
Mal a Bélgica tinha marcado o terceiro gol, com Hans Vanaken, e nos grupos de WhatsApp a primeira mensagem foi disparada: STOP THE COUNT.
Parem a contagem, em tradução, livre. Foi o grito de desespero de Donald Trump quando viu que a reeleição estava indo para o vinagre em 5 de novembro de 2020.
Naquele momento, o ainda presidente dos Estados Unidos agia como quem, diante da derrota iminente, pega a bola, rasga, e vai para casa crente de que a brincadeira só existe quando é ele quem ganha. Até hoje ele não admite ter perdido aquela eleição para Joe Biden. Segue inventando que houve fraude nas urnas e fingindo que não foi ele o responsável por induzir uma multidão de indigentes que foi até Washington, dois meses depois, para invadir o Capitólio e exigir a anulação da contagem eleitoral com tiro, porrada e bomba.
A piada saiu dos grupos de mensagem privados e chegou a Trump. Hoje novamente chefe da Casa Branca, ele recebeu uma enxurrada de comentários e provocações após a goleada sofrida pela seleção norte-americana contra os belgas. A maioria das manifestações era silenciosa e vinha com uma simples bandeira do país europeu endereçada ao republicano.
“Manda anular o gol da Bélgica agora”, diziam alguns.
Trump, o anfitrião da festa, foi o grande derrotado da noite ao bancar o dono da bola e colocar o peso político a favor da seleção de seu país. Ele exigiu da Fifa a reversão da suspensão do atacante norte-americano Folarin Balogun.
Balogun havia sido expulso pelo árbitro brasileiro Raphael Claus no jogo anterior, contra a Bósnia e Herzegovina. Pelo regulamento, ele cumpriria suspensão automática nas oitavas de final, contra a Bélgica.
Mas Trump decidiu entrar em campo para (tentar) mudar a história. Telefonou pessoalmente para o presidente da FIFA, Gianni Infantino, e exigiu a revisão do lance, sob o argumento de que Claus era “um pouco suspeito”.
A Fifa cedeu à pressão e, abrindo um precedente histórico, acionou o Artigo 27 do seu código disciplinar para adiar a suspensão por um ano em caráter de “estágio probatório”. Balogun foi liberado e entrou em campo contra a Bélgica.
A canetada mobilizou até o governo belga. O ministro das Relações Exteriores belga, Maxime Prévot , chamou o ato de “violação flagrante das regras básicas do esporte”. Trump, ao seu estilo, disse que, se Balogun ficasse de fora, a partida seria “manipulada” contra o seu país.
Foi a maior arma que um anfitrião poderia dar aos rivais.
Mordida, a Bélgica entrou em campo comendo a grama e goleou os Estados Unidos por 4 a 1.
A cada gol, os atletas belgas ironizaram o presidente estadunidense fazendo a famosa “dancinha de Trump”. Até o perfil oficial da seleção da Bélgica provocou nas redes sociais. “Overturn this” (ou “anulem isto”), escreveu a confederação do país no X.
Trump colou na própria equipe uma antipatia que sequer tinha razão de ser. Até o republicano interferir e estragar tudo, a seleção dos EUA faziam ótima campanha e atropelava quem estivesse à frente. Tinha bons jogadores e um histórico de sacrifício e superação com atletas como Miles Robinson e Christian Pulisic.
Com Trump no meio-de-campo, o time anfitrião virou o time a ser batido. Era todo o mundo contra os Estados Unidos.
Trump fez nos gramados o que está acostumado a fazer no tabuleiro do xadrez global. Só que, aqui, a goleada mal começou.
