Eu sou da América do Sul. E na Copa todos vão saber

Zagueiro do Palmeiras e da Seleção ParaguaiaAPF Oficial

A Copa do Mundo me despertou sensações que nem imaginava que existiam. Esta, especialmente.

Mal tinha baixado a adrenalina da virada contra o Japão e eu parei tudo o que estava fazendo para conferir as cobranças de pênalti do jogo entre Paraguai e Alemanha.

Quando vi, estava berrando na frente da TV como vivesse ou tivesse nascido paraguaio (spoiler: fui pra lá uma única vez). Berrava mais do que no gol do Martinelli. Algum vizinho deve ter estranhado. Eu mesmo estranhei.

Em competições do tipo, torcemos sempre pelo time mais frágil. Por razões humanas e também utilitárias. Uma seleção gigante que bate uma pequena, sem tanta tradição, é rotina. O inverso é um ato histórico. E o que gostamos é de ver a história ao vivaço.

Um gigante que fica pelo caminho é um gigante a menos no nosso caminho. Mas nosso quem?

Até pouco tempo a seleção brasileira era o time que reunia os melhores do meu time e do time do meu vizinho. A bronca que eu guardava por quatro anos de quem me maltratava virava cessar-fogo por um mês. Adorava poder torcer um pouco pelo Viola, o Raí, o Giovanni, e outros ídolos de outros clubes além do meu.

Mas adorava, sobretudo, compartilhar um pouco a admiração pelos meus ídolos, geralmente ofuscada pela rivalidade e as mágoas de clássicos que só podem sagrar um vencedor. Nunca vou perdoar o Parreira por não ter levado o Evair ou o Edmundo para a Copa de 1994. Mas era bom ver o Zinho e o Mazinho emprestados para o restante da torcida por algumas semanas.

Os selecionáveis de hoje me confundem um pouco. Às vezes me pego procurando no Google onde o Bruno Guimarães joga e de onde veio.

Em compensação, sei bem quem é Gustavo Gomez e o tamanho da encrenca na frente dele quando o Manuel Neuer ergueu os braços e esboçou algum desafio. Deve ter alguma palavra em alemão, sussurrada por ele, que signifique “pode vir quente que eu estou gelado, como um bom habitante da Renânia.” 

Aí o Gomez, o jogador que mais levantou taça pelo meu time na História, foi lá e converteu. Como se fosse nada.

Antes eu já havia ficado aflito pelo Maurício, meia que emprestei (sim, eu mesmo) ao Paraguai como palmeirense e brasileiro com um único pedido: “tragam meu garoto de volta, inteiro e sem traumas além dos inevitáveis”. Ele também deixou o dele nas cobranças. Foi quando comecei a perder a voz.

Antes do fim da rodada (pouco depois o Marrocos eliminaria outra favorita, a Holanda) eu já estava vestido com a camiseta da América invertida de Torres García cantando Ney Matogrosso a plenos pulmões: “Deus salve a América do Sul”. Foi a música que o verdadeiro menino Ney escolheu para abrir o primeiro Rock in Rio, em 1985, e lembrar aos visitantes onde eles estavam.

Meu espírito militante, que não descansa nem no futebol, foi dormir satisfeito vendo três antigas colônias baterem potências econômicas que um dia alimentaram pretensões imperiais. Meu filho de 13 anos brincou que a última vez que Alemanha e Japão capitularam juntos foi em 1945. 

Mas havia outra alegria escondida na comemoração.

O futebol global transformou jogadores brasileiros em commodities que a certa altura começam a misturar a língua nativa à dos contratantes ingleses, franceses, espanhóis e alemães. Muitos saem daqui antes de criar qualquer vínculo com os times de formação.

O espaço deixado pelos nossos produtos tipo exportação foi ocupado por destaques de outros países. O zagueiro mais vitorioso do Palmeiras vem do Paraguai. O lateral que empilha títulos é uruguaio (este já voltou pra casa, não sem meus protestos). O atacante recém-contratado está na Colômbia. O artilheiro das duas últimas temporadas é argentino – e não vou lamentar nenhum gol que ele eventualmente fizer nesta Copa, a não ser que seja contra o Brasil. E olhe lá.

Um efeito-rebote é que, na lógica binária das redes, alimentamos tanto ódio de atletas e torcedores rivais (os que compram juízes e sofrem sempre de indignação seletiva) que muitos se tornaram incapazes de torcer por qualquer atleta que veste o manto sagrado do inimigo. Mesmo que provisoriamente ele atue pela seleção.

Mas este é papo para os próximos capítulos.

Por enquanto vou seguir aqui orgulhoso do meu capitão que deu a um país inteiro a alegria que só um palmeirense já sentiu. Por alguns dias vou poder dizer que o zagueiro do meu time brecou o ataque alemão e pode bater no peito para dizer ao mundo: eu sou da América do Sul e agora todos vão saber.

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