa os portões, ela faz parte do jogo, afinal, o futebol apresentado em campo, em muitos casos, acaba sendo um espelho da sociedade, refletindo suas tensões, conflitos políticos e disputas de identidade. Em alguns momentos, vai além disso: transforma a realidade fora das quatro linhas, podendo gerar paz ou acirrar conflitos, tornando-se até uma ferramenta de reconciliação nacional.

Nenhum caso é tão emblemático quanto o da Costa do Marfim.

Entre 2002 e 2007, o país africano mergulhou em uma guerra civil que deixou milhares de mortos e cerca de 750 mil deslocados. O conflito começou após uma tentativa de golpe contra o governo de Laurent Gbagbo, mas suas raízes eram muito mais profundas. Desde a independência da França, a Costa do Marfim convivia com uma divisão crescente entre o norte e o sul do país. O sul era mais rico, mais urbanizado e concentrava o poder político e cristão. O norte era mais pobre, majoritariamente muçulmano e frequentemente acusado de não ser “verdadeiramente marfinense”. A política da chamada “ivoirité” reforçou essa exclusão ao questionar a cidadania de milhões de habitantes cujas famílias possuíam laços com países vizinhos.

A “ivoirité” começou a separar cidadãos entre os considerados “autênticos” e aqueles vistos como “menos marfinenses”, especialmente imigrantes e populações do norte do país, muitas vezes de origem muçulmana ou com ligações familiares em países vizinhos como Burkina Faso e Mali. Como Alassane Ouattara, que viria a ser uma figura central nas crises políticas posteriores. Antes da guerra civil, ele era um economista formado nos Estados Unidos, com carreira no FMI e no Banco Central dos Estados da África Ocidental, sendo visto mais como um tecnocrata internacional do que como líder político nacional. Sua entrada na política ocorreu nos anos 1990, quando foi nomeado primeiro-ministro, mas sua origem familiar do norte e a política da “ivoirité” acabaram colocando em dúvida sua elegibilidade e o levaram ao centro das tensões que desembocariam na crise do país. 

Essa política alimentou tensões étnicas e regionais, aprofundou divisões internas e ajudou a criar o clima que desembocaria na guerra civil marfinense (2002–2007). Ou seja, aquilo que começou como uma tentativa de definir identidade nacional acabou se tornando um instrumento de exclusão política e um dos fatores de instabilidade do país.

O resultado foi um país partido ao meio. O governo controlava o sul, enquanto os rebeldes das Novas Forças, liderados por Guillaume Soro e Alassane Ouattara, que dominavam o norte. Durante anos, cessares-fogo fracassaram, acordos ruíram e a violência continuou. A guerra deixou de ser apenas militar: tornou-se psicológica, geográfica e simbólica.

Mas havia um lugar onde a Costa do Marfim ainda existia como uma única nação: a seleção de futebol.

Enquanto políticos e militares se enfrentavam, os principais jogadores do país atuavam lado a lado. Havia cristãos e muçulmanos. Homens do norte como os irmãos Yaya e Kolo Touré e do sul Didier Drogba e Aruna Dindane. Jogadores ligados a regiões controladas pelo governo e da mesma etnia do presidente e outros muçulmanos, ligados a áreas dominadas pelos rebeldes. Dentro daquele vestiário existia uma Costa do Marfim que já não existia nas ruas.

O maior símbolo daquela geração era Didier Drogba. Nascido em Abidjan, formado no futebol europeu e ídolo internacional no Chelsea, ele carregava ao mesmo tempo o prestígio global e o peso de uma nação fragmentada. Ele poderia ter permanecido apenas como atleta de elite, distante do conflito ou até mesmo apoiado ao lado do sul e se posicionar contra os rebeldes. Mas escolheu outra posição: a de porta-voz informal da paz em um país em colapso.

O ponto de virada simbólico aconteceu em 2005. A seleção precisava de uma vitória nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2006. O que veio depois ultrapassou o esporte.

Nos vestiários, após a classificação, a cena foi capturada por câmeras e se espalhou pelo mundo. Jogadores do norte e do sul, cristãos e muçulmanos, todos juntos. Drogba pede silêncio, emoção e unidade. E então, o gesto: todos se ajoelham.

