Legado da Revolução de 1932: base aérea usada por soldados deu origem ao Aeroporto de Campinas


Voluntários paulistas durante a Revolução Constitucionalista de 1932
Arquivo/1932 Frente Leste
Com bases aéreas e ferrovias, Campinas (SP) foi um importante centro logístico para os paulistas que lutaram na Revolução Constitucionalista de 1932. A tentativa de levante completa 92 anos nesta quinta-feira (9).
Autor do livro “O Menino Herói da Guerra Paulista – O Bombardeio de Campinas”, publicado em 2014, o jornalista Luiz Roberto Saviani Rey conta que tanto a área que hoje abriga o Aeroporto de Viracopos quanto a do Campo dos Amarais foram usadas como bases aéreas pelos constitucionalistas.
🔍O feriado da Revolução Constitucionalista traz à memória o movimento liderado pelo estado de São Paulo contra o governo de Getúlio Vargas. Os combatentes exigiam o fim do governo ditatorial e a convocação de eleições. O movimento começou em 9 de julho de 1932 e terminou com a rendição do Exército Constitucionalista em 2 de outubro.
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Já naquela época, Campinas era uma das cidades de maior influência do estado. De acordo com dados da Força Aérea Brasileira (FAB), acredita-se que os constituintes possuíam entre quatro e seis aviões, por isso as bases de apoio eram essenciais para realizar reparos e abastecer as aeronaves.
“Durante os meses de julho, agosto e setembro de 32, os paulistas, cujo comando situava no Largo São Sebastião, no centro de Campinas, utilizaram o espaço de Viracopos, então um embrião de aeroporto, para operações aéreas do movimento, que foram intensas”, explica.
Naquela época, tanto Viracopos quanto o Campo dos Amarais não funcionavam com aeroportos oficialmente. Só em 1946, o então prefeito de Campinas Joaquim de Castro Tibiriçá assinou um decreto que formalizou o início do terminal.
Viracopos foi fundado em 1930 e homologado em 1960
Biblioteca municipal/Acervo MIS Campinas
Já o Campo dos Amarais foi inaugurado em 1939. A região do aeroporto também foi utilizada para prestar apoio aos poucos aviões em posse dos paulistas, conhecidos como “Gaviões do Penacho” e que vinham do Campo de Marte, em São Paulo.
As duas bases aéreas se encontravam em situações precárias pela falta de recursos dos paulistas, que precisavam improvisar as pistas de pouso, segundo o jornalista.
“Muitas vezes, os soldados paulistas cavavam com ferramentas à mão as pistas improvisadas”, disse Rey.
Esse movimento deu origem aos dois aeródromos que funcionam até hoje na cidade. O Aeroporto Campo dos Amarais possui um aeroclube para formação de pilotos.
Estação Cultura também foi usada
Estação de Campinas em 1913
Reprodução/ Arquivo Unicamp
Outro ponto utilizado para apoio do levante era a Estação de Campinas, onde hoje funciona a Estação Cultura. A linha férrea se conectava às principais cidades da região, o que permitia o transporte de recursos, soldados e armas.
De acordo com Rey, a região da estação concentrava também o comando de guerra de Campinas, que recebia ordens da liderança do movimento.
“A estação concentrava o comando de guerra, instalado no Largo do Rosário. Dela partiu, inicialmente, em julho, o trem levando os dois mil voluntários de Campinas para Itapira, com vistas à Batalha de Eleutério, na divisa com Minas Gerais. Em seguida, os trens que transportavam munição e suprimentos às tropas”.
Neste contexto, a Companhia Mogiana, uma das companhias de trem que operavam em Campinas, iniciou a construção de um trem blindado para auxiliar as tropas paulistas.
Perto do fim da guerra, em 18 de setembro, a estação foi alvo de um bombardeio do Governo Federal, com o objetivo de desestruturar as tropas revolucionárias.
“Ocorreram ataques aéreos a casas e empresas próximas da estação, como a Companhia McHardy. A Casa de Saúde também sofreu ataques”, explicou Rey.
O bombardeio matou o escoteiro Aldo Chioratto, de nove anos, que passou a ser considerado um dos heróis da cidade, e deixou cerca de 20 pessoas gravemente feridas. Ao todo, a cidade foi alvo de 10 ataques aéreos.
O corpo de Aldo Chioratto foi enterrado no Mausoléu dos Voluntários de 1932, no Cemitério da Saudade, em Campinas. O memorial abriga os restos mortais dos soldados campineiros voluntários mortos durante a revolução.
Entenda a Revolução Constitucionalista
Trem blindado utilizado na época
Divulgação
Após a revolução de 1930, Getúlio Vargas assumiu o governo do Brasil e encerrou o período conhecido como Primeira República, ou República do Café com Leite, em que mineiros e paulistas se revezavam no poder.
Isso fez com que os estados passassem a ser governados por interventores nomeados pelo governo, criando um clima de insatisfação nas elites cafeeiras, estudantes, comerciantes e em parte da população.
Em resposta às decisões varguistas, os revoltosos do estado de São Paulo deflagraram a revolução. O levante começou após quatro jovens serem mortos pelo regime Vargas durante uma manifestação em São Paulo.
O levante buscava principalmente uma nova constituição para limitar os poderes de Vargas.
Sem o apoio de outros estados do país e com tropas e recursos muito menores que os dos inimigos, os paulistas se renderam no dia 1º de outubro de 1932, após derrotas nas linhas de frente e o avanço das tropas federais.
*Estagiário sob supervisão de Bárbara Camilotti
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