
Shira Stein contou a sua história em um jornal local israelense.
Seu marido, Sruli, foi convocado pelo Exército poucas horas após a invasão do Hamas no dia 7 de outubro de 2023. Eles acreditavam que ficariam separados por uma ou duas semanas, como já havia acontecido em guerras anteriores. “Eu não imaginei que aquele seria o momento que mudaria para sempre nossas vidas”, disse.
Desde então, Sruli já foi convocado quatro vezes (cada período dura de semanas a meses) e está, neste momento, na quinta “rodada”. O bebê mais novo da família nasceu em setembro de 2024: dos seus 22 meses de vida, Sruli esteve fora de casa por 6 deles. Já a filha de 6 anos não se lembra de como era a vida antes do pai passar longos períodos fora de casa, saindo e chegando fardado e armado. Para ela, essa é a realidade de qualquer criança do mundo.
A história de Shira é apenas uma entre dezenas de milhares de histórias que refletem o alto preço cobrado pela mais longa guerra já enfrentada por Israel, cujo impacto social é profundo e difícil de mensurar.
Várias camadas sociais afetadas
Ao observar a população israelense de perto, é possível perceber os diversos públicos afetados diretamente. Entre eles estão as famílias de soldados gravemente feridos ou mortos em combate; as comunidades atacadas no sul do país pelo Hamas; e as do norte, que, depois de passarem um ano e meio desabrigadas e deslocadas para o centro do país, voltaram aos seus lares para viver novamente sob o ataque do Hezbollah. Esses são apenas alguns dos muitos exemplos.
Um dos grupos pouco lembrados é formado pelas famílias de centenas de milhares de soldados reservistas que, desde o dia 7 de outubro de 2023, são convocados para temporadas de serviço militar, deixando tudo para trás: estudos, carreira, pais idosos, esposa, filhos pequenos etc. Pesquisas conduzidas por diferentes entidades, incluindo ONGs criadas por esposas de reservistas, retratam uma situação que está redefinindo a vida de uma das camadas mais ativas e influentes da sociedade israelense.
É importante explicar que, diferentemente da maioria dos países ocidentais, Israel depende amplamente de sua força de reserva para sustentar operações militares prolongadas. Em momentos de crise, o país depende dos reservistas para reforçar as unidades regulares, ocupar posições de combate e ampliar rapidamente o efetivo militar. Por isso, quando uma guerra se estende por meses ou anos, seus efeitos atingem diretamente centenas de milhares de famílias.
Estatísticas da realidade nacional
Israel conta com cerca de 170 mil soldados na ativa. O serviço militar é obrigatório no país: após o fim do ensino médio, homens servem por cerca de três anos e mulheres, por dois anos e oito meses. O período de reserva, obrigatório para algumas funções (como combatentes e pilotos), estende-se até aproximadamente os 45 anos de idade e soma cerca de 30 dias por ano.
No dia 7 de outubro, após o ataque do Hamas, o Exército convocou 360 mil soldados reservistas. A maior parte deles vive em Tel Aviv (42 mil) e em Jerusalém (23 mil), duas das maiores cidades do país. Trinta e sete por cento são pais de crianças menores de idade. Eles serviram, em média, 94 dias em 2024 e 76 em 2025, segundo dados do Exército. Há, no entanto, milhares que acumularam 500 dias ou mais de serviço desde o início da guerra.
Neste momento, cerca de 60 mil reservistas estão convocados. É um volume fora do normal.
Segundo o site do Exército israelense, 472 soldados foram mortos na guerra contra Gaza; o número total, incluindo outros fronts, chegou a 962. Há também um altíssimo número de soldados feridos em graus moderado ou grave — o que inclui amputados e pessoas com diferentes níveis de incapacidade: 6.424. Deles, 958 estão em estado grave.
Não há um número consolidado de soldados que sofrem de TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático). O Exército aponta um aumento de 60% nos casos registrados oficialmente desde 2023.
O impacto sobre a família
Uma pesquisa realizada com 2.621 membros do Fórum das Esposas da FDI (Forças de Defesa de Israel), uma ONG criada em 2023 e que conta com 15 mil membros ativos, revela os efeitos do serviço prolongado e intenso na vida das famílias. O levantamento aponta que um terço dos parceiros de reservistas já considerou o divórcio desde o início da guerra.
Segundo o levantamento, 37% relataram impactos emocionais de alto nível em função da guerra (neles ou em seus parceiros); 31%, em nível elevado; 22%, em nível médio; e 9%, em nível baixo. Somente 2% dos respondentes disseram que o serviço militar não os impactou de forma alguma.
Uma pesquisa da Universidade Hebraica de Jerusalém apontou que 62% das esposas relataram deterioração da saúde mental, incluindo estresse crônico, ansiedade e depressão. Os efeitos também foram sentidos na vida profissional, com um alto número de demissões e outros impactos na carreira, o que naturalmente levou à diminuição da renda. Como a arte imita a vida — e vice-versa —, há várias músicas que abordam esse tema, como a lançada pela cantora israelense Shay Amber, intitulada “Mais um Dia no Oriente Médio”.
Esse é um aspecto sensível dessa crise. Em muitos casos, os reservistas pertencem justamente à parcela mais produtiva da população: profissionais qualificados, empreendedores, trabalhadores autônomos e funcionários em início ou no auge de carreira. Quando são convocados por meses seguidos, a renda familiar diminui, oportunidades profissionais são perdidas e o peso da administração da casa recai quase integralmente sobre o cônjuge que permanece no lar.
As crianças dividem a conta
Cerca de 37% dos reservistas têm filhos menores de 18 anos. A pesquisa do Fórum aponta que 52% das mulheres relataram que o estado mental de seus filhos foi afetado; 75% delas precisam contar com a ajuda da família e de amigos para conduzir a rotina familiar.
Não à toa, o Fórum das Esposas de Reservistas adotou um slogan simples e poderoso: “Por trás de cada reservista, há uma família”.
Enquanto os reservistas defendem as fronteiras de Israel, suas esposas, filhos e pais travam outra batalha, menos visível e raramente reconhecida: a de manter a rotina, preservar a saúde mental e impedir que a vida familiar desmorone enquanto o país permanece em estado permanente de mobilização. Esse é o verdadeiro fronte doméstico da guerra.