E então ele começa:

– Marfinenses, homens e mulheres da Costa do Marfim. Do Norte, do Sul, do Centro e do Oeste. Vocês viram, nós provamos hoje que toda a Costa do Marfim pode coexistir, pode jogar junto por um mesmo objetivo: se classificar para a Copa do Mundo. Vocês nos prometeram que esta festa iria unir o povo. Hoje, nós pedimos a vocês, por favor, nós nos colocamos de joelhos

 Os jogadores se ajoelham e drogba finalmente diz a frase que ficou marcada na história da Costa do Marfim.

– Perdoem! Perdoem! Perdoem! O único país, o único país da África que tem todas essas riquezas não pode mergulhar em uma guerra assim. Por favor, deitem todos as suas armas. Façam as eleições, organizem as eleições e tudo correrá pelo melhor. 

A partir daí Os jogadores cantam em coro.

“On veut s’amuser! Arrêtez vos fusils!”

(“Queremos nos divertir! Parem com suas armas!”)

Esta cena forte foi transmitida para o mundo todo e se transformou em algo raro: um ritual improvisado de reconciliação nacional transmitido ao vivo, vindo não de políticos ou militares, mas de atletas engajados pela paz no país.

Em um país onde os canais oficiais estavam desgastados pela guerra, a imagem da seleção passou a circular como uma narrativa alternativa de unidade nacional. O futebol acabou funcionando como um raro espaço simbólico onde norte e sul ainda apareciam juntos, algo que a política não conseguia mais sustentar.

Hoje, a imagem de Didier Drogba na Costa do Marfim é, em geral, a de um símbolo nacional de unidade e orgulhoReprodução

Poucas semanas depois, a pressão internacional, o avanço militar das forças pró-Ouattara e o desgaste do bloqueio político em Abidjan aceleraram as negociações. O ambiente começou a mudar rapidamente: representantes de diferentes lados passaram a aceitar a necessidade de uma saída negociada, enquanto mediadores da ONU e da comunidade internacional intensificavam as conversas.

Em 2007, esse simbolismo do futebol sendo usado como ferramenta ganhou forma concreta quando um jogo da seleção foi realizado em Bouaké, um dos principais centros controlados pelos rebeldes durante a guerra. O hino nacional tocou em território antes inimigo. Milhares de pessoas assistiram a um gesto que, mais do que futebol, parecia diplomacia encenada em campo.

No mesmo período, foi assinado o acordo que encerrou oficialmente a primeira fase da guerra civil.

Porém, devemos evitar a ideia simplista de que Didier Drogba  e a seleção “acabaram com a guerra”. Isso não aconteceu. O fim da guerra envolvia negociações diplomáticas complexas, mediações internacionais e disputas políticas profundas que não desapareceram.

Até por isso, infelizmente a guerra civil da Costa do Marfim ganhou nova intensidade em 2010 e 2011.

A crise ressurgiu de forma explosiva após a eleição presidencial de 2010, quando Alassane Ouattara foi declarado vencedor pela comissão eleitoral e reconhecido pela ONU, enquanto Laurent Gbagbo recusou-se a aceitar o resultado e permaneceu no poder.

Esse impasse rompeu o frágil equilíbrio do pós-acordo e levou à retomada da violência, com o país novamente dividido entre forças pró-Ouattara no norte e oeste e forças leais a Gbagbo no sul e em Abidjan. A escalada resultou em combates, massacres e grande deslocamento de civis.

A guerra terminou finalmente em abril de 2011, quando tropas pró-Ouattara, com apoio da ONU e da França, capturaram Gbagbo em Abidjan, encerrando o conflito. A partir daí, iniciou-se um período de paz relativa, marcado pela reconstrução do Estado e recuperação econômica, embora ainda com tensões políticas e desafios de reconciliação nacional.

Ainda assim, podemos afirmar também que seria um erro ignorar o efeito simbólico daquele momento, e como aquela equipe ajudou naquele processo doloroso de reconcialiação. Em sociedades em guerra, símbolos não são detalhes: são instrumentos políticos indiretos, capazes de produzir impacto real no imaginário coletivo.

Talvez essa seja a principal lição.

O futebol não encerra guerras por si só, muito menos não substitui tratados, não resolve desigualdades históricas e não reconstrói sozinho um país.

Mas, em alguns momentos raros, ele consegue produzir algo que a política sozinha nem sempre alcança: uma imagem compartilhada de pertencimento de uma nação, pode influenciar o clima social, abrir brechas na narrativa da guerra e lembrar que existe uma identidade comum por trás das clivagens políticas.

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