
Jogadora Cibelly Morais, de 20 anos, visitou uma escola em Aparecida de Goiânia para falar sobre igualdade de gênero após um estudante dizer que meninas não jogam.
Divulgação/Cemadipe
O clima de Copa do Mundo contagia não apenas os grandes estádios, mas também o imaginário das crianças. Pensando nisso, uma escola em Aparecida de Goiânia decidiu promover uma conversa sobre igualdade de gênero no esporte após um estudante afirmar que meninas não jogam futebol. Para mostrar que elas podem, sim, ocupar esse espaço, a unidade convidou a jogadora Cibelly Morais, de 20 anos, atleta do Planalto Esporte Clube, que inspirou os estudantes.
Em entrevista ao g1, Cibelly contou que foi surpreendida durante o encontro por uma pergunta que a emocionou. Diante de um cartaz com fotos de sua trajetória no esporte, uma aluna quis saber: “Tia, mas meninas também jogam?”.
A resposta veio de forma imediata. “Meninas também jogam! Expliquei que não é fácil, que exige objetivo e força de vontade, mas que é possível realizar esse sonho”, afirmou.
✅ Clique e siga o canal do g1 GO no WhatsApp
Um vídeo divulgado pela escola mostra momentos da conversa com os estudantes. Em uma das perguntas, uma criança quis saber por que os jogadores gostam tanto de futebol. Cibelly reponde que o esporte vai além das quatro linhas e também representa inspiração para outras pessoas.
“Envolve muito o espelho para outras pessoas. Muitas crianças assistem, se espelham e querem estar no lugar que eles estão hoje em dia”, refletiu.
Outra criança perguntou quantos jogadores entram em campo. Acostumada com as regras do futebol, a atleta explicou que cada equipe atua com 11 jogadores, incluindo o goleiro.
Agora no g1
Ao longo do encontro, os alunos também falaram sobre ídolos do esporte. Cibelly compartilhou experiências da carreira, apresentou troféus e medalhas e respondeu perguntas sobre a rotina de treinamentos e a profissão de atleta.
Da periferia aos gramados
Ao g1, a zagueira do Planalto compartilhou relatos sobre sua trajetória no futebol e destacou que o caminho de uma atleta feminina de periferia é marcado por desafios que vão muito além das partidas.
LEIA TAMBÉM:
Quem soltar rojões durante a Copa do Mundo pode ser multado em até R$ 10 mil em Aparecida de Goiânia; veja como vai funcionar a fiscalização
Doces nas cores do Brasil e sobremesa de capivara: empresas inovam para a Copa do Mundo
Goianos acompanham a Seleção Brasileira em motorhome na Copa do Mundo: ‘É um sonho que a gente está vivendo’
Segundo Cibelly, ela começou a jogar aos 8 anos e, pela falta de escolinhas femininas na época, treinava apenas com meninos e homens.
“Eu escutava em vários lugares que futebol não era para meninas. Meus pais ouviam e não discutiam, e eu também não falava nada. Entrava em um ouvido e saía no outro porque eu tinha um sonho para realizar”, relembrou.
O apoio da família foi fundamental para que ela permanecesse focada nos objetivos e não desistisse diante das críticas.
A luta contra o racismo
Um dos momentos mais difíceis da carreira aconteceu quando Cibelly tinha 15 anos e morava em um alojamento em São Paulo. Longe da família, ela foi vítima de racismo durante uma partida.
“Imediatamente me deu vontade de chorar. Eu queria ir embora, queria desistir de tudo”, desabafou.
Segundo a atleta, uma ligação para a mãe, ainda no vestiário, foi decisiva para que ela seguisse em frente.
“Minha mãe me disse que o caminho teria obstáculos e que a vida não é feita só de flores. Aquilo me aliviou”, contou.
Inspiração para novas gerações
A motivação para continuar, segundo Cibelly, também vem de dentro de casa. O irmão dela, de 7 anos, é admirador da atleta e sonha seguir os mesmos passos no futebol.
“Tudo o que ele me vê fazendo, ele quer fazer também. Eu sou um espelho para ele e para todas as crianças que conhecem minha história. Vou continuar por eles”, afirmou.
Ao final da entrevista, a jogadora deixou uma mensagem para meninas que desejam seguir carreira no esporte.
“Nunca deixem de acreditar. Sejam fortes, corajosas e determinadas. Como minha avó sempre dizia: quanto maior a batalha, maior será a conquista.”
Impacto dentro da sala de aula
De acordo com a vice-diretora educacional da unidade, Grace Kelly, a atividade despertou grande interesse entre os estudantes e reforçou a importância de mostrar que o esporte deve ser acessível a todos, independentemente do gênero.
A professora Silvia Raqueliny destacou que a iniciativa teve impacto positivo ao demonstrar, na prática, que sonhos e oportunidades não devem ser limitados por preconceitos.
Segundo ela, experiências como essa ajudam as crianças a acreditarem em seu potencial e a ocuparem os espaços que desejarem.
Projeto aposta em talentos das comunidades
Moradora da região do Setor Itaipu, em Goiânia, Cibelly integra o Planalto Esporte Clube desde a fundação da equipe, em dezembro de 2024. Segundo o clube, sua trajetória ganhou destaque durante a Taça das Favelas, competição organizada pela Central Única das Favelas (Cufa).
O Planalto surgiu com a proposta de oferecer oportunidades a atletas que, muitas vezes, não encontram espaço nos clubes tradicionais do estado.
Segundo o presidente da Cufa e fundador da equipe, Breno Cardoso, a percepção era de que muitos talentos das periferias, favelas e comunidades não recebiam a atenção necessária para desenvolver o potencial esportivo.
“A ideia foi realmente utilizar os talentos vindos das comunidades. Percebíamos que havia muito potencial, mas faltava suporte para lidar com esses jovens. O Planalto foi fundado para isso, tanto no feminino quanto no masculino”, explicou.
De acordo com Breno, Cibelly, que integra a equipe feminina desde a fundação, é um dos principais exemplos do projeto de valorização de atletas da periferia.
📱 Veja outras notícias da região no g1 Goiás.
VÍDEOS: últimas notícias de Goiás
