O desencanto do eleitor com a política

Pesquisa divulgada ontem pelo Datafolha mostra que dois terços do eleitorado brasileiro não se recordam em quem votou nas últimas eleições para deputado federal ou deputado estadual. A amnésia é ainda maior em alguns recortes da enquete. Entre as mulheres, 74% não se lembram de suas escolhas para a Câmara Federal ou Assembleia Legislativa. Entre os eleitores que votam no PT, este índice é maior que a média: 69%. Entre os petistas, ainda, apenas 52% têm na memória o nome de quem votaram para governador. Já entre os apoiadores do PL, na outra ponta do espectro eleitoral, a lembrança é maior, em 76% dos casos.

Este dado sugere que os eleitores de esquerda têm um nível de engajamento político menor que os conservadores. Talvez seja um sinal dos tempos. Na época do governo militar, aqueles que votavam na direita eram acusados de alienação, por apoiar, no piloto automático, os situacionistas.

Os números levantados pelo Datafolha, por outro lado, um desencanto do eleitor pela política de maneira geral. A desmemória mostra que o voto nada mais é do que uma mera obrigação. Este fenômeno provoca nos parlamentares uma espécie de salvo-conduto: se os eleitores não se lembram em quem votaram, não podem cobrar seus representantes. Isso dá uma espécie de carta branca a deputados e senadores.

A baixa lembrança dos votos para deputado federal e estadual revela, antes de tudo, a pouca visibilidade desses cargos. O sistema político brasileiro concentra atenção no Executivo, especialmente na figura do presidente e dos governadores (não é à toa que apenas 7% dizem não se recordar em quem votaram para o Planalto). São os representantes do Executivo que ocupam o noticiário. Já o Legislativo permanece em segundo plano, com atuação fragmentada, difícil de acompanhar e raramente traduzida em linguagem acessível ao público. Sem presença constante na vida cotidiana, os parlamentares se tornam personagens distantes, quase abstratos.

Outro fator decisivo é a forma como campanhas legislativas são conduzidas. A maioria dos candidatos depende de estruturas locais, acordos regionais e redes de apoio que não se projetam nacionalmente. Seus nomes circulam apenas em nichos específicos, muitas vezes restritos a municípios ou bairros. A decisão não se transforma em vínculo duradouro, porque não há narrativa que a sustente nem presença pública que a reforce.

A desmemória também se relaciona ao modo como o eleitor brasileiro consome informação política. A atenção é volátil, guiada por crises, escândalos e disputas polarizadas. Quando o debate público se organiza em torno de grandes antagonismos ideológicos, o foco recai sobre partidos e líderes nacionais, não sobre os deputados. Há ainda um componente de desconfiança generalizada. O eleitor não acompanha o trabalho dos parlamentares porque não acredita que isso fará diferença. A percepção de que “todos são iguais” reduz o incentivo para lembrar, cobrar ou fiscalizar. Quando o voto é visto como obrigação, não como instrumento de influência, ele perde significado simbólico. A memória se enfraquece porque não há recompensa emocional ou prática em preservá-la.

Esse conjunto de fatores cria um ambiente no qual o Legislativo opera com baixa vigilância social. A ausência de cobrança direta facilita comportamentos oportunistas, já que o custo político de decisões impopulares é menor quando o eleitor não associa o ato ao autor. Até quando o Brasil pode aguentar com seus eleitores se comportando deste jeito?

*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide

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