
As explosões que ecoam pela Serra das Araras chamam a atenção de quem passa pela Via Dutra (BR-116). Apesar da impressão de força e impacto, cada detonação faz parte de um processo altamente técnico, planejado nos mínimos detalhes e essencial para tirar do papel a maior obra rodoviária em andamento no Brasil.
Desde o início da construção da Nova Serra das Araras, em 2024, centenas de desmontes de rocha vêm sendo realizados para abrir espaço ao novo traçado da rodovia, que terá pistas mais largas, curvas mais suaves, viadutos e maior capacidade de tráfego. As detonações são uma das etapas mais delicadas da obra e envolvem engenharia, geologia, segurança e controle ambiental.

Antes da explosão, muito estudo
Ao contrário do que muitos imaginam, uma detonação não acontece apenas porque há uma grande rocha no caminho.
O trabalho começa muito antes, com estudos geológicos para identificar o tipo de rocha, sua resistência, presença de fraturas naturais e o comportamento esperado durante o desmonte.
Com essas informações, engenheiros elaboram um plano de fogo, que é o nome dado ao projeto que define exatamente onde serão perfurados os furos, a profundidade, a quantidade de explosivos, a sequência das explosões e a direção em que a rocha deverá se fragmentar.

Esse planejamento busca fazer com que a energia da explosão seja utilizada da forma mais eficiente possível, reduzindo vibrações, controlando a projeção de fragmentos e garantindo segurança para trabalhadores, motoristas e comunidades próximas.
Que explosivos são utilizados?
A concessionária responsável pela obra não divulga, por questões de segurança, as marcas comerciais nem a composição exata dos explosivos utilizados.
Em obras rodoviárias desse porte, porém, é comum o emprego de explosivos industriais específicos para mineração e engenharia pesada, como emulsões explosivas e ANFO (mistura de nitrato de amônio com óleo combustível), materiais desenvolvidos justamente para desmontar grandes volumes de rocha de forma controlada.

Também são utilizados detonadores eletrônicos ou não elétricos, capazes de disparar as cargas em intervalos de milissegundos. Essa sequência cuidadosamente programada faz com que a rocha seja fragmentada de maneira gradual, reduzindo vibrações e aumentando a precisão da operação.
Todo esse material é controlado pelo Exército Brasileiro, e seu armazenamento, transporte e utilização seguem normas rígidas da legislação brasileira.
Quem executa as detonações?
As explosões não são realizadas diretamente pela concessionária. Esse tipo de serviço é executado por empresas especializadas em desmonte de rochas e engenharia de explosivos, contratadas para atuar na obra. Essas empresas contam com engenheiros de minas, geólogos, técnicos em explosivos e profissionais conhecidos como blasters, habilitados para planejar e executar esse tipo de operação.
Além da equipe responsável pelas cargas, há profissionais dedicados exclusivamente ao monitoramento da segurança, da estabilidade das encostas e das vibrações provocadas pelas explosões.
Como funciona uma detonação?
No dia programado, a operação segue um roteiro bastante rigoroso.
Primeiro, são perfurados dezenas de furos na rocha, conforme o plano previamente elaborado. Em seguida, as equipes instalam as cargas explosivas e os detonadores.
Antes do disparo, toda a área é isolada. O tráfego na Via Dutra é temporariamente interrompido, equipes de segurança fazem a conferência completa do trecho e somente após a confirmação de que não há pessoas na área de risco é autorizada a explosão.

Após o desmonte, especialistas realizam uma nova inspeção para verificar se toda a carga foi detonada corretamente e se não há riscos antes da liberação do local.
Normalmente, as interdições duram cerca de duas horas, considerando preparação, detonação, inspeção e limpeza da pista.
Nada é desperdiçado
As toneladas de rocha retiradas da montanha não viram entulho. Todo o material segue para uma central de britagem instalada dentro do canteiro de obras, onde é triturado e transformado em brita, rachão e outros agregados utilizados na própria construção da Nova Serra das Araras.
O reaproveitamento reduz a necessidade de transportar materiais de outras regiões, diminui custos e também reduz os impactos ambientais da obra.
Um trabalho de longa duração
As detonações fazem parte da rotina da obra desde junho de 2024, quando ocorreu o primeiro desmonte de rochas para a implantação das novas pistas. Ao longo da execução, a programação é ajustada conforme o avanço dos serviços e pode até ser suspensa temporariamente em períodos de grande movimento nas rodovias, como férias e feriados prolongados, para reduzir impactos aos usuários.
Segundo a concessionária, somente em 2025 foram realizadas 169 detonações, responsáveis pelo desmonte de aproximadamente 300 mil metros cúbicos de rocha, todo ele reaproveitado na própria construção.
Engenharia para transformar a serra
Embora as explosões sejam uma das imagens mais marcantes da obra, elas representam apenas uma pequena parte de um projeto muito maior.

A Nova Serra das Araras receberá novas pistas de subida e descida, 24 viadutos, rampas de escape, iluminação em toda a extensão e sistemas modernos de monitoramento. Quando concluída, a expectativa é reduzir significativamente o tempo de viagem entre Rio de Janeiro e São Paulo, aumentar a segurança e eliminar um dos principais gargalos logísticos do país.
As detonações, são resultado de um processo de engenharia extremamente preciso, planejado para remover montanhas com segurança e abrir caminho para uma rodovia mais moderna e eficiente.
