
Vítimas de sequências de assassinatos em menos de 24 horas Pernambuco
Reprodução/WhatsApp
Oito policiais militares foram denunciados à Justiça pelo assassinato de duas das vítimas da chacina de Camaragibe, sequência de assassinatos que resultou na morte de nove pessoas, incluindo seis da mesma família, após um confronto entre PMs e o vigilante Alex da Silva Barbosa, em setembro de 2023, no Grande Recife.
Se a denúncia for aceita pela Justiça, eles se tornam réus pela morte de Maria José Pereira da Silva e Maria Nathalia Campelo do Nascimento, respectivamente mãe e esposa de Alex da Silva Barbosa. Os corpos das duas vítimas foram encontrados numa área de mata um dia após o conflito armado (relembre o caso abaixo).
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A denúncia foi ajuizada pela 1ª Promotoria de Justiça Criminal de Camaragibe, em atuação conjunta com o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público de Pernambuco (Gaeco/MPPE). As informações foram publicadas pelo Jornal do Commercio e confirmadas pelo g1.
Segundo o documento, os PMs Fábio Roberto Rufino da Silva e Marcos Túlio Gonçalves Martins Pacheco lideraram a perseguição contra Alex da Silva Barbosa e seus familiares, acompanhando as execuções em tempo real.
Os outros seis policiais denunciados são apontados como executores dos crimes. O grupo foi denunciado por dois homicídios qualificados, com as agravantes de motivo torpe e por meio de emboscada.
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O MPPE também pediu a prisão preventiva dos oito militares. O pedido será analisado pelo Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE). O caso integra o último inquérito em aberto sobre a sequência de assassinatos que deixou nove mortos no Grande Recife.
A sequência de homicídios começou depois que o vigilante Alex da Silva Barbosa, de 33 anos, matou dois policiais militares durante um confronto no bairro de Tabatinga, em Camaragibe. Conforme as investigações, por vingança, PMs executaram cinco parentes do atirador, sendo elas a mãe, a esposa e três irmãos dele, além do próprio Alex.
No confronto inicial, a jovem Ana Letícia, de 19 anos, que foi usada por Alex como escudo humano, também morreu mais de um mês depois. Ela foi socorrida e hospitalizada, mas não resistiu. Durante o internamento, deu à luz uma menina.
Dos oito policiais denunciados, Fábio Roberto Rufino da Silva e Marcos Túlio Gonçalves Martins Pacheco já estavam afastados das funções na Polícia Militar e proibidos de manter contato com testemunhas por serem investigados em outros inquéritos relacionados ao caso.
Apesar disso, eles foram promovidos de tenentes-coronéis a coronéis, durante o andamento do processo na Justiça, em julho de 2024. O último posto do plano de cargos e carreira da corporação, o salário de um coronel, na época, era de R$ 27.780,52.
Os outros seis policiais denunciados são:
Romoaldo de Oliveira Guerra;
Moisés Delfino de Souza;
Thiago Dizeu de Souza;
Geraldo Nascimento de Souza;
Rodrigo Augusto Venâncio;
Thiago Firmino Tavares.
O g1 entrou em contato com a Secretaria de Defesa Social (SDS) para saber se os dois policiais apontados como líderes da operação e os outros seis militares acusados estão afastados das suas atividades, mas não recebeu resposta até a última atualização desta reportagem.
O que diz a denúncia
Segundo a denúncia do MPPE, Maria José Pereira da Silva e Maria Nathalia Campelo do Nascimento foram mortas com arma de fogo entre a noite do dia 14 e a madrugada de 15 de setembro de 2023 em uma estrada de barro próximo a um canavial na PE-27, no município de Paudalho, na Zona da Mata Norte.
De acordo com o documento, ao qual o g1 teve acesso, Fábio Roberto Rufino da Silva e Marcos Túlio Gonçalves Martins Pacheco comandaram tanto os policiais “oficialmente empenhados” no crime, quanto os que estavam à paisana, “inclusive encapuzados e usando veículos com as placas ocultas ou adulteradas”. A denúncia diz, ainda, que foi uma “operação de vingança premeditada”.
