Crédito privado ganha espaço nas carteiras em meio a juros altos

O crédito privado vem ganhando espaço na carteira dos investidores em um cenário de juros elevados, maior sofisticação da indústria de fundos e busca por alternativas de retorno acima do CDI. No Global Wallet, da BM&C News, Fayga Czerniakowski, sócia e superintendente de crédito da Itaú Asset, explicou como esse mercado funciona e por que a análise profissional se tornou um fator central na escolha dos ativos.

A executiva destacou que investir em crédito privado significa, na prática, emprestar recursos a empresas e bancos em troca de uma taxa de juros previamente combinada. No entanto, esse processo não se limita a carregar o ativo até o vencimento, já que o mercado secundário permite comprar, vender e reavaliar os papéis ao longo do tempo.

“Eu faço tudo isso dentro de fundo de investimento. Então estou concedendo crédito, olhando não só pro horizonte final, mas inclusive para oportunidades no meio do caminho”, explicou Fayga Czerniakowski.

Fundos ampliam acesso e reduzem concentração

Segundo Faiga, os fundos de investimento permitem reunir recursos de diferentes clientes para formar carteiras diversificadas, com exposição a várias empresas, bancos, setores e níveis de risco. Esse modelo amplia o poder de negociação do gestor e reduz a concentração que um investidor individual teria ao escolher poucos emissores diretamente.

Na avaliação da executiva, a democratização do acesso é um dos pontos relevantes da indústria. O investidor não precisa aportar grandes volumes para acessar uma estrutura profissional de análise, acompanhamento e gestão de risco. A diferença está na capacidade do fundo de pulverizar a carteira e monitorar os emissores de forma contínua.

“Então com R$1 o cliente pode comprar literalmente 200 empresas com toda a assessoria, com toda a gestão da Itaú”, afirmou Fayga Czerniakowski.

Seleção de empresas exige processo contínuo

A escolha dos emissores é uma das etapas mais importantes na gestão de crédito privado. Faiga explicou que o processo considera modelos proprietários de rating, análise de balanço, projeções financeiras e fatores qualitativos, como governança, qualidade da diretoria, histórico de gestão e posição da empresa em seu setor de atuação.

Esse acompanhamento, segundo ela, não termina no momento da concessão do crédito. Como empresas, mercados, tributação e regulação mudam ao longo do tempo, o gestor precisa revisar constantemente se as premissas usadas na entrada do investimento continuam válidas. A lógica é ajustar a carteira sempre que a relação entre risco e retorno deixar de ser adequada.

“Escolher a empresa está muito relacionado não só a avaliar o risco em si, mas a relação risco e retorno. E não só na hora que eu tô dando crédito, o tempo inteiro”, avaliou Fayga Czerniakowski.

Juros elevados reforçam a seletividade

O ambiente de juros altos traz efeitos distintos para empresas e investidores. Do lado corporativo, a despesa financeira maior pode pressionar o caixa e aumentar o risco de renegociação de dívidas. Do lado do investidor, a renda fixa se torna mais atrativa, especialmente quando há possibilidade de capturar prêmios adicionais em fundos de crédito.

Faiga ponderou que o cenário atual exige seletividade, mas é diferente de choques inesperados, como a pandemia ou eventos de crédito ocorridos em ciclos anteriores. Segundo ela, muitas grandes empresas anteciparam captações, alongaram dívidas e reforçaram o caixa entre 2024 e 2025, reduzindo a pressão de refinanciamento nos próximos anos.

“2026 é um ambiente amplamente antecipado. As empresas já estavam vendo esse ambiente de taxa de juros mais alta por mais tempo e sabiam da volatilidade dos mercados”, destacou Fayga Czerniakowski.

Offshore amplia diversificação, mas eleva volatilidade

No mercado internacional, os fundos de crédito offshore podem contribuir para a diversificação da carteira ao incluir exposição a dólar, emissores globais e empresas brasileiras que captaram recursos no exterior. Ao mesmo tempo, esses produtos tendem a apresentar maior oscilação, porque combinam risco de crédito, variação cambial e movimentos nas taxas de juros internacionais.

Para a executiva, parte da resistência do investidor brasileiro está ligada à marcação a mercado e à volatilidade diária das cotas. Ela defendeu que o investidor precisa avaliar o horizonte da aplicação e o papel daquele produto dentro do portfólio, evitando decisões motivadas apenas por oscilações de curto prazo.

“Acho que a grande diferença, especialmente quando a gente fala do offshore, é que a gente tem mais volatilidade do que no local”, disse Fayga Czerniakowski.

FIDICs avançam com novas estruturas

Outro segmento abordado por Faiga foi o dos FIDCs, fundos de investimento em direitos creditórios. Segundo ela, ainda existe uma percepção generalizada de que a classe é necessariamente arriscada, embora o risco dependa da estrutura do fundo, dos créditos que compõem a carteira, das garantias e dos prestadores de serviço envolvidos.

A executiva afirmou que mudanças regulatórias ajudaram a ampliar o acesso do investidor final a esse tipo de produto. Entre os pontos citados estão a possibilidade de postergação do pagamento de imposto em relação ao come-cotas e a construção de carteiras pulverizadas, com diferentes perfis de risco e liquidez.

“Primeira mensagem que eu gosto muito de passar é que, FIDC é um veículo, tem FIDC de baixíssimo risco, tem FIDCs muito arriscados”, ressaltou Fayga Czerniakowski.

Carteira deve considerar risco, liquidez e horizonte

Na avaliação de Fayga, o crédito privado deve ser analisado como parte de uma carteira diversificada, ao lado de renda fixa tradicional, renda variável, multimercados e investimentos internacionais. A proporção adequada depende do perfil do investidor, da necessidade de liquidez e da tolerância a oscilações ao longo do caminho.

O avanço da indústria, a ampliação dos produtos disponíveis e o cenário de juros elevados reforçam a importância da gestão profissional. Para o investidor, a principal mensagem é que retorno, risco, prazo e liquidez precisam ser avaliados em conjunto, especialmente em um mercado que oferece oportunidades, mas exige análise criteriosa dos emissores e disciplina na tomada de decisão.

 

 

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