
O fenômeno climático El Niño já está em curso e deve se intensificar rapidamente até setembro, alcançando forte intensidade e aumentando o risco de fenônemos climáticos extremos, como ondas de calor, secas e chuvas extremas em diversas regiões do planeta. O alerta foi feito nesta sexta-feira (03/07) pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência das Nações Unidas para o clima e o tempo.
“O El Niño já está em andamento e deve se fortalecer rapidamente, transformando-se em um evento forte”, informou a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo.
A entidade não descarta revisões futuras que levem à classificação de um evento “muito forte”, caso as observações dos próximos meses confirmem a tendência.
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial central e leste, região que compreende o centro do oceano até a costa oeste da América do Sul. O fenômeno ocorre normalmente em intervalos de dois a sete anos e costuma durar de nove a doze meses. Seus efeitos alteram padrões de ventos, pressão atmosférica e chuvas em várias partes do mundo.
A organização prevê uma probabilidade extremamente elevada de temperaturas acima da média na maior parte das áreas habitadas do planeta neste trimestre. Historicamente, anos sob influência do El Niño costumam registrar recordes de calor global.
A última manifestação do fenômeno contribuiu para que 2023 se tornasse o segundo ano mais quente já registrado e para que 2024 estabelecesse o recorde histórico de temperatura média global, cerca de 1,55°C acima do nível pré-industrial de 1850 a 1900.
Aquecimento dos oceanos
A agência da ONU informou que as temperaturas da superfície do mar em áreas-chave de monitoramento devem superar em mais de 2°C a média histórica nos próximos meses. Além do Pacífico, também são esperadas temperaturas acima do normal em partes do oceano Índico e do Atlântico tropical.
Embora o pico do El Niño normalmente ocorra entre novembro e fevereiro, seus efeitos mais intensos sobre as temperaturas globais costumam aparecer meses depois. Segundo a OMM, os impactos devem ser sentidos até o fim de 2026 e avançar por parte de 2027.
As previsões sazonais indicam um padrão típico de um El Niño forte. Na América Central, no Caribe e em partes da América do Sul, são esperadas condições mais secas do que a média. Também há previsão de redução das chuvas em áreas do sul da Ásia durante a temporada de monções, além de partes da Indonésia e do Sudeste Asiático.
Efeitos no Brasil e no mundo
Entidades científicas e regulatórias brasileiras se reuniram para formular alertas e indicar políticas públicas diante do fenômeno climático. O primeiro boletim do chamado Painel El Niño, divulgado no fim de junho, indica probabilidade de chuvas acima da média em áreas da região Sul e de chuvas abaixo da média no centro-norte do país neste trimestre.
Segundo o documento, as altas temperaturas esperadas para o segundo semestre podem favorecer ondas de calor e aumentar o risco de incêndios florestais.
O Painel El Niño é formado por órgãos como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
No subcontinente indiano e em grande parte da Austrália, a tendência é de precipitações abaixo da média. Em contraste, são esperadas chuvas acima do normal no Pacífico equatorial central e oriental e em regiões do sudoeste dos Estados Unidos.
Na África, a previsão aponta chuvas acima da média em áreas próximas ao norte do golfo da Guiné e condições mais secas no Chifre da África.
Na Europa, a OMM projeta precipitações acima da média no sul e abaixo da média no norte do continente, embora ressalte que as previsões para a região são menos confiáveis do que em outras partes do mundo.
Influência do aquecimento global
A agência das Nações Unidas ressalta que não há evidências de que as mudanças climáticas aumentem a frequência ou a intensidade dos eventos de El Niño. No entanto, o aquecimento global pode amplificar seus efeitos, uma vez que oceanos e atmosfera mais quentes fornecem mais energia e umidade para eventos extremos, como chuvas intensas e ondas de calor.
Diante do agravamento previsto, a OMM informou que lançou uma “mobilização sem precedentes” para coordenar sistemas de informação climática e alerta precoce. A ideia é ajudar governos e organismos humanitários no enfrentamento dos efeitos do fenômeno, especialmente em setores vulneráveis às condições climáticas, como agricultura e saúde.
Alguns países já começaram a se preparar. Na quinta-feira (02/07), o Peru decretou estado de emergência por 60 dias em 800 de seus 1.800 municípios devido ao “perigo iminente” de fortes chuvas associadas ao El Niño. Mais de 9,3 milhões de pessoas foram colocadas sob alerta de risco muito elevado para enchentes e deslizamentos de terra.
sf/ra (RT, AFP, lusa, ots)
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