Rússia autorizou treino secreto na China com 200 militares, diz agência


O presidente russo Vladimir Putin e o presidente chinês Xi Jinping inspecionam a guarda de honra durante uma cerimônia de boas-vindas no Grande Salão do Povo, em Pequim, China, em 20 de maio de 2026.
Maxim Shemetov / Reuters
Um treinamento militar secreto da China com forças russas no ano passado foi autorizado pessoalmente pelo ministro da Defesa da Rússia, com participação direta de pelo menos quatro generais russos e chineses, segundo dois funcionários europeus e documentos obtidos pela Reuters.
As autoridades disseram que o envolvimento de militares de alto escalão em treinamentos relacionados à guerra na Ucrânia mostra a importância da cooperação entre Rússia e China, que tem gerado preocupação na Europa, apesar de Pequim negar que os exercícios tenham ocorrido.
Um documento russo classificado visto pela Reuters cita diretamente um decreto interno emitido pelo ministro da Defesa, Andrei Belousov, em agosto de 2025.
Segundo o documento, por decisão de Belousov, uma delegação das Forças Armadas da Rússia viajou à China para participar de exercícios de treinamento em instalações do Exército de Libertação Popular (PLA, na sigla em inglês).
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Treinamento envolveu defesa contra armas químicas, biológicas e nucleares
O mesmo relatório detalhou um dos cursos de treinamento: uma sessão de três semanas, realizada em uma instalação militar em Pequim, em novembro, com foco em proteção contra ameaças radiológicas, químicas e biológicas.
O documento e um segundo relatório descrevem imagens de soldados russos recebendo instruções de um militar chinês, observando um modelo de reator nuclear e aprendendo sobre “reconhecimento químico”, “reconhecimento de radiação” e proteção de sistemas de ventilação contra contaminação.
A inclusão de treinamento relacionado a armas radiológicas, biológicas e químicas reforça o caráter estratégico dos intercâmbios, afirmou uma das autoridades europeias, destacando que o tema é considerado sensível para forças militares em geral.
Os ministérios da Defesa da Rússia e da China não responderam aos pedidos de comentário da Reuters.
O Ministério das Relações Exteriores da China afirmou, em nota, que sua posição sobre a guerra na Ucrânia permanece a mesma e classificou as acusações como “totalmente infundadas”.
Pequim afirma manter neutralidade no conflito e se apresenta como mediador de paz.
Segundo uma reportagem da Reuters publicada no mês passado, com base em informações de agências de inteligência europeias e documentos militares, a China treinou em novembro cerca de 200 militares russos, alguns dos quais posteriormente participaram da guerra na Ucrânia.
O Kremlin não comentou a informação, mas criticou o que chamou de “informações falsas” divulgadas no Ocidente.
A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, afirmou em 15 de junho que Bruxelas confirmou por seus próprios canais que o treinamento ocorreu e agora avalia as consequências.
Pequim classificou as declarações como “difamações”.
UE avalia resposta sobre relação com parceiro comercial China
Países europeus, que consideram a Rússia sua principal ameaça à segurança desde a invasão da Ucrânia em 2022, acompanham com preocupação o fortalecimento dos laços entre Moscou e Pequim, segunda maior economia do mundo e importante parceiro comercial da União Europeia.
Dentro do bloco de 27 países, o debate ocorre sobre a necessidade de novas medidas em resposta ao treinamento militar, diante da relação econômica mantida com a China.
A União Europeia já aplicou sanções contra empresas chinesas acusadas de apoiar os esforços de guerra da Rússia.
Um terceiro funcionário europeu, em Bruxelas, afirmou à Reuters que o bloco precisa deixar de analisar a China apenas pela perspectiva econômica e considerar o papel do país como um “facilitador decisivo da guerra da Rússia”, expressão usada por Kallas.
As duas autoridades europeias ouvidas pela Reuters, que pediram anonimato devido à sensibilidade das informações, identificaram como signatários de um acordo de 2 de julho que deu base ao treinamento o major-general russo Rustam Khusainov e o coronel sênior chinês Sun Dayun.
Andrei Kartapolov, parlamentar russo que preside o comitê de Defesa da Câmara Baixa do Parlamento, afirmou à emissora russa RTVI que a reportagem sobre o treinamento era “um completo absurdo” e disse que as Forças Armadas russas não tinham nada a aprender com a China.
China não tem experiência recente de combate
A Rússia acumulou ampla experiência em mais de quatro anos de guerra na Ucrânia, enquanto a China, apesar de possuir uma força militar numerosa e tecnologicamente avançada, não participa de um conflito há décadas.
Relatórios internos das Forças Armadas russas obtidos pela Reuters apontaram pontos positivos e limitações nos treinamentos.
Um documento sobre exercícios realizados em Nanjing elogiou a qualidade dos equipamentos, o uso de simuladores e o conhecimento teórico dos instrutores chineses, mas destacou especificamente a falta de experiência de combate da China.
Outros documentos identificaram três generais que participaram dos treinamentos.
Um documento militar russo listou os nomes de todos os participantes dos cursos, incluindo oficiais de alta patente, com informações como cargo, data de nascimento, vínculo e nível de autorização de segurança.
O coronel-general Rustam Muradov, vice-comandante das forças terrestres russas, liderou a delegação da Rússia, segundo a lista e outro documento militar analisado pela Reuters.
Segundo o mesmo material, o major-general chinês Li Jinsun, chefe da Academia Militar do PLA de Defesa Radiológica, Química e Biológica, participou da abertura de um dos cursos.
O major-general russo Vitaly Gerasimov participou de um treinamento realizado em Bengbu, segundo a lista de participantes.
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