
O trabalho do Supremo Tribunal Federal (STF) vão muito além das sessões transmitidas pelos canais digitais e televisão, em todas as tardes de quartas e quintas-feira. Longe das luzes das câmeras, a rotina dos magistrados da Suprema Corte judiciária do Brasil implica numa carga de tarefas que movimentam milhares de processos a cada semana. Veja o que faz um ministro do STF no dia a dia e qual o real papel deles na República.
Sem rodeios, o principal papel dos ministros do Supremo é serem guardiões da Constituição Federal de 1988 (CF 88). Isso quer dizer que eles detêm a última palavra sobre o que é permitido ou não por lei no Brasil, o que garante que nenhuma regra nova ou decisão de instâncias inferiores – tribunais federais e estaduais por exemplo – bata de frente com os direitos fundamentais dos cidadãos.
Ritmo do STF: fluxo volumoso de casos por mês
Segundo dados do último balanço dos trabalhos administrativos e jurisdicionais realizados no primeiro semestre de 2026, divulgado em 1º de julho, mostram nos bastidores funciona uma engrenagem importante para do Tribunal que opera em alta velocidade: cada um dos 11 ministros da Corte recebeu, em média, 909 novos processos para serem analisados por mês, de janeiro a 30 de junho de 2026, totalizando 5.454 ações por magistrado.
Essa avalanche de ações é processada com o apoio de equipes técnicas e assessores jurídicos presentes nos gabinetes de cada ministro. O volume é tão alto que, ao longo de um ano, a Corte pode registrar recebimento de mais de 86 mil processos novos.
Segundo dados divulgados pelo atual ministro do STF, Edson Fachin, a Corte proferiu o total de 60 mil decisões apenas na metade de 2026. Com a modernização administrativa e tecnológica do STF, segundo Fachin, permitiu a redução no número de ações tramitando na Corte, alcançando atuais 21 mil processos, um dos menores patamares registrados.

Decisões individuais vs. julgamentos do Plenário
É importante ressaltar a importância de um ministro que por uma única decisão individual (monocrática) pode suspender leis, anular atos de outros poderes (Legislativo e Executivo) e orienta todo o sistema jurídico brasileiro. O impacto de um simples veredicto pode ter efeitos “atômicos”.
Para entender melhor como funciona o trabalho de um magistrado, sua atuação se divide basicamente em duas frentes:
Decisões Monocráticas: são determinações individuais feitas por ministro relator (responsável) de um caso. Elas ocorrem normalmente em situações de extrema urgência ou quando o assunto já possui normas e entendimentos consolidados na Corte. Segundo dados do STF, cerca de 81% das decisões emitida no Supremo são monocráticas.
Leia mais: O ministro Flávio Dino decide de forma monocrática sobre aposentadoria compulsória de membros dos judiciário, tirando regalias de quem comete infrações graves.
Decisões em grupo: são fruto dos julgamentos feitos em grupo. Eles acontecem no Plenário geral (com a presença dos 11 ministros) ou em cada uma das duas Turmas – Primeira e Segunda Turma. Estas funcionam como um comitê menor formado por cinco magistrados cada, exceto o ministro presidente maior da Corte. Nesses ambientes circulam temas de grande repercussão nacional como direitos sociais, reformas econômicas e conflitos institucionais profundos que envolve interesse público.
Um dos casos mais emblemáticos sobre decisões em conjunto do STF foi a condenação dos mandantes pelos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes, pela Primeira Turma: Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin, Carmén Lúcia e Flávio Dino (presidente desta Corte).

O caminho dos processos na Corte maior
Para que um caso chegue até um ministro do STF, ele precisa antes passar por um processo de filtragem rígido. Não é da competência do magistrado julgar disputas judiciais comuns. O foco da instituição é concentrado em três grandes pilares:
- Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs): ações judiciais que contestam leis federais ou estaduais que possivelmente podem estar desrespeitando regras da Constituição.
- Recursos Extraordinários: processos que começaram na primeira instância da justiça comum, mas alcançaram o topo por envolverem discussão constitucional profunda cuja a decisão final vai servir de modelo para todo o sistema judiciário brasileiro – chamado popularmente de Repercussão Geral.
- Foro privilegiado: casos de julgamentos criinais de autoridades públicas específicas, como o Presidente da República, ministros, deputados federais e senadores.
O caso mais recente e de impacto sobre julgamento criminal de autoridades com foro privilegiado foi a condenação por unanimidade de deputados federais do Partido Liberal (PL) por corrupção, acusados de cobrar propina para liberação de emendas parlamentares.
Mas afinal, como o trabalho dos ministros do STF impacta no cidadão comum?
Os ministros lidam com temas nacionais e de grande impacto. Ao analisar casos de Repercussão Geral por exemplo, os magistrados ditam regras a serem cumpridas em todo território brasileiro, através de uma única decisão sobre um tema. E não para por aí, o impacto se extende a casos travados em tribunais que aguardam entendimento mais específico.

Segundo aponta o último balanço do STF, o julgamento de apenas 19 temas cruciais realizado pelos magistrados neste semestre – janeiro a junho de 2026 – impactou e liberou mais de 42 mil processos que estavam travados e que aguardavam uma definição em instâncias inferiores do Judiciário brasileiro.
Seja julgando autoridades com prerrogativa de função, liberando medicamentos de alto custo no Sistema único de Saúde (SUS) ou decidindo pela constitucionalidade de um imposto, a canetada de um ministro do Supremo Tribunal traça regras da dinâmica democrática, sendo os tradutores diretos do texto da lei para aplicação na realidade da sociedade.


