
Celebrado nesta semana, o Dia Nacional da Ciência é também uma oportunidade para conhecermos quem transforma pesquisa, tecnologia e exploração espacial em realidade. Uma dessas profissionais é Gigi Lucena, recifense que hoje trabalha no Laboratório de Propulsão a Jato (JPL), da NASA.
A cientista é Gestora de recebimento e entrega de dados da Rede de Espaço Profundo. Ficou difícil de entender? Calma! Vamos te explicar mais abaixo. Mas já dando um spoiler, ela participa da comunicação entre a Terra e algumas das missões mais distantes e importantes do setor espacial.
Em entrevista ao iG, Girly contou como saiu de Pernambuco, começou um estágio não remunerado no JPL e construiu uma carreira ligada a missões como Artemis, Perseverance e Cassini. Confira:
Antes de chegar a essa posição, a brasileira precisou atravessar vários desafios. Mudanças de país, dificuldades financeiras, maternidade, uma nova língua e a insegurança de não saber se teria espaço em um dos principais centros de pesquisa espacial do mundo.
O sonho de continuar estudando
Gigi cresceu em Recife e começou a estudar Matemática na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). As dificuldades pra conciliar trabalho, estudo e questões familiares, no entanto, fizeram com que ela interrompesse o curso.
Ainda jovem, começou a trabalhar como como programadora e, aos 27 anos, mudou-se com o marido para os Estados Unidos, sem falar inglês e com o desejo de retomar os estudos.
Nos Estados Unidos, ela começou a estudar no Santa Monica College. Como estudante internacional, precisava lidar com os custos elevados da formação e, aos poucos, conseguia avançar fazendo uma disciplina de cada vez.
O bom desempenho acadêmico chamou a atenção de uma de suas professoras. Com um GPA próximo de 3,9 – índice usado pelas instituições de ensino dos Estados Unidos para calcular o rendimento dos estudantes -, ela foi incentivada a tentar uma vaga de estágio na NASA.
O estágio que mudou sua tragetória
Quando decidiu se candidatar, em 2015, Gigi – como é conhecida nas redes sociais – foi avisada de que a seleção estava muito concorrida. Ainda assim, resolveu tentar.
E não é que deu certo? A brasileira e outra estudante conseguiram as vagas. O estágio, porém, não era remunerado e duraria três meses. Nesse período, Gigi precisava pagar transporte e outras despesas, continuar os estudos e cuidar do filho, Davi, que tinha cerca de três anos e meio.
Ao chegar ao JPL, escolheu trabalhar em uma das áreas mais disputadas: robótica. Mesmo com oito anos de experiência em programação no Brasil, recebeu uma tarefa que exigia conhecimento em Python, linguagem com a qual ainda não havia trabalhado.
Gigi conta que a maternidade se tornou parte da força necessária para continuar sua tragetória. “Eu acho que depois que eu tive o Davi, eu sempre falo que ele me deu superpoderes”, completa.
Para a alegria da pernambucana, o estágio, que inicialmente era de três meses, foi prorrogado por um ano. Depois, veio o convite para se tornar funcionária e conciliar o trabalho com a universidade. Foi assim que ela concluiu o bacharelado e passou a trabalhar em tempo integral no JPL.
O peso de ser mulher na engenharia
Durante essa trajetória, Gigi também enfrentou barreiras relacionadas ao fato de ser mulher em um ambiente de ciência e engenharia. Ela relata que, muitas vezes, precisou entregar mais trabalho para conquistar credibilidade.
O período também coincidiu com a morte da mãe. Ao falar sobre o cansaço e a dor daquele momento, a brasileira relembrou como essa fase de sua vida foi desafiadora.
“Eu tinha a sensação de que minha alma estava sangrando de dor”, relata.
Mesmo diante das dificuldades, Gigi passou a enxergar aquela oportunidade como algo que não pertencia apenas a ela. Para a pernambucana, permanecer naquele espaço também significava mostrar a outras mulheres, principalmente do Nordeste, que esse caminho era possível.
Essa percepção se tornou ainda mais clara durante uma participação na Space Week Nordeste. Ao final do evento, jovens e mulheres se aproximaram para dizer que enxergavam nela um exemplo.
“Algumas mulheres me abraçaram e choraram, dizendo: você me faz acreditar que eu posso. E eu: sério? Por quê? Elas diziam: você é uma de nós. E você chegou lá, então eu posso chegar.”
Como a NASA conversa com o espaço profundo
Gigi começou na Rede de Espaço Profundo como engenheira de sistemas. O trabalho envolvia configurar espaçonaves para que elas pudessem se comunicar com a estrutura da NASA.
A rede conta com complexos localizados em Goldstone, na Califórnia, Madri, na Espanha, e Canberra, na Austrália. A posição dessas três instalações permite manter comunicação contínua com diferentes regiões do espaço.
As antenas enviam comandos e recebem telemetria, imagens, vídeos e dados científicos. É por meio dessa estrutura que a NASA mantém contato com missões distantes, inclusive as sondas Voyager 1 e 2.
Para Gigi, os dados transmitidos pelas espaçonaves precisam ser tratados como um material valioso. Muitas vezes, nem mesmo a equipe responsável pelo recebimento sabe quais descobertas poderão surgir quando os cientistas começarem a analisar as informações.
“Os dados que a gente recebe são um tesouro, porque a gente não sabe o que está chegando. Quando os cientistas abrirem e começarem a ler os códigos, o que é que eles vão descobrir?”
O último sinal da Cassini
Entre as missões que mais marcaram a brasileira está a Cassini, enviada para estudar Saturno e suas Luas. Ao final da missão, em 2017, a espaçonave foi conduzida para a atmosfera do planeta.
A decisão evitou que o equipamento pudesse contaminar ambientes como Titã e Encélado, Luas consideradas importantes para pesquisas sobre habitabilidade. Para quem acompanhava a comunicação, porém, o último sinal teve um peso emocional.
Ela explica que o vínculo com uma missão não se resume à máquina. Cada equipamento representa anos de estudos, propostas, testes, desenvolvimento tecnológico e trabalho de centenas de profissionais.
“Quando a gente desliga, não é só uma máquina… Passa toda aquela história, aquele filme, né? De tudo o que aconteceu para ela existir.”
Um sonho para o setor espacial brasileiro
Para estudantes que desejam trabalhar no setor, a brasileira lembra que as oportunidades não estão restritas à NASA. Agências espaciais de diferentes países, universidades e empresas privadas ampliaram as possibilidades nos últimos anos.
A engenheira de dados também acompanha com expectativa o desenvolvimento do setor espacial brasileiro e destaca o potencial do Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão, além da capacidade dos pesquisadores e estudantes do país.
A engenheira de dados acredita que parcerias com empresas privadas podem ajudar a transformar ideias em projetos e abrir novas possibilidades para cientistas brasileiros.
“Eu quero ver mais desenvolvimento dentro do Brasil, porque a gente tem capacidade intelectual, não tenha dúvida que a gente tem e muito.”
Temos mesmo, Gigi. E você é um exemplo disso.
Uma mulher, nordestina, que rebrilha em um dos maiores centros de pesquisa do mundo.
Que sua história possa inspirar muitas outras nesse planeta que chamamos de nosso.
Viva a ciência nacional! Ela, sem dúvidas, rende valiosos frutos e alimenta – e muito – a ciência internacional.
