
Kylian Mbappe acertou de novo. Desta vez, fora dos campos. Atacado por uma senadora do Paraguai após a França eliminar a seleção do país, o futuro maior artilheiro da história das Copas declarou que “Madame Celeste Amarilla é uma mulher desprezível e indigna de sua função”.
O astro francês não tem boa pontaria só com os pés. É exatamente o que ela é.
A briga começou quando a parlamentar foi às redes chamar o atacante de “camaronês colonizado que finge ser francês”. Ela classificou o atleta como “ressentido, novo-rico, arrogante e feio”. E lamentou que os compatriotas não tenham dado um tapa nele ao fim do jogo da fase de 16 avos de final do Mundial. “Esse bruto nem aprendeu a escrever. Em vez de leite materno, mamou em cocos, e os seres mais instruídos que ouviu foram chimpanzés”, escreveu ela em mensagem pública ao goleiro Orlando Gill.
Sim, o que ela fez tem nome. E Mbappe sabe disso.
Chocados, o atacante e parte do Planeja descobriram assim, da pior maneira, como opera a cabeça da elite sul-americana. Do Paraguai, uma ex-colônia espanhola, ela inverte o jogo contra a França, um país colonizador, ao usar as origens africanas de um filho de imigrantes para performar uma suposta superioridade. Ela, afinal, é uma mulher branca, e rica, em um país onde a maioria da população tem traços indígenas.
A explicação dela para a pose é uma aula de cafonice e afetação. Para evocar autoridade, Celeste citou a sua “forte ligação cultural com a Europa”, resumida ao período em que estudou em um colégio francês, dos dois aos 17 anos. Citou também fluência no idioma do país europeu, para onde viaja recorrentemente.
A carteirada não deixa mentir: a ascendência europeia dá a ela a ilusão de que pode dizer, de cima para baixo, quem ocupa a posição hegemônica nesta partida fora de campo. Uma escravizadora do século 19 não seria tão petulante.
Celeste Amarilla conseguiu o que queria ao ver as buscas pelo nome dela no Google dispararem. Ficou tão feio que o governo paraguaio, o chefe do Congresso e diversos parlamentares emitiram notas públicas de repúdio contra a colega racistinha.
Mbappe não chegou nem perto de cair com o tranco. Deixou a concentração para travar a batalha que realmente importa e dizer que o Paraguai transpirou paixão e honra ao longo de toda a Copa. Mas que, pela falta de consciência e racismo da senadora, “o mundo inteiro já esqueceu o percurso e o esforço histórico que seus jogadores realizaram durante o Mundial”.
Essa trajetória acaba de ser ofuscada por “uma senhora incompetente que oferece a pior imagem possível de seu país”.
“Eu nunca deixarei que pessoas como ela tenham a liberdade de propagar seu ódio e seu racismo pelo mundo”, escreveu o craque, que antes já usou o peso político de sua imagem e se posicionou contra bets e a perseguição aos imigrantes em seu país.
Não seria exagero dizer que o atacante é hoje uma das maiores barreiras para que gente como a família Le Pen, de extrema-direita, chegue ao poder em seu país e solidifiquem uma prateleira social de cidadãos de primeira e segunda categorias. Pelo Paraguai, hoje um anexo dos Estados Unidos, ele não pode fazer nada a não ser lamentar a arrogância de uma elite tão brega quanto perigosa. Nem por isso pode deixar barato declarações do tipo. Ninguém deve. Mesmo que esteja ocupado enquanto treina para a maior competição do Planeta. Os fãs podem colocar este como o grande gol do craque em toda a competição.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do iG
