A disputa por visibilidade digital começa a mudar de endereço. Durante anos, empresas investiram em SEO para aparecer melhor nos resultados do Google e atrair consumidores para sites, aplicativos e marketplaces. Agora, com o avanço da inteligência artificial generativa, uma nova sigla começa a ganhar espaço nas estratégias de marketing e comércio digital: o GEO.
O termo vem do inglês Generative Engine Optimization, ou otimização para motores generativos. Na prática, significa adaptar dados, conteúdo, reputação e páginas de produto para aumentar as chances de uma marca ser citada nas respostas produzidas por sistemas de IA, como ChatGPT, Gemini e outros assistentes virtuais.
A mudança ocorre em meio ao avanço do chamado comércio agêntico, modelo em que agentes de inteligência artificial passam a participar da jornada de compra, desde a pesquisa inicial até a recomendação de produtos e serviços. Nesse novo ambiente, a empresa não disputa apenas o clique do consumidor, mas também a atenção da máquina que filtra, compara e recomenda opções.
Segundo dados compilados no relatório Blind Spot, o ChatGPT teria alcançado 900 milhões de usuários ativos semanais em fevereiro de 2026, com mais de 800 milhões de usuários com compras habilitadas e cerca de 50 milhões de consultas de compra por dia.
O avanço também aparece no tráfego para o varejo. Dados citados no estudo apontam que o tráfego gerado por IA para sites de varejo dos Estados Unidos cresceu 393% no primeiro trimestre de 2026, na comparação anual. Na temporada de fim de ano de 2025, a alta foi de 693%.
A disputa deixa de ser apenas pelo clique
A mudança não está apenas no volume de acessos, mas também na qualidade do tráfego. Segundo dados de Adobe Analytics citados no relatório, em março de 2025, visitantes vindos de IA convertiam 38% abaixo do tráfego tradicional. Um ano depois, em março de 2026, passaram a converter 42% acima.
A leitura é que o consumidor encaminhado por um agente tende a chegar mais próximo da decisão de compra, após uma etapa prévia de filtragem, comparação e recomendação feita pela inteligência artificial.
“O comércio agêntico muda a pergunta central das empresas. Por décadas, a prioridade foi trazer o consumidor para o site. Agora, a questão passa a ser como fazer o agente de IA entender e recomendar a sua marca. Quem não for legível para a máquina pode ficar fora da jornada antes mesmo de o consumidor humano saber que aquela opção existia”, afirma Junior Borneli, fundador da StartSe e da Entrelinhas.
Esse movimento pressiona a lógica tradicional do marketing digital. Dados de Ahrefs, Similarweb e Jasper citados no material indicam que respostas geradas por IA reduziram em 58% a taxa de clique do conteúdo melhor posicionado no Google. A taxa de buscas sem clique em notícias subiu de 56% para 69% em um ano, enquanto o ChatGPT apresenta uma taxa de clique para fora 96% menor que a do Google.
GEO ganha espaço no marketing digital
Nesse novo ambiente, empresas começam a discutir uma disciplina chamada GEO, sigla em inglês para otimização para motores generativos. Enquanto o SEO busca melhorar a posição de uma página nos mecanismos de busca, o GEO procura aumentar a chance de uma marca ser citada em respostas produzidas por inteligência artificial.
De acordo com dados de Similarweb, Frase e LLMrefs compilados no relatório, 71% das páginas citadas pelo ChatGPT têm marcação de dados estruturados, como schema. Páginas com esse tipo de estrutura recebem 3,1 vezes mais citações.
Página de produto vira ficha técnica para a máquina
A adaptação ao comércio agêntico exige que empresas organizem melhor suas informações digitais. Preço, estoque, avaliações, atributos do produto, reputação, disponibilidade e condições de entrega passam a ter peso não apenas para o consumidor, mas também para os sistemas que filtram e recomendam opções.
“A página de produto deixa de ser apenas uma vitrine para o consumidor e passa a funcionar também como uma ficha técnica para a máquina. Preço, estoque, avaliações, atributos e reputação precisam estar organizados de uma forma que o agente consiga ler e confiar. Uma loja pode ter uma experiência visual sofisticada e, ainda assim, ser pouco compreensível para a IA”, afirma Borneli.
Para empresas de varejo, isso significa que design, campanha e experiência visual continuam relevantes, mas deixam de ser suficientes. A marca precisa ser compreensível para sistemas automatizados, que tendem a priorizar dados claros, verificáveis e estruturados.
Impacto também deve chegar ao B2B
Embora a discussão sobre comércio agêntico esteja concentrada no varejo, o impacto tende a avançar sobre serviços e vendas corporativas. Segundo Gartner e Commercetools, citados no relatório, 90% das compras B2B devem ser intermediadas por agentes até 2028, movimentando mais de US$ 15 trilhões em trocas entre máquinas.
O estudo também aponta que 89% dos compradores B2B já usam IA generativa como fonte primária de informação autoguiada. Isso pode alterar processos de cotação, comparação de fornecedores, negociação de orçamento e execução de contratos.
“No B2B, o efeito pode ser ainda mais estrutural. Agentes podem entrar em processos de compras recorrentes, comparação de fornecedores, negociação de orçamento e execução de contratos. A empresa que não for legível e transacionável por agentes pode perder espaço não por preço ou qualidade, mas por incompatibilidade com a nova forma como o cliente compra”, diz Borneli.
Brasil pode seguir caminho próprio
No Brasil, o tema ganha características específicas. Segundo dados de Cortex Intelligence e ABComm citados no relatório, 52% dos brasileiros já usaram ChatGPT ou outro assistente de IA para auxiliar compras nos últimos 12 meses. Entre eles, 74% usam a tecnologia como inspiração para escolher produtos.
A ABComm estima ainda que o e-commerce brasileiro deve movimentar cerca de R$ 259 bilhões em 2026. A combinação entre uso intensivo de aplicativos de mensagem e infraestrutura de pagamentos instantâneos pode fazer com que o comércio agêntico no país avance por um caminho diferente do mercado americano.
O relatório cita movimentos de Visa e Mastercard com pagamentos agênticos no Brasil, além de um piloto da Elo e da Decolar para uma jornada de busca e pagamento de passagens via WhatsApp ou modelos como ChatGPT e Gemini.
“O Brasil tem dois ativos importantes para esse movimento: o hábito de resolver consumo por conversa e uma infraestrutura de pagamento instantâneo consolidada. Por isso, o comércio agêntico brasileiro pode nascer mais perto do WhatsApp do que do site tradicional”, afirma Borneli.
Sites e aplicativos devem mudar de função
A análise não indica que sites e aplicativos deixarão de existir. A tendência é que eles passem a cumprir um papel diferente. Em vez de serem necessariamente o centro da decisão de compra, podem se tornar fontes de dados para sistemas que conversam diretamente com o consumidor.
Nesse ambiente, a vantagem competitiva tende a depender menos de aparecer apenas para humanos e mais de ser compreendido por agentes capazes de filtrar opções em escala.
“Estamos entrando em uma fase em que a marca precisa disputar espaço na memória do modelo. Não basta ser conhecida por pessoas. Será preciso ser compreendida por máquinas que participam da decisão de compra”, conclui Borneli.
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