Na terça-feira, 30 de junho, Michelle Bolsonaro deixou a presidência do PL Mulher — o cargo a partir do qual construiu, tijolo por tijolo, a mais eficiente estrutura de mobilização da direita brasileira, por incrível que pareça.
Poucas horas depois, pela primeira vez, as pesquisas da semana expunham o paradoxo: a Atlas Intel divulgada em 1º de julho mostrava Lula abrindo mais de 25 pontos sobre ela e cerca de dez sobre Flávio; e, entre as mulheres, o herdeiro ungido pelo pai registrava seu pior desempenho da série — perdia justamente no eleitorado que ela havia organizado. A coincidência das datas não é só irônica. É diagnóstica. E a pergunta que ela impõe não é “quem será o candidato?”, mas “o que isso revela e o que pode acontecer a partir daqui?”.
Convém separar opinião de engenharia política. Não se trata de endossar as posições de Michelle — o conservadorismo de costumes, a pauta evangélica, a retórica antifeminista —, mas de reconhecer um fato incômodo para adversários e aliados: nenhum outro nome do clã organizou uma base com a competência dela.
À frente do PL Mulher, percorreu o país estruturando diretórios femininos, aproximou-se de PP e Republicanos e cultivou o eleitorado evangélico e as mulheres conservadoras — os dois segmentos em que o bolsonarismo sempre encontrou mais resistência. Evangélica, nascida na periferia de Ceilândia, boa de palanque, ela preencheu exatamente as lacunas que o sobrenome não alcançava.
Olhe agora o resto do tabuleiro. Jair Bolsonaro, preso e inelegível até 2030, condenado a 27 anos por tentativa de golpe, administra o espólio de dentro de casa, mandando uma arma para o conserto. Flávio, o escolhido, carrega o desgaste do caso Banco Master. Eduardo articula dos Estados Unidos, longe das urnas, criando mais constrangimento do que resultados. Carlos opera nos bastidores por uma candidatura ao senado em Santa Catarina, estado que mal começou a morar. No meio desse desarranjo, a pessoa que mais entende de construir base é a que foi empurrada para a saída.
Aqui está o cerne sistêmico. Operam, no mesmo partido, duas lógicas incompatíveis. A primeira é dinástica: o patriarca unge o herdeiro de sangue, e a linhagem se sobrepõe à estratégia. A segunda é eleitoral: vence quem mobiliza. A direita escolheu a primeira. Preferiu o filho ao quadro mais competente, a certidão de nascimento à planilha de votos. É a velha dificuldade do bolsonarismo em virar instituição: sem Bolsonaro no comando, o projeto não sabe distribuir o próprio talento — e trata como ameaça quem cresce fora da linha de sucessão.
Seria simples demais, porém, transformar Michelle na salvadora preterida. O ceticismo vale para os dois lados. Ela nunca disputou uma eleição, não tem mandato, e sua maior força é também seu teto: mobiliza a base como ninguém, mas, nas simulações de segundo turno, perde para Lula por margem maior que a de Flávio. Converte devoção em comparecimento, não necessariamente em expansão. O cálculo do PL — apostar em quem, em tese, dialoga melhor com o centro — não é irracional. O problema é que os números desta semana sugerem que ele falhou: Flávio não segura sequer as mulheres, e a estrategista que as segurava acaba de sair de cena.
Daí a estranheza que motiva esta análise. Michelle é testada nas pesquisas, sim — depois de ter passado meses fora delas —, mas nunca é tratada como aposta central; é tratada como ativo a ser administrado, contido, subordinado. A máquina tolera a mulher que enche o palanque, mas não admite que ela eclipse o filho ungido.
Chame de personalismo, de machismo político, ou das duas coisas: o resultado é uma oposição incapaz de alocar racionalmente o próprio capital humano. Esse é o verdadeiro caos da direita — não a briga pública entre madrasta e enteado, mas a incapacidade estrutural de escolher com a cabeça, e não com o sangue.
O que vem a partir daqui? Vejo três caminhos. No primeiro, Flávio se consolida, segue perdendo o eleitorado feminino e entrega a Lula a reeleição quase de bandeja. No segundo, o desgaste força uma virada tardia — Michelle, Zema, Kassab ,alguém ou algum qualquer, e a direita improvisa um candidato sem tempo de maturação, com todos os riscos que a pressa impõe. No terceiro, a fragmentação prevalece: cinco pré-candidaturas dividem o campo no primeiro turno e nenhuma chega inteira ao segundo.
No fim, a cena de 30 de junho serve de parábola. Um projeto político que afasta sua operária mais eficiente para preservar uma linhagem está dizendo, em alto e bom som, o que valoriza — e o que despreza. A pergunta que fica não é se Michelle seria uma boa presidente; sobre isso, cada eleitor terá a sua. É outra, mais desconfortável: quanto custa, a uma corrente que se diz vencedora, insistir em confundir herança com mérito? Afinal não é a direita que se diz meritocrática?
*Carlos Honorato é economista, PhD e mestre em Administração, especialista em estratégia, cenários econômicos e Scenario Planning. É CEO da OUTPOD e professor da FIA Business School e do Albert Einstein.
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