O documento aponta também que sete policiais, que não foram denunciados, foram primeiro à casa de Maria Nathalia, esposa de Alex. Conforme as investigações, ela foi submetida a tortura, violência física, psicológica e grave ameaça. Dois desses policiais também retiraram a vítima do imóvel pelos cabelos.
Na sequência, o grupo dos seis militares denunciados pelo MPPE, além de outros policiais ainda não identificados, foram até a casa de Maria Nathalia em três veículos e a colocaram à força em um dos carros. Em seguida, seguiram para a residência de Maria José, mãe de Alex, e obrigaram a vítima a entrar em um dos veículos também.
Os policiais saíram em comboio até a estrada onde executaram as vítimas à queima-roupa. De acordo com o documento, Maria Nathália foi baleada no rosto e Maria José, na cabeça.
Cronologia do caso
14 de setembro:
Por volta das 21h, os PMs Eduardo Roque Barbosa de Santana, de 33 anos, e o cabo Rodolfo José da Silva, de 38 anos, foram ao bairro de Tabatinga verificar denúncia de que um homem estava em cima de uma laje “dando tiros para cima em uma comemoração”;
Esse homem foi identificado como Alex da Silva Barbosa, de 33 anos. Segundo vizinhos, ele estava treinando tiros numa mata perto do local;
Alex não tinha antecedentes criminais e tinha uma arma de mira a laser que era registrada;
Quando a polícia chegou ao local para averiguar a denúncia, Alex entrou na casa vizinha para fugir da abordagem policial;
Ao ver os policiais se aproximando, houve uma troca de tiros entre Alex e os policiais. Dois PMs foram baleados na cabeça e Alex fugiu;
No tiroteio, também ficou ferida Ana Letícia, que estava dentro da casa invadida por Alex. A jovem de 19 anos estava grávida de sete meses e perdeu parte da visão do olho esquerdo e massa encefálica;
Antes da troca de tiros, Ana Letícia estava dando banho no filho mais velho, de 3 anos. Segundo um dos advogados da família, Alex fez Ana Letícia de escudo humano;
Um primo de Ana Letícia, de 14 anos, ajudava a colocar a jovem no carro da família para levá-la ao hospital quando mais policiais chegaram ao local. O adolescente disse ter sido agredido pelas costas, derrubado e baleado na nuca por esses policiais;
O irmão de Ana Letícia, Carlos Augusto, contou que foi torturado por policiais depois que a irmã foi baleada. A família também disse que o carro em que estava levando a jovem a uma unidade de saúde foi alvejado pela polícia.
15 de setembro:
Por volta das 2h, também em Tabatinga, três irmãos de Alex foram baleados por homens encapuzados: Ágata Ayanne da Silva, de 30 anos; Amerson Juliano da Silva e Apuynã Lucas da Silva, ambos de 25 anos;
O crime foi transmitido ao vivo no Instagram: Ágata e Amerson morreram no local; Apuynã foi levado ao Hospital da Restauração, no Recife, mas não resistiu aos ferimentos;
Algumas horas antes, Ágata comentou no Instagram que a mãe tinha sido sequestrada e que a casa dela tinha sido invadida por mais de 10 homens;
Por volta das 9h, os corpos da mãe de Alex, Maria José Pereira da Silva, e de Maria Nathalia Campelo do Nascimento, 27 anos, esposa dele, foram encontrados num canavial em Paudalho, na Zona da Mata Norte;
Por volta das 11h, durante buscas da Polícia Militar, Alex foi localizado em Tabatinga, trocou tiros com o efetivo e foi morto;
Outubro
Em 2 de outubro, Ana Letícia, que estava grávida de sete meses quando foi atingida pelos disparos, deu à luz uma menina ainda em coma;
Em 21 de outubro, Ana Letícia morreu após sofrer um quadro de choque séptico.
